Pela primeira vez…

Uma carta.

Pela primeira vez em (quase) um ano e meio acordei sem poder te dar bom dia. Sei que várias vezes não te dei bom dia por algum motivo fútil que nem lembro, mas dessa vez foi porque não pude.

Pela primeira vez não te perguntei se está tudo bem, se você dormiu bem.

Não posso mais te perguntar os seus planos para o dia.

Pela primeira vez não pude te mandar e nem receber nada, nem uma foto, nem um texto, nem uma ideia.

Não pude esperar receber algo de você, nem seus vídeos sobre nossas aflições, nem suas palavras de apoio.

Pela primeira vez não me animei com uma mensagem sua chegando.

Pela primeira vez nesse tempo não pude te mandar uma música que gostei, nem falar do filme que vi.

Não pude ler e ouvir sobre o que você anda ouvindo e assistindo.

Pela primeira vez não vou poder te dizer que meus olhos estão marejados.

Depois de tanto tempo, ir para casa sem poder buscar um assunto para conversar contigo sobre, voltar para o trabalho sem poder pensar em uma conversa — esforço em que falhei várias vezes durante esse pouco mais de um ano — , parece estranho e vazio.

Pela primeira vez passei a tarde de um dia frio sem dizer para você que aqui está frio e sem perguntar se aí também está.

E não pude te dizer o que aperta meu coração.

Pela primeira vez em mais de um ano não pude saber das coisas do seu dia, coisas que você viu e sentiu, ao chegar em casa à noite, e nem te contar das coisas do meu dia.

E não te dei nosso boa noite, que também por motivos fúteis já deixei de dar, mas dessa vez foi porque não pude.


Antes disso, porém, dentro desse quase um ano e meio, pela primeira vez eu me senti completo.

Me senti melhor do que minhas angústias.

Tive propósito e me senti forte. Senti um calor no coração e na alma.

Nada disso será apagado ou esquecido. Esse calor que você me fez sentir estará sempre guardado em um lugar especial e para sempre eu vou lembrar desse tempo que compartilhamos.

Espero que nós dois sejamos felizes um dia.