O TRANSE DE SE VIAJAR DE TREM

Esta é a introdução ao meu livro “Nos Trilhos dos Andes”, a ser lançado em maio como e-book na Amazon.

Enquanto observo o imaculado deserto andino passar pela janela do trem, me pergunto: o que há de tão especial em viajar de trem? Em um carro temos a velocidade e a independência; em um avião, a capacidade de vencer oceanos. Porém, qual a diferença entre viajar de trem ou de ônibus?

A paisagem continua a se descortinar diante dos meus olhos e me leva a pensar que toda viagem traz consigo a monotonia — que se manifesta como uma paisagem repetitiva e causa aqueles silêncios dentro do carro, a insônia no avião, a dor nas costas devido ao assento do ônibus… esta monotonia não exige muito para se converter em tédio, conduzindo o viajante a uma introspecção oca — como se o cérebro entrasse em greve, recusando-se a processar um pensamento sequer.

Já em um trem, a monotonia transporta o viajante para uma condição mental diferente porque, em seu caminho até a introspecção, o tédio é substituído pela dualidade da janela. Em um ônibus ou avião, a janela serve apenas para não causar claustrofobia nos passageiros: a alta velocidade ou a altura as tornam inúteis para apreciar a paisagem.

Porém, em um trem, com a velocidade constante e nunca muito alta (as curvas também são mais suaves nos trilhos do que em rodovias), a paisagem parece congelada, como um quadro; mas com o deslocamento, a janela também se parece com um cinema. Assim, se a paisagem é repetitiva, como frequentemente é, há tempo suficiente para descobrir um detalhe que inspira uma centelha de pensamento, como uma comparação ou uma lembrança; mas ainda assim há a velocidade, que lhe transporta para outro detalhe e outros pensamentos.

Como a velocidade nunca muda, os olhos e a mente se unem para criar uma harmonia única entre o passageiro e a paisagem, que transforma completamente o processo de observar e processar a sequência de imagens que desfila pelos olhos. É como se, de repente, a paisagem entrasse para dentro do viajante: todos os seus sentidos passam a se concentrar na tarefa de capturar e entender o que os olhos veem, sem que haja um intermediário — seja a janela ou o próprio trem. E você se transforma no trem.

O transe é embalado pelo ritmo das rodas sobre os trilhos e a paisagem adquire outras dimensões: sociais, econômicas, políticas, históricas e culturais, que a mente vai explorando enquanto a constância da velocidade anula a própria velocidade, e o olho perdido em um ponto qualquer da paisagem não apreende mais o deslocamento. O trem passa a ser um mergulho sensorial, o equivalente no mundo pós-moderno às antigas experiências místicas orientais. Por isso o trem ideal é repleto de silêncio, mas não de vazios: porque é necessário compartilhar a experiência com outros viajantes que estão sob a mesma harmonia que você.

É quando a viagem acaba e os passageiros negociam o desembarque entre si que se descobre que o transe se mantém: há uma cumplicidade entre aqueles viajantes. Éramos simples números em passagens ao embarcar, mas agora sabemos que há algo que nos une. Em um ônibus ou em um avião, viajamos de costas uns para os outros; mas a disposição dos assentos no trem faz com que fiquemos de frente a outros viajantes. Os diálogos que se iniciam dos olhares curiosos que lançamos e recebemos dos assentos à nossa frente são frágeis no início, mas vão ganhando força à medida que se descobre afinidades e já bastariam para nos unir; mas é saber que a experiência que vivemos também foi vivenciada por todos os demais que cria uma ligação tão cúmplice que não precisa ser expressa por palavras: basta sentir. Uma experiência que só pode ocorrer dentro de cada um de nós revela o quanto estamos ligados aos demais indivíduos, aqueles que estão conosco dentro do vagão e aqueles quem discernimos na paisagem.

Foi em busca desta harmonia que resolvemos percorrer as duas linhas férreas mais longas da América do Sul. Uma liga Cusco a Puno, no Peru; e aproveitamos também para viajar no trem que liga Cusco a Águas Calientes, agora Machu Picchu Pueblo. A outra atravessa o Equador do litoral à montanha, ligando Durán, perto de Guayaquil, até Quito.

A paisagem andina é, como se espera, a maior inspiração para os devaneios que são possíveis apenas em um trem. A Cordilheira dos Andes é mais alta que os Alpes e, em relação ao Himalaia, apresenta uma vantagem incomparável: vulcões, alguns ainda ativos. São tantos que o trecho entre Riobamba e Quito, no Equador, é denominado Avenida dos Vulcões. No Peru, o trem rasga desertos a mais de três mil metros de altitude, onde os cactos se sobrepõem a montanhas nevadas, passando por cidades e santuários de pássaros, como os belos flamingos. E entre uma estação e outra, é possível ver os traços remanescentes da cultura inca — como o incrível sistema de irrigação de cultivos, que resistiu aos espanhóis e à tecnologia moderna porque é realmente superior.

Nos Andes, o trem deixa de ser um mero meio de transporte para se converter em um espetáculo em si. Os desafios impostos pela natureza para a construção das linhas férreas resultaram em um charme único, como em Sibambe, Equador, onde o trem literalmente escala uma montanha em círculos, afastando-se lentamente do rio Alausí. A questão que fica para o viajante é: todo esse esforço, todo o dinheiro gasto na construção — tudo isso era realmente necessário? E a resposta surge naturalmente, afinal a ferrovia era o único modo de integrar territórios tão geograficamente diversos quanto Peru e Equador, compostos de litoral, montanhas e a Amazônia. Para países que acabaram de se tornar independentes, não há esforço de engenharia que não faça sentido.

E este é o grande trunfo destas ferrovias andinas: elas descortinam não só paisagens majestosas, mas também adentram pela história de seus países, possibilitando uma viagem de múltiplas dimensões e infinitos prazeres. Deixar-se ficar na poltrona do trem, indiferente a horários e atrações turísticas, com a cabeça perdida em devaneios acalentados no balanço do vagão, é um dos poucos luxos que o turista curioso ainda pode se dar nestes tempos de consumo frenético de lugares e culturas. Este é o brilho desta viagem: é possível percorrer, dentro de si, as paisagens mais bonitas do mundo nos trilhos dos Andes.

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