Católico ou protestante? A história de Contarini e a Reforma

Qual é a diferença fundamental entre a fé católica romana e a protestante? A história do cardinal Gasparo Contarini em Ratisbona ilustra a resposta.

Original por Chris Castaldo: https://blogs.thegospelcoalition.org/ryanreeves/2016/06/01/catholic-or-protestant-the-story-of-contarini-and-the-reformation/

Tendo estudado filosofia na Universidade de Pádua, Contarini (1483–1542) tornou-se um líder da renovação evangélica na Itália. Muito poderia ser dito sobre sua carreira como diplomata imperial, sua escalada ao cargo de cardinal (1535), e sua defesa da nova ordem jesuíta (1540), mas nos focaremos em sua interação com os protestantes a respeito do Evangelho.

CONTARINI ENTRE AMIGOS

Contarini gostava de debater teologia com seus colegas. Certa vez seu amigo Tomasso Giustiniani escreveu para Contarini, preocupado que a Ordem Eremita dos Camaldulenses, que Giustiniani havia entrado recentemente, não provia a certeza da salvação. [1] Isso perturbou Contarini e o levou a reexaminar sua fé. Da mesma forma que Lutero, a crise de Contarini girava ao redor da questão de como alguém pode ter a certeza do perdão divino.

Um raio de esperança acabou atravessando a negra nuvem de dúvida de Contarini. No que chamou de “Santo Sábado de 1511” ele “experimentou um momento de iluminação” que foi comparado a epifania de Lutero, onde “ele estava totalmente convencido que sua salvação não poderia ser ganha por nenhum ato humano, mas pela dádiva gratuita de Deus; e, também como Lutero, essa convicção veio acompanhada da percepção que o monastério não poderia, por si mesmo, fornecer uma bem-aventurança eterna”. [2] Essa descoberta deixou Contarini espantado. Um historiador católico do século 20, Hubert Jedin, descreveu esse momento como uma “experiência da torre”.[3] Assim como Lutero, esse despertar levou Contarini a uma doutrina de imputação. Mas, ao contrário de Lutero, também inspirou um espírito ecumênico.

A PRIMEIRA REUNIÃO ECUMÊNICA [4]

Gasparo Contarini

Uma oportunidade para Contarini dialogar com protestantes surgiu em Abril de 1541, quando Carlos V organizou um conselho para unir seu império contra as ameaças externas. O Imperador organizou uma conferência teológica em Ratisbona para acompanhar as sessões diplomáticas que aconteceriam ao mesmo tempo. Dado o relacionamento entre Igreja e Estado na era pré-moderna, a solidariedade religiosa entre católicos romanos e protestantes era um passo importante para a coesão política em toda a Europa.

Enquanto isso, na década de 1540, as igrejas protestantes já haviam estabelecido suas convicções teológicas básicas. Em 1530 Melanchton terminou de editar a Confissão de Augsburgo; João Calvino finalizado a primeira edição de sua magnum opus, as Institutas da Religião Cristã, em 1536. Além disso, os slogans doutrinários como sola fide (fé somente) haviam se tornado familiares por toda a Europa. Isso tudo significava que o sonho de Carlos V da unificação entre católicos e protestantes não seria uma tarefa fácil.

Foi uma reunião da elite intelectual protestante, com mentes brilhantes de ambos os lados escolhidos para participar. Em 21 de Abril de 1541 o Imperador divulgou seus nomes. Filipe Melanchthon, Martin Bucer e Johann Pistorius representando os protestantes (com um jovem João Calvino os acompanhando). Para a Igreja Católica Romana, Johann Eck, Johann Gropper e Julius Pflug. O cardinal Gasparo Contarini foi como representante papal, aconselhando os debatedores católicos nos bastidores. A assembleia teológica veio a ser conhecida como Colóquio de Ratisbona. [5]

Para a surpresa de muitos participantes, a discussão teológica teve acordos consideráveis. Os primeiros quatro artigos debatidos, lidando com a criação dos humanos e seu estado depois da queda; livre arbítrio; a causa do pecado e o pecado original não foram contestados nem mudados por nenhum dos lados. [6]

Na segunda reunião, em 28 de Abril, o foco passou a ser a polêmica doutrina da justificação. Tanto Eck quanto Melanchthon não estavam contentes com o “artigo longo e altamente ambíguo”. [7] Já que foi considerado inadequado, o grupo preferiu discutir abertamente ao invés de seguir o procedimento. Depois de muito debate e troca de rascunhos, os dois lados concordaram em 2 de Maio, quando os protestantes fizeram emendas que consideraram satisfatórias na versão católica. O lado católico, por sua vez, consentiu com as mudanças. A concordância no Artigo Cinco tornou-se oficinal. [8] A forma com que essas concessões católicas foram recebidas pelos protestantes pode ser vista em uma carta pessoal de Calvino para seu amigo Guilherme Farel:

Você ficará maravilhado quando ler a cópia do artigo sobre justificação (…) que nossos adversários concederam tanto. Eles se comprometeram com os essenciais da verdade em nosso ensino. Não se encontra nada nele que não esteja em nossos escritos. [9]

DIVISÃO FUNDAMENTAL

Tendo concordado na doutrina de justificação, a discussão continuou em 3 de Maio, agora sobre a Igreja e sua autoridade. Aqui a tensão aumentou. Os Artigos Seis até o Oito foram aceitos sem muita disputa. Então veio o Artigo Nove, que lidava com a autoridade da Igreja.

Como nas declarações anteriores, o Artigo Nove foi expresso em termos conciliadores e pouco polêmicos. Referências ao papel de ensino do papado foram deliberadamente omitidas. Mesmo assim, ele afirmava que a Palavra de Deus não era encontrada apenas nas Escrituras, mas na tradição dogmática da igreja. Em resposta, Melanchthon afirmou a doutrina de sola Scriptura (apenas as Escrituras), já que elevar a tradição ao lugar da Escritura significaria traição da causa evangélica. Como o assunto era de fundamental importância para o ensinamento católico romano, os dois lados ficaram em um impasse doutrinário. Todos os participantes reconheceram que o colóquio estava sob a ameaça de um conflito irreparável.

Conde Frederico do Palatino propôs que os protestantes escrevessem uma declaração como alternativa. “Assim como o artigo original, o rascunho protestante não era polêmico, e esforçou-se grandemente para acomodar a posição católica”.[10] Essa declaração reconhecia o papel interpretativo da Igreja. Seguindo a visão de Agostinho, concordaram que a Escritura deveria ser propriamente entendida pela Igreja. Apesar disso, o lado protestante discordou que a interpretação da Escritura deveria estar ligada a um ofício eclesiástico, como o papado. Eles argumentaram, “´Portanto, por uma perspectiva histórica, assim como teológica, a infalibilidade dos Concílios e dos Pais da Igreja não pôde ser aceita”.[11]

Confrontado por esse difícil empecilho, Granvelle interviu, pedindo para que novas discussões no Artigo Nove fossem adiadas para o final do colóquio. Para os espectadores pode ter parecido que a reunião seguia de acordo com o esperado, mas para os participantes a severidade do impasse era óbvia.

Com a questão da autoridade evitada, a ruína do colóquio parecia certa. Mesmo com o diálogo prosseguindo para lidar com os artigos de 10 a 17, sobre os sacramentos, o dilema do Artigo Nove continuava a pairar no ar. Finalmente, quando chegaram na doutrina da Eucaristia, Contarini mudou seu jeito conciliador e dogmaticamente insistiu no uso do termo “transubstanciação”. Outro debate começou. O historiador Michael McDuffe explica a provável razão de Contarini ter mudado sua atitude tão drasticamente:

Contarini apressou o fim do diálogo quando exigiu que os elementos da ceia fossem entendimentos nos termos da transubstanciação. Ele provavelmente fez isso para proteger-se depois que a questão da autoridade deixou claro que não haveria um acordo geral (…) É verdade que não houve um acordo sobre a presença real de Cristo [na Ceia], entretanto, esse foi um conflito anticlimático. As diferenças doutrinárias diminuíram de significado em comparação com a questão mais importante, “quem tem autoridade para ditar questões doutrinárias?” Esse continua sendo o ponto de divisão mais importante entre o catolicismo e protestantismo hoje. [12]

DIFERENÇA BÁSICA

O Colóquio de Ratisbona acabou em 29 de Maio, tendo durado cerca de um mês, enquanto a convenção imperial continuou até 29 de Julho. [13] Depois que a convenção acabou, Contarini viajou para a cidade italiana de Lucca para comparecer em um encontro do Imperador Carlos V e o Papa Paulo III. [14] Chegando em 7 de Setembro, Contarini hospedou-se em San Frediano, o monastério onde Pietro Martire Vermigli servia como prior. [15] O biógrafo contemporâneo de Vermigli, Josiah Simler, indicou que nesses dias, “Martire e Contarini tiveram discussões diárias sobre religião”.[16] De acordo com Simler, essas discussões foram sobre o debate de Ratisbona.

O que a história de Contarini nos ensina sobre a diferença fundamental entre a fé católica romana e a protestante e evangélica? Em resumo, ela ilustra a questão crucial de autoridade religiosa. Quando forçado a escolher entre seu entendimento bíblico do evangelho e a autoridade da instituição católico romana, Contarini submeteu-se a autoridade de Roma. Outros reformadores italianos como Pietro Martire foram diferentes, preferindo viverem exilados pelo evangelho. Mas Contarini era verdadeiramente um católico, como demonstrado pela escolha do papado ao invés de sua própria consciência. Essa continua a ser a diferença básica entre católicos e protestantes até hoje.


[1] Felix Gilbert, History: Choice and Commitment (Cambridge: Harvard University Press, 1977), 252.

[2] William J. Bouwsma, Venice and the Defense of Republican Liberty (Los Angeles: University of California, 1984), 124.

[3] O termo usado por Jedin, “Turmerlebnis”, sugere um paralelo com a experiência de conversão de Lutero. Veja: H. Jedin, “Ein Turmerlebnis des jungen Contarinis,” em Kirche des Glaubens-Kirche der Geschichte: Ausgewählte Aufsätze und Vorträge, ed. H. Jedin (Freiburg: B. Herder, 1966), 1:167–190.

[4] nota do tradutor: O autor colocou “the original Evangelicals and Catholics Together”, fazendo referência a um documento ecumênico assinado por protestantes e católicos americanos em 1994.

[5] Por vezes chamado de Colóquio de Regensburg, o nome germânico da cidade.

[6] Hans J. Hillerbrand ed. The Oxford Encylclopedia of the Reformation (New York: Oxford University Press, 1996), 377–378.

[7] Peter Matheson, Cardinal Contarini at Regensburg (Oxford: Oxford University Press, 1972), 105.

[8] Protestantes e católicos terem concordado na doutrina da justificação (Artigo Cinco) foi devido a ideia de justiça dupla (duplex iustitia), a noção que a conversão traz uma justiça inerente e imputada. Já que a posição ensinada era a que deveríamos depender totalmente da segunda (imputação) para sermos aceitos perante Deus, e não depender de nossa justiça inerente para tal perdão, a doutrina alinhou-se com o ensinamento dos reformadores protestantes. Em poucos anos, entretanto, o Concílio de Trento iria adotar uma posição bem diferente, insistindo na justiça inerente. Para mais nesse tópico, leia Anthony N. S. Lane “A Tale of Two Imperial Cities: Justification at Regensburg (1541) and Trent (1546–1547)”. Em Justification in Perspective: Historical Developments and Contemporary Challenges, editado por Bruce L. McCormack (Grand Rapids, MI: Baker Academic, 2006), 119–145.

[9] Matheson, Cardinal Contarini at Regensburg, 142.

[10] Ibid., 118.

[11] Ibid.

[12] Michael McDuffee, entrevistado pelo autor, 11 de Dezembro de 200, Chicago, IL, email eletrônico

[13] Heinz Mackensen, “The Diplomatic Role of Gasparo Cardinal Contarini at the Colloquy of Ratisbon of 1541”, Church History 27 (1958): 316.

[14] Elisabeth Gleason, Gasparo Contarini: Venice, Rome, and Reform (Berkeley: University of California Press, 1993), 259. Marvin W. Anderson, Peter Martyr, a Reformer in Exile (1542–1562): A Chronology of Biblical Writings in England & Europe (Nieuwkoop: De Graaf, 1975), 46.