A busca pelo 1%

O mundo milionário do futebol, sonho de muitos brasileiros, não é o que parece.

Eduardo Rachelle


Em meio aos gritos motivacionais, os treinamentos de quem precisa ganhar a vida e os longos silvos de apito no Sindicato dos Atletas Profissionais no Estado do Rio Grande do Sul, Heleno Lima de Quadros tem uma história de vida que não pode ser contada sem o futebol. Na verdade, a vida dele é o futebol. O jovem de 36 anos conhece outro esporte: sem altos salários e sem direitos de imagem. Heleno sabe, e viveu, o que quatro em cada cinco atletas brasileiros viveram: a realidade do futebol brasileiro.

Esse dado, é da Confederação Brasileira de Futebol, em levantamento realizado no ano de 2015. A pesquisa, divulgada como o ‘Raio-X do futebol’, mostra que 82,40% dos jogadores em atividade no Brasil recebe menos que R$ 1.000,00 por mês. Se a margem subir para R$ 5.000,00, a porcentagem cresce para 96%.


O início

O hoje preparador físico Heleno Lima de Quadros já foi o quarto-zagueiro Heleno. Jogador de força física e qualidade na saída de bola, como mostraram seu vídeos caça-time no Youtube. Ele está nessa estatística, seu salário ficava na faixa dos dois mil, até três mil reais. A carreira começou com esses vencimentos e encerrou com as mesmas cifras.

Como é de praxe, a decisão de seguir na carreira de jogador de futebol veio no início da adolescência. Muito cedo Heleno já sabia, ou ao menos esperava, que o esporte fosse a sua vida. Foi ao Inter, treinou e não deu certo. Procurou o Grêmio, treinou e não deu certo. Até bateu na porta do Flamengo, treinou, mas também não deu certo. Estava prestes a abandonar seu sonho, quando o São José de Porto Alegre abriu as portas para o defensor. Nesse momento, Heleno deu o seu ponta-pé como profissional e começou a conhecer de perto a vida de atleta sem holofotes, glamour ou riqueza.

Enquanto o esforçado defensor engatinhava os primeiros passos no mundo do futebol, uma associação já defendia os interesses dele. Fundado em 1973 pelo treinador Cláudio Duarte, o Sindicato dos Atletas Profissionais do Estado do Rio Grande do Sul (SIAPERGS), nasceu com o objetivo de auxiliar jogadores como o Heleno, que no alto da sua juventude não poderia prever que sua carreira teria uma forte ligação com um modesto prédio no tradicional bairro Menino Deus, em Porto Alegre. Antes de chegar ao Sindicato, Heleno Lima de Quadros teve a grande chance da carreira.


A grande chance

Vinte e dois anos. Foi com essa idade que a grande oportunidade da carreira de Heleno apareceu — pensa aí comigo: com essa idade como era tua cabeça? — . A dele, era como a da maioria dos mais de mil brasileiros que tentam a vida nos gramados estrangeiros a cada ano. O sonho de ir para a Espanha marcar Ronaldinho, ou de ir para a Itália jogar contra Totti, era apenas um sonho. A Europa para ele não era essa.

Nove mil e seiscentos quilômetros longe de casa, o mais novo brasileiro na Europa teria que amadurecer mais do que havia amadurecido desde então. O destino foi a pacata Opava, cidade da República Tcheca de pouco menos de 60 mil habitantes. O clube era o SFC Opava, da primeira divisão do Campeonato Tcheco.

O zagueiro canhoto que chamou atenção dos tchecos levou um baque. Em meio a um rápido vislumbre, as portas da Europa se fecharam em menos de três meses.

Heleno fica claramente incomodado quando conta essa parte da sua carreira. Parece querer passar rápido por um período que não gosta de lembrar. Foram três meses. Ele não entra em detalhes, mesmo quando perguntado. A resposta é quase sempre a mesma: “A gente perde a cabeça, né?!”.

Enquanto o beque, nos seus quase 1m90cm, se via pequeno, poucos brasileiros nessa mesma Europa somavam fortunas. Hoje, o principal craque brasileiro em atividade recebe mais de 9 milhões de Euros todo mês em sua conta. Neymar, naquela época ainda na base, viria a ser modelo de sucesso e inspiração para os milhares de jovens, que assim como Heleno, queriam um futuro melhor longe do Brasil.

A Europa de Heleno não foi a Europa de Neymar, Thiago Silva e afins. Ele voltou, dessa vez para mergulhar de vez na realidade do futebol brasileiro.


A realidade

Enquanto o atleta que acabara de se frustrar no velho continente conhecia as dependências do modesto clube paulista Mogi Mirim, o jornalista gaúcho Diogo Olivier já parecia ter escrito sobre o provável destino do zagueiro.

Em 21 de outubro de 2001, era publicada a primeira matéria da série `Desemprego Futebol Clube`, em Zero Hora. O até hoje jornalista do grupo RBS, Diogo Olivier assina a matéria. Em um longo e detalhado texto sobre a realidade dos atletas de futebol no Brasil, com foco no Rio Grande do Sul, Olivier escancara números muito parecidos com os atuais. Para se ter uma ideia, há 17 anos atrás, 84% dos jogadores de futebol em atividade no Brasil recebiam menos de dois salários mínimos.

Passaram-se quase duas décadas e a situação pouco mudou: quatro em cada cinco jogadores estão nesse mesmo patamar de 2001. “O retrato do futebol brasileiro é esse aí, a maioria dos jogadores que acabou de jogar o Gauchão (Campeonato Gaúcho de 2017), do próprio Novo Hamburgo que foi campeão, já estão sem contrato de novo”, aponta Diogo.

O Novo Hamburgo ilustra muito bem o modelo de negócio dos clubes do interior. O time que foi campeão gaúcho, pela primeira vez em sua história centenária, ficou com apenas três atletas que levantaram a taça. O título deu, para alguns desses atletas, uma chance de brilhar em clubes de maior expressão. O goleiro Matheus, que chegou a ser sondado pelo Grêmio, assinou -assim como o meio-campo Juninho e o atacante João Paulo, com o Juventude de Caxias do Sul.

Para esses atletas, um caminho se abriu, mas antes da campanha vitoriosa no estadual, o cenário tinha tudo para ser diferente. O Novo Hamburgo fez, assim como a maioria dos clubes que participaram do Gauchão, o chamado contrato por fase. O primeiro contrato se encerrava ao final da primeira fase do campeonato. Se o Nóia fosse eliminado, os jogadores voltariam a fila dos desempregados. Como passou, seus contratos foram sendo renovados, fase por fase, até a final.

Diogo Olivier conta, entre outras histórias, a vida de Claudiomiro, um atleta que assim como Heleno, conheceu o lado B ou até C do futebol. Claudiomiro — que chegou a ajudar a construir o estádio do time em que era capitão, o Riograndense de Santa Maria, não fazia parte dos cerca de 1.500 atletas com emprego o ano todo. Ele estava no grupo dos outros quase 20.000 jogadores.

O drama de trabalho freelancer é outra herança do futebol brasileiro. Heleno nunca assinou um contrato com duração maior do que seis meses. Nunca. “A gente tinha que passar o ano com o salário de dois, três meses”, conta. Aquela mesma pesquisa da CBF, lançada no início do ano passado, mostrou que dos 28.203 atletas profissionais, com contrato assinado em 2015, menos da metade deles (11.571) chegaram a janeiro do ano seguinte com contrato ativo.

A realidade dos atletas empregados no futebol brasileiro, segue sendo a mesma mostrada série `Desemprego Futebol Clube`. Cerca de 59% dos jogadores, ou seja seis em cada dez, ficaram desempregados durante o ano. Um número assustador se compararmos com a taxa de desemprego no país, de 9%, no mesmo período.

Em média, os boleiros brasileiros passam 11 meses em um clube. Média muito inferior do restante do mundo, onde o período sobe para 22 meses. Isso de acordo com o relatório global da Federação Internacional dos Futebolistas Profissionais (FiFPro) divulgado no final do ano passado. Essa média é novidade pro Heleno, que de acordo com seus cálculos passou a média de três meses em cada clube. O seu recorde negativo de menor tempo defendendo as cores de um time é de 45 dias, quando vestiu as cores do SER Caxias durante o campeonato estadual.

Não bastasse o problema dos baixos salários e desemprego, há ainda um fator agravante neste cenário: o atraso de pagamentos. Ainda segundo o relatório da FIFPro, 52% dos jogadores em atividade no Brasil sofreram com atrasos de salário nos dois últimos anos.

Essas são as três principais lutas do SIAPERGS. Em 2004, Heleno conheceu o que não imaginava e o que nunca sonhou para sua carreira.


O sindicato

Nos longínquos anos 70, um jovem de 22 anos, até então tricampeão gaúcho pelo Internacional, viu a necessidade de fundar o Sindicato dos Atletas Profissionais no Estado do Rio Grande do Sul. Claúdio Duarte, com pouca vivência de esporte, parecia entender a ilusão que a esmagadora maioria dos seus colegas estava vivendo.

Claúdio Duarte virou o treinador Claudião. Campeão da Copa do Brasil pelo Grêmio e tetracampeão gaúcho pelo Internacional. Hoje, sem clube, mas com passagens em mais de 15 times brasileiros, ele treinou a dupla Gre-Nal quase que simultaneamente
no final da década de 80 e início da 90 e salvou o Inter de um rebaixamento até então inédito, em 2002. Tudo isso colaborou para a criação de um personagem folclórico, que poucos sabem ter ligação com a vida de muitos atletas gaúchos.

O sindicato abriu as portas para Heleno em 2004. O gaúcho estava sem clube e não queria abandonar sua jovem carreira. Soube por outros colegas da existência do Sindicato. Se registrou e entrou em um modelo diferente de treinar futebol.

Ele definiu a estrutura do sindicato como boa, quando comparada a dos clubes por onde passou. Nesses últimos 13 anos, a forma de trabalhar pouco mudou. Um treino por semana e o atleta participa quando quiser. O time, que é definido pouco antes de entrar em campo, faz amistosos contra clubes profissionais. Ninguém recebe nada. O amistoso é uma forma de ser visto e contratado por algum clube.

Com Heleno, a vitrine funcionou. No mesmo ano em que entrou no sindicato, fez boa atuação contra o Pelotas e saiu da Boca do Lobo com um contrato assinado. Parece bom, mas o problema é que isso viria se tornar a rotina do zagueiro.

Boa atuação. É contratado. Fica alguns meses no clube e é demitido. Volta para o Sindicato.

O modelo, como revela Heleno, é cansativo mentalmente: “Faz o atleta desistir”.


A desistência

Heleno lutou, mas cansou de tentar. Ele desistiu. Jovem. Com apenas 28 anos, mas muita experiência, o zagueiro preferiu tentar ganhar a vida de outra maneira.

Em cerca de 10 anos de carreira, ele rodou o interior do seu estado, conheceu outras capitais e foi, mesmo que de maneira breve, para o exterior. Esse é o modelo de carreira dos quase nove em cada dez jogadores brasileiros. Foi assim, é assim e não há perspectiva de que deixe de ser assim tão cedo.

A carreira do Heleno ilustra a carreira do jogador de futebol brasileiro. Existe um padrão. Esse zagueiro que tentou a vida no futebol, conseguiu sair do padrão no final da carreira.


A nova história

Em 2008, Heleno Lima de Quadros começaria a ingressar em um seleto grupo de 7% dos futebolistas nacionais. O ex-zagueiro conseguiu uma bolsa na Ulbra. Ele jogaria pelo time da universidade de forma não-profissional e ganharia uma bolsa de estudos. Ele aceitou e se formou em fisioterapia.

Com o diploma na mão, pensou em trabalhar junto com o irmão, o também ex-zagueiro e hoje treinador, Régis. Isso ainda não se concretizou. O irmão mais velho, que teve passagens como jogador por Internacional, Cruzeiro, São Paulo e Fluminense não conseguiu concretizar a carreira de técnico, até o momento.

Na procura de emprego, agora como fisioterapeuta, a vida decidiu cruzar mais uma vez os caminhos de Heleno com o Sindicato dos Atletas Profissionais no Estado do Rio Grande do Sul. A parceria que havia começado em forma de desespero pela luta contra o desemprego, viria a ser uma nova porta se abrindo na vida do atleta.

Atualmente, o ex-quarto-zagueiro canhoto de força física e qualidade na saída de bola, no alto de seus 1m89cm, é o fisioterapeuta do SIAPERGS. Heleno segue vendo, toda semana, atletas que assim como ele tentou, buscam ser os quase 1% de jogadores brasileiros milionários graças ao futebol.