Mentalidade revolucionária e auto-engano

A epopeia do jovem de esquerda sustentado por pais reaça e sua eterna briga com o real.

Todo mundo que já teve a curiosidade de perguntar a um esquerdista rico o que o impede de distribuir a própria fortuna aos menos abastados com certeza já ouviu a resposta fujona de que a verdadeira justiça social só seria alcançada estruturalmente, jamais através de atos isolados de caridade.

Muito embora o dinheiro dos pais que ele gasta mensalmente nos bares e baladas de rico trouxa que frequenta fosse suficiente para sustentar três ou quatro famílias de baixa renda, essa não seria a forma correta de combater a desigualdade social.

A forma correta, no caso, seria escrever um ou dois textões de facebook por semana denunciando as injustiças do capital, compartilhar hashtags contra a homofobia, fotografar alguma criança de rua com a câmera canon profissional que ele ganhou de aniversário e ouvir um Racionais no caminho da facul bancada pelos pais.

Troca-se a bondade efetiva e atingível por um distante e improvável ideal abstrato de revolução, justamente por ser distante e improvável. No fundo, eles mesmos sabem, embora não admitam nem para si mesmos, que essa sociedade justa que fingem defender jamais virá a ser implementada, mas o fingimento é útil para expurgar a culpa por ser rico que o professor de geografia inculcou neles durante o ensino médio, ao mesmo tempo em que os destaca convenientemente da massa de “coxinhas” cujo estilo de vida é, na prática, idêntico ao deles.

Em suma, acreditam que sua elevada tarefa se esgota em denunciar as iniquidades do sistema capitalista, sem que no entanto se renuncie a um único dos privilégios que só lhes são outorgados em razão dele.

Caso alguém os questionasse sobre essa contradição explícita entre discurso e conduta externada, provavelmente rebateriam, com ar onírico, que não são contra a própria condição privilegiada, mas sim a favor da extensão dela a todos, enquanto borboletinhas azuis vão dando um rasante em cada palavra dita.

É evidente que no mundo real não existem condições materiais para distribuir água perrier e a heineken que ele toma à vontade na vernissage do amigo para todo ser humano vivo do planeta. Ninguém precisaria chegar ao cúmulo de dizer que não existe vaga para a humanidade inteira no resort que os pais bancam pra ele nas férias.

Mas, sim, tudo isso realmente precisa ser dito ao playboy de esquerda porque, embora creia com todas as forças que está em conflito contra o “sistema”, a realidade é que ele age em perfeita consonância com a desigualdade existente no mundo. A briga constante e perpétua que eles travam a cada minuto é com a verdade.

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