Peru: el dulce de tres leches

É uma verdade universal e reconhecida no Peru que o país se divide em três partes: a selva, as montanhas e o litoral.

Entramos no país pela selva, mais precisamente em Iquitos, onde demos por encerrada nossa navegação pelo rio Amazonas. Ou teria sido por Santa Rosa, um dos vértices da Tríplice Fronteira entre Brasil, Colômbia e Peru?

O rigor geográfico me obriga a proclamar Santa Rosa como nossa porta de entrada. A questão é que Santa Rosa nada mais é do que uma rua com pouco mais de 1 quilômetro de extensão, com casas de madeira dos dois lados e cheia de cães, tuks tuks e puteiros, além do ocasional mochileiro se mesclando entre os índios que habitam o lugar.

Ao contrário de Tabatinga e Leticia, as cidades fronteiriças de Brasil e Colômbia que se separam por uma rua, Santa Rosa está na outra margem do rio Amazonas. Uma lancha faz a travessia em poucos minutos, por 5 soles (1 sol equivale mais ou menos a 1 real). Ao chegar, não há porto ou qualquer infraestrutura; tivemos de nos equilibrar com nossas mochilas em uma tábua disposta entre a lancha e a margem enlameada do rio. Depois, pegamos um caminho de terra ao largo de uma vala onde o esgoto corre a céu aberto e, ao final do caminho, está a única rua de Santa Rosa.

Carimbamos nosso passaporte e achamos um quarto em uma das mais aceitáveis pousadas do lugar, pois a lancha para Iquitos parte às 4 da madrugada.

E isso foi só o prenúncio do que enfrentaríamos no Peru, porque se deslocar pelo país é um teste físico e mental. Afinal, deve ser uma piada divina (ou de Pachamama) que a cordilheira dos Andes divida o país exatamente no meio, como que seccionando o território peruano em três e transformando o transporte público em um desafio que nenhuma escola de engenharia peruana possa solucionar.

Eu poderia dar o exemplo que qualquer viajante que já foi ao Peru conhece. De Lima a Cusco, há duas opções de transporte: o ônibus, que custa 185 soles por bunda (este preço é por um ônibus com rodomoça e alimentação) ou um avião, que nos custou US$ 86,20 por bunda depois de muita pesquisa e sorte. A diferença é que por terra, a viagem leva quase 25 horas, e por avião, apenas uma.

Porém, se você quiser uma praia decente no Peru, a solução é ir ao norte do país. Nossa escolha foi por Máncora (e não demos com os burros n’água; o lugar é simplesmente sensacional). Acredite: depois de fazer o tour gringo (Lima — Cusco — Puno — Arequipa — Nasca — Paracas — Lima), no inverno, você vai querer uma praia quentinha para esquentar os ossos. E Máncora é o lugar: uma vila tão pequena que a rua principal é a própria rodovia Panamericana, com belas praias e bons cafés e restaurantes. O melhor de tudo: tirando os argentinos hippie-chiques que estão por todos os lugares bacanas da América do Sul (até em Barreirinhas encontrei um) e os equatorianos (Guayaquil está a apenas seis horas de carro), não há muitos turistas em Máncora. Na semana em que ficamos por lá, causávamos sensação quando dizíamos que éramos brasileiros.

Bom, de Lima a Máncora são exatos 1.168 quilômetros; supondo que o ônibus rode a 100 quilômetros por hora, seriam 12 horas de viagem, certo? Errado: a viagem leva angustiantes, enfadonhas, tonitruantes 18 horas, porque a rodovia é estreita, sinuosa e o ônibus para demais pelo caminho. Não, não há voos diretos para Máncora. Deve ser por isso que não há turistas de outros lugares na cidade.

A cereja do bolo na precariedade da infraestrutura peruana é Iquitos: a maior cidade do mundo que não pode ser acessada por terra. Sim, não há uma única estrada ligando a capital do distrito de Loreto a nenhuma outra cidade do país — e o rigor geográfico me força a apontar a estrada que liga Iquitos à Nuestra Señora do Loreto, a 101 quilômetros ao sul. Os quase 400 mil habitantes de Iquitos só podem sair da cidade de avião (com voos a Lima) ou pegar um barco até Tarapoto (5 dias de rio), de lá um ônibus até Pucallpa (18 horas de estrada) e então outro ônibus até Lima (19 horas de sofrimento, agonia e desespero). E tudo isso é culpa dos Andes.

A separação entre selva e litoral, imposta pelo Andes, é histórica no Peru, como mostra o romance “El Fantasma del Amazonas”, do jornalista Roberto Reátegui. O livro conta a história de duas viagens: a primeira, do navio Yurimaguas, que zarpou de Tarapoto, na selva do Peru, cruzou o canal do Panamá e chegou em Lima; a segunda é ainda mais impressionante: a viagem de María Santos desde Iquitos, passando por Belém, Barbados, Nova York, Cidade do Panamá e daí Lima. As duas viagens são reais: a travessia do Yurimaguas ocorreu em 1916, e a viagem de María Santos em 1902. A distância de Iquitos até Lima por terra totaliza 800 quilômetros, mas por causa da cordilheira, naquela épica o deslocamento poderia durar até dois meses e meio, no lombo de um cavalo; para se ter uma ideia, o périplo de María dos Santos levou pouco mais de três meses.

A infraestrutura deficiente do Peru faz com que litoral, montanha e selva se sobreponham, mas nunca se anulem, formando um caleidoscópio de culturas que, com o perdão do clichê, encanta. Ninguém capturou melhor esta diacronia que o escritor Mário Vargas Llosa, em “Lituma nos Andes”. Lituma é um policial nascido em Piura, que fica perto de Máncora, estacionado em um vilarejo nos Andes quando uma série de assassinatos começa a ocorrer. Tudo o que ele tem é um ajudante de Lima, que durante a investigação narra um caso de amor que viveu na capital do Peru.

Nenhum dos dois entende os hábitos e os costumes do povo local e ambos veem sua permanência ali como uma punição. Os locais, por sua vez, não colaboram com os policiais porque os consideram estrangeiros. No entanto, ambos se respeitam e vão descobrindo, à medida que Lituma e seu ajudante são obrigados a entrar em contato com os andinos, que ambos são iguais.

É evidente que, por ser peruano, Vargas Llosa pode explorar estas sobreposições culturais melhor que um turista. Porém, mesmo com meu frágil espanhol, percorrer estas três regiões peruanas teve o mesmo prazer que comer uma torta de tres leches — uma delícia que se encontra em todos os países andinos, mas que é perfeita no Peru. As três formas de preparar o leite se combinam, embora mantendo o sabor de cada uma, assim como viajar pela selva, montanha e litoral peruanos permite comparar as diferenças e apontar as semelhanças, construindo ao final da viagem a experiência de se conhecer um país.

Há frango assado com batatas fritas por todo o país (afinal, a batata foi a grande contribuição inca para o mundo), mas você pode combinar o prato com chicha morada (um suco feito de milho preto) na selva, com a bebida à base de coca nos Andes (o que é bom para evitar o soroche, o mal das alturas) e com a famigerada Inca Cola em Lima. No litoral, o peixe vem cozido em limão com coentro (sim, é o ceviche); na selva, o peixe é frito com bananas e, nos Andes, não há peixe, mas a carne de lhama ou de alpaca. E eu poderia seguir neste tom por incontáveis parágrafos, mas para quê? Só há um modo de apreender este caleidoscópio de usos e costumes, que é ir até Peru, percorrer seus caminhos óbvios e se aventurar por aqueles que ninguém vai, porque a infraestrutura deficiente tem dessas de delimitar o caminho do turista pelo conforto. Portanto, faça o convencional tour gringo, que vale a pena, mas também descole da multidão e aventure-se por outros lugares. Nós escolhemos Máncora e Iquitos, mas poderia ser Tumbes e Tarapoto; a questão é que, uma vez vencida, a infraestrutura revela maravilhas que o turista convencional ignora e recompensa regiamente pelo desconforto de chegar até lá. Encontrar-se sozinho em uma joia cultural ou cênica é uma experiência sem igual, em um mundo com cada vez mais turistas consumidores e menos exploradores.

A infraestrutura precária pode estabelecer a diferença entre o consumidor de lugares e o aventureiro, mas também cria distorções sociais que afetam diretamente o viajante.

Em Lima, o sistema de transporte público é precário e ameaçador, com aqueles ônibus velhos e multicoloridos acelerando e freando bruscamente, enquanto o motorista afunda a mão na buzina. Por isso há tantos táxis rodando pela cidade, com a mesma agressividade do ônibus. Andar de táxi pelo Peru é incrivelmente barato: em Lima, nenhuma corrida saiu por mais de 10 soles — com a exceção do táxi que tomamos no aeroporto, que nos saiu por 60 soles e uma afronta.

Além de ser a capital, Lima está no litoral, perto do principal porto peruano, Callao. Ou seja: todos os empregos decentes (e não tão decentes assim) estão na cidade, que por isso cresceu vertiginosamente, incorporando outros municípios próximos, como Barranco, San Isidro ou Miraflores. Por conta disso, hoje Lima tem mais de 7 milhões de habitantes; Arequipa, a segunda maior cidade do país, tem 700 mil. Mas tergiverso — o ponto desta digressão é mostrar que, por este motivo, os nomes das ruas se repetem, porque cada cidade tem sua avenida Grau, avenida 28 de Julio e por aí vai. Como as corridas no Peru são muito baratas, tanto por haver muita oferta de táxi quanto pela renda do peruano, que não poderia pagar mais pelo serviço, os taxistas não podem pagar por um carro decente, quanto mais por um GPS.

Para piorar a situação, nenhum táxi no país inteiro tem taxímetro. O valor da corrida é combinado previamente: você diz para onde vai e o taxista calcula mentalmente a distância e lhe informa um valor. Você pode negociar, mas isso só aumenta a tensão no banco do passageiro, porque o taxista vai dirigir literalmente como um assassino — afinal, o valor da corrida já está definido e agora é com ele ganhar aquele dinheiro no menor tempo possível e assim, pegar mais corridas. Ou seja: nomes de ruas que se repetem mais taxistas premidos pelo tempo — vai vendo.

Ao sair do desembarque, pegamos um dos taxistas uniformizados que ficam no aeroporto. O valor de 60 soles é tabelado e pago num guichê à parte. Tudo ia bem até informarmos o endereço: Rosendo Vidaurre, em Barranco. O taxista sabia onde ficava Barranco, mas não fazia a menor ideia de onde se localizava a rua. Nós nos perdemos miseravelmente em Barranco, e a sensação de desalento aumentava à cada pergunta que o taxista fazia às pessoas na rua: “Vidaurre, Rosendo Vidaurre, conoces?” “No.” “Gracias” — e arrancava até a próxima pessoa disponível. Enquanto isso, ele nos inquiria por referências repetidamente, até que eu lembrei a ele quem era o limenho dentro do veículo.

Um guarda de rua veio a nos salvar, explicando o caminho depois de ser perguntado pelo taxista furibundo onde a maldita rua Rosendo Vidaurre ficava. Aí surgiu outro problema: a numeração das construções em Lima é tão caótica quanto as próprias ruas. Lentamente fomos buscando pelo nosso número, até que desesperado ao ver a rua terminar em uma via expressa, ele freou o carro e desceu. Abriu o porta-malas e descarregou nossas mochilas na calçada, dizendo que a obrigação dele era nos levar até a Rosendo Vidaurre; chegar até o número 941 era por nossa conta. Eu ia argumentar que a obrigação dele era levar a gente até nosso destino, mas aí vi que estávamos diante do 939 — que, no final das contas, era exatamente para onde íamos.

Esta celeuma com taxistas se repetiu mais uma vez, em outra circunstância. E seria muito fácil culpar os taxistas por isso, se não entendermos o contexto em que isso ocorre.

Em uma economia semi-industrializada, como a peruana, o setor de serviços acaba por criar o maior número de empregos que uma população de baixa especialização pode conseguir. Esse excesso de mão de obra gera salários baixos e competição desenfreada, o que diminui os preços cobrados e diminui ainda mais os salários, por sua vez acelerando a competição para compensar a perda de ganhos. Esta lógica se aplica a todos os setores de serviços do país — restaurantes, cabelereiros, mecânicas de carro e taxistas. É simplesmente inacreditável a quantidade de táxis rodando em Lima, onde a corrida média sai por 5 a 6 soles, ou de tuks tuks rodando em Iquitos ou em Máncora, onde a corrida média é de 3 a 4 soles.

Entra em cena Pancho, o condutor de tuk tuk que nos recolheu na rodoviária de Máncora e nos levou até onde nos hospedaríamos. No caminho da casa de onde estávamos até o vilarejo de Máncora, ele nos explicou a economia das tuk tuks. Uma moto daquelas, indiana ou chinesa, poderia custar até 7 mil soles. Mas como as corridas faturam pouco, cada motorista de tuk tuk chega a ganhar 40 soles por dia, em alta temporada. Tirando o custo da gasolina, que é alto no norte do Peru, mais a manutenção (a troca do óleo é semanal, por exemplo), restam líquidos uns 25 soles ou 750 soles por mês. Mas aí entra a prestação da tuk tuk, que fica por volta de 150 a 200 soles mensais e o imposto, que é anual e varia conforme o modelo da tuk tuk. Na melhor das hipóteses, portanto, um motorista de tuk tuk sem a sorte de ter um convênio com um hostal ou hotel leva aí uns 500 soles de salário por mês. Considerando que o salário mínimo no Peru é de 850 soles desde 1 de maio de 2016, fica fácil entender porque os táxis e as tuk tuks passam lentamente por você, buzinando para chamar a sua atenção, ou porque querem se livrar rapidamente do passageiro quando chegam ao seu destino.

Em Cuenca, onde escrevo este texto, penso sobre como a delimitação de fronteiras na América Espanhola é arbitrária e injusta. Porque, se o Império Inca não tivesse sido fragmentado entre norte do Chile, Bolívia, Peru, Equador e Colômbia, talvez este texto fosse completamente diferente. Talvez eu me queixaria do meu quéchua frágil, talvez eu me surpreenderia com as soluções que os índios encontrassem para os problemas modernos, talvez eu exultasse a arquitetura singular que este povo concebeu durante sua existência. De nada adianta a estação de trem em Cusco chamar-se Wanchaq, sabendo que ela não foi construída pelos incas, mas pelos peruanos — uma invenção moderna, assim como os colombianos, os bolivianos e os equatorianos.

Talvez este texto não se concentrasse tanto nos problemas, se fosse sobre o Império Inca e não sobre o Peru. Afinal, os incas tinham a engenharia necessária para unir territórios, como demonstra o Caminho de Peabiru, que saía de Cusco e ia até São Vicente, litoral de São Paulo. Se as nações são comunidades imaginárias, então em minha mente tremula a bandeira do arco-íris de Tawantinsuyu e não aquela vermelha e branca do Peru.

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