As poéticas vivências da escritora independente Ester Leonor Ferreira

Eduardo Cohim
Nov 7 · 4 min read

Ester é uma dessas figuras que parece ter saído de um conto de fadas, sempre calma, doce, serena e com olhar observador. Uma das primeiras coisas que chama atenção nela ou na vida dela é a casa cheia de plantas (que a princípio era o motivo desta reportagem). Um resquício da natureza que um dia ocupava por completo o litoral de Salvador e hoje é uma exceção. Ela explica se tratar na verdade de um costume do marido, uma história antiga de quando eles conheceram a antropóloga suíça-americana Marsha Hanzi, precursora, no Brasil, da Permacultura - uma forma de agricultura sustentável que é centrado em simular as características que seriam encontradas em um ecossistema natural.

Surpreendentemente, Ester explica que acha “um certo exagero as árvores muito grandes e altas, chegando quase que na altura dos fios. Poderia manter a ideia, mas com mais cuidado com a beleza”, entretanto é inegável o conforto, tranquilidade e frescor que a natureza ou aquela pequena “matinha”, como ela chamou, passa. Esse ambiente torna-se um espaço para escrita e leitura e é assim que Ester torna-se escritora, publicando um total de sete livros ao longo de vinte anos.

Moradora de Salvador, mas tendo nascido e crescido em Ruy Barbosa, ela publicou todos os seus livros de forma independente. Tanto que, quando questionada sobre alguma forma de encontrar seus escritos e publicações, ela fala “eu te dou, você não vai achar pela Internet” e se fosse para encontrar algo sobre ela seria na página “Mapa da Palavra” da Fundação Cultural do Estado da Bahia (FUNCEB) ou no “Dicionário dos Autores Baianos”, publicado pelo Governo do Estado da Bahia, em 2006.

Ester na região do Orobó, onde ficava sua cidade natal. Foto: João Nazareno Melo da Fonseca/FUNCEB

A autora só passou a publicar livros aos 48 anos, quando estava prestes a se aposentar, e define seu gênero como uma mistura, uma espécie de prosa-poética. São historinhas das suas vivências e experiências em várias etapas da vida com formato de poesia, mas com mais foco nas narrativas do que no formato poético. Essa mistura já é possível de ser percebida nas primeiras folheadas do seu sexto livro “Orobó — Álbum de Lembranças” (2010). Nesse livro, algumas figuras e momentos da cidade natal vão se transformando em capítulos de pequenas poesias, cada um deles com sua história.

Os 48 anos sem publicar serviram a Ester como inspiração. Antes de ser escritora foi professora, fez a formação e uma especialização e exerceu a função por um ano em Ruy Barbosa, no entanto foi o suficiente para ganhar alguns poemas em seus livros, como o “Escola Meninos Travessos” que também faz parte de “Orobó — Álbum de Lembranças”. Após isso, fez concurso público para o Banco do Brasil e se mudou para Salvador.

Os anos no trabalho ganharam um livro próprio. A sua quinta obra intitulada “Retratos do Banco do Brasil”, de 2007, conta, segundo Ester, da rotina, “do folclore do dia a dia dos funcionários” na Agência Centro Salvador. Enquanto trabalhava, Ester fez o curso de Serviço Social na Universidade Católica de Salvador (UCSAL) e “por sorte ou coincidências da vida, logo depois o Banco abriu o setor que precisava de assistente social e acabei trabalhando na área até me aposentar”. Após a aposentadoria, a autora ainda fez uma pós-graduação em Terapia Comunitária, o que também acabou rendendo um livro: “Terapia Comunitária — Encontrando Pérolas”, de 2007.

O primeiro livro de Ester é chamado “Floração”, de 1995. E, segundo ela, trata-se de “uma caminhada humana e espiritual, humana e divina”. “Nesse livro eu pontuo essa caminhada. Considero muito inspirado, então acho que ainda vou fazer uma segunda edição.” E ressalta como o título contendo três palavras dentro de uma resume bem essas ideias: flor, ação e oração. O seu terceiro livro “Teu filho aguarda resposta”, de 2005, aborda da sua relação com um dos seus filhos.

O segundo “Retratos — Lembranças de Orobó”, de 1999, merece uma atenção especial. Essa seria a primeira experiência da autora discorrendo sobre o período na cidade e região em que cresceu. E ela explica: “É um livro pequenininho contando da minha cidade. Aí uma menina lá de Ruy Barbosa chegou e me disse que faltava isso, aquilo outro, e eu disse ‘escreva aí o que você acha que faltou que eu faço um adendo.’ Adendo esse que virou um livro de 400 páginas e que eu levei 10 anos pra fazer.”

O último dos seus livros, “Mistério no Sítio do Vovô Bira”, foi lançado em 2015 no evento comemorativo de 46 anos da Biblioteca Juracy Magalhães Jr. Foi a primeira aposta nas histórias infantis e que ela também gostaria de explorar outras vezes. “É um prazer muito grande pra mim falar com o jovem, as crianças principalmente eu tenho um carinho especial, porque é quem tá chegando aqui. E meu trabalho de poesia, de escrita, sempre foi tentando levar uma mensagem boa pras pessoas. Eu vejo uma realidade agora em que as pessoas estão muito divididas, então tenho tentado através do meu trabalho trazer essa mensagem de alegria.”

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