Inércia

Eu tô cansada e você também, mas a gente não para. A gente rema, rema, rema, mas não chega. Porque chegar dói. Chegar requer um esforço que a nossa dor já consumiu. A gente ri, inventa novas histórias e leva a vida, agora adultos, mas lá no fundo a gente parou e nunca saiu do lugar. A gente fez um mundo novo e com novos sonhos, ganhou demais e conquistou o mundo, mas de certa forma perdeu muito mais.
A gente finge que não é mais amor, mas é descarado.

A gente responde e-mail, dá presença na faculdade, lê livro, faz resumo, trabalha, frequenta academia, faz dieta, discute política, conspiração. Vê séries. Faz séries. Quer viver séries. Mas no fundo a gente vive um pro outro e não serviria pra câmeras.

A gente só sabe ser isso. Um do outro. A gente ama os outros. A gente conjuga verbo. Jura pelo o que é mais sagrado que dessa vez estancou a hemorragia. Mas meh. Você ocupa os lugares mais bonitos aqui de dentro.

Você já leu isso em algum lugar e eu também. Acaba lembrando os velhos tempos, sabe como é, mas eu quero te falar pra não parar de remar. Eu sei que tá difícil e isso já nos engoliu mais do que deveria, mas se você remar, eu remo também. Se você levar esse barco, eu levo a maré inteira.

Eu não quero parar. Não quero mesmo. Dói todos os músculos, mas eu não quero parar. Porque parar exige uma força maior do que continuar. E continuar é horrível, mas pelo menos tem parte de você.

Fazem anos, fazem dias, meses e daqui a pouco uma década se brincar, mas não para de remar. Porque esses dias eu tava rindo e cantando e bebendo e fumando, mas não parava de tentar achar abrigo na nossa história.

É inércia fora do comum. A gente não tem culpa. A gente tenta porque não tentar é desumado.

Like what you read? Give Eduarda Leichtweis a round of applause.

From a quick cheer to a standing ovation, clap to show how much you enjoyed this story.