Gentrificação em Marte

Muskville, 22 de Junho de 2090
Já há quem ande pelas áreas centrais da principal cidade marciana e não a reconheça mais. Hordas e mais hordas de turistas ocupam as áreas abertas da Kurzweil Square causando estranhamento nos habitantes mais antigos.
Este fluxo de turistas ocorre por conta de avanços tecnológicos como os novos foguetes low cost da Nyanair e empresas de hospedagem como a SpaceBnB. Grandes mudanças têm ocorrido na vida dos habitantes de Muskville, a maior cidade do Planeta Vermelho, por conta dos negócios dessas empresas e seus desdobramentos.
Companhias de transporte e hospedagem passaram a apostar no turismo interplanetário como tendência após a inesperada saturação de destinos turísticos inusitados como as favelas de Daca, em Bangladesh no Planeta Terra.
Uma série de novos empreendimentos surgiu na região central de Muskville para atender a demanda dos novos turistas. O que anima proprietários de novos empreendimentos. “Com toda essa gente chegando, espero que consiga mais clientes” afirma com empolgação a designer de cyborgs Nina Owletu.

Mas nem todos se empolgam com os novos visitantes — “Essa gente é muito esquisita. Eles andam em trajes espaciais parecidos com o do Buzz Aldrin, curtem umas tecnologias vintages, como Realidade Virtual e se encontram em cafés descolados cujas mobílias foram feitas na Terra.” diz o consultor Jonas Cisneros.
Os novos moradores estão causando impacto no custo de vida local. “Meu aluguel triplicou nos últimos 4 anos. Está ficando cada vez mais difícil morar aqui. Todos gostam da vista do Monte Olimpo e da proximidade com o Hyperloop” reclama.
Outro ponto polêmico diz respeito ao uso das apartamentos comuns para os turistas. A demanda por apartamentos para turistas é tida como responsável pelo aumento do custo de vida em Marte. E há também um debate sobre a utilização do espaço de tais casas — como a viagem entre a Terra e Marte nas naves da Nyanair levam duram cerca de 9 meses, os turistas se aproveitam de dispositivos imersivos para se sentirem confortáveis nas casas em que se hospedarão fisicamente quando chegarem ao planeta vermelho.
Os críticos argumentam que tal prática implica em uma grande quantidade de apartamentos ociosos por um longo período de tempo. Enquanto os usuários alegam que mesmo que estejam somente com seus avatares nestes espaços, a presença de estranhos os fazem se sentir inibidos, o que faz com que prefiram que os apartamentos não estejam ocupados fisicamente por ninguém enquanto desfrutam da experiência imersiva.
O comitê de habitação de Muskville discutirá o assunto nesta semana e a expectativa é que haja a implementação um plano de regulamentação do turismo interplanetário num futuro próximo.
