Por um fio: a hora de reconstruir relações baseadas em respeito


Tenho refletido muito sobre as relações profissionais e pessoais que se manifestam de forma tensa e conflituosa. Não sei exatamente se é uma espécie de crise moral, financeira, ou mesmo existencial.
Se investigarmos e descermos os degraus das razões mais profundas dos nossos conflitos, chegaremos lá no sótão das necessidades, expectativas e responsabilidades primárias não resolvidas. É como se tivéssemos umas partes que não amadureceram, que ainda vibram insegurança, medo ou falta de confiança. Ou todas juntas. Uma dificuldade para apropriar-se de suas virtudes e princípios, transformando-os em autonomia e inteligência social.
Nessas relações mal ajustadas, mal contratadas, há sempre um dos dois que quer ganhar alguma vantagem indevida: quer um bônus exclusivo, sem pagar o devido ônus.
Não sei você, mas eu acho uma desonestidade intelectual gente grande (acima de 18 anos) fazendo joguinhos infantis para que o outro faça para ele o que ele mesmo podia fazer por si. Com uma incrível habilidade para que você se sinta mal ou culpado por não satisfazer os seus desejos de realeza:
- Me dá isso;
- Paga aquilo para mim;
- Faz esse favor, mais uma vez;
- Não conta para o chefe;
- Você me deve isso;
- Eu pensei que fosse especial para você;
- Ou faz desse jeito ou talvez não trabalhe mais aqui.
E por aí vai. Pode completar nos comentários os joguinhos que conhece.
Nas crises, alguém sempre reivindica direitos e mais direitos, esquecendo-se de fazer a sua parte no contrato;
Uns amigos consultores vieram me perguntar sobre uma prática de “grandes empresas” que querem receber um trabalho agora e pagar somente daqui há 3 meses. Sim, 90 dias depois. E como elas tem “grandes nomes”, fica muito difícil de recusar. Todo mundo está precisando trabalhar. No geral, empresas estão buscando talentos de nível sênior, para projetos ultra complexos, querendo pagar valor de nível júnior, em 90 dias e ainda, atrasando o pagamento.
Minha resposta? Não, obrigado. Mas é a líder de mercado! Não, obrigado. Sabe o que acontece quando você aceita? Você fica se sentindo enganado, não trabalha direito, fica com raiva por ter se sujeitado à esse mal contrato, que você mesmo aceitou.
Já percebeu a quantidade de gente, nesses dois últimos anos, que está sempre projetando formas de ganhar dinheiro, contando sempre com o seu trabalho e esforço, esperando que você faça isso de graça para ele? E aparece novamente aquele velho desconforto e sensação de culpa quando temos que dizer um NÃO, NÃO POSSO.
Quantos de nós ficamos cansados e tristes quando alguém próximo está sempre criando problemas e dando um jeito de fazer com que você pague pelas suas irresponsabilidades ou más consequências.
Estes desajustes estão indo longe demais.
Talvez seja o momento de abrir o jogo. De forma respeitosa e honesta. Sem destempero ou joguinho emocional. Talvez seja o momento de ouvir do outro todos os joguinhos que você também faz. Talvez seja a hora de colocar todas as expectativas internas que você deposita no outro e ele não sabe. Revelar as responsabilidades que são suas, mas que você delegou para ele, sem que ele soubesse ou quisesse.
É provável que você veja todas essas injustiças no outro. Também é provável que você não as veja em você.
Considero um excelente momento para reconstruir as relações baseadas em respeito, honestidade, objetividade e confiança.
Aproveitar as situações para fortalecer o respeito próprio, trazer à superfície os contratos disfuncionais baseados em dependência e carência. Construir os limites e os suportes relacionais que gerem crescimento mútuo.
Não será nada fácil, mas também, do jeito que está, não está leve, fluido e potente.
Pode ser que esteja por um fio. Pode ser que não!
Eduardo Carmello — Diretor da Entheusiasmos Consultoria em Talentos Humanos, consultor organizacional e educacional. Conferencista Nacional, indicado 5 vezes ao TOP 5 do prêmio Top os Mind de Recursos Humanos. Professor do MBA Gestão Estratégica e Econômica da FGV-SP. Autor dos livros Gestão da Singularidade: alta performance para equipes e líderes diferenciados (2013, Editora Gente), Resiliência: a transformação como ferramenta para construir empresas de valor (2008, Editora Gente) e Supere: a arte de lidar com as adversidades (2004, Editora Gente).
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