Sinuca de bico

O casal, senhor Polaco e dona Beduína, morava em uma senhora fortaleza. Os dois andavam em pé de guerra, pois era desejo do marido revelar aos filhos um delicado e arriscado segredo, atitude com a qual a esposa não concordava.

- Teremos a mesma tal conversa hoje, Polaco? — perguntou a dona Beduína, sentando-se à mesa para o desjejum.

- Mais um dia que nasce e mais próximo de Deus fico eu. E você furtando o meu desejo de encará-Lo com alma lavada. — expressou ele.

- Deveria ter assim pensado no início das diabruras, Polaco.

- Nunca é tarde para se reconciliar com Ele, filha. Assim ouvi.

- Não está pensando em nossos filhos, quer atirá-los à lama?

Tinham quatro filhos, todos casados. Todos bem posicionados. Um era delegado; o outro, juiz; uma jornalista; e um deles, pastor.

No intuito de sanar aquele incômodo, o qual vinha se arrastando há dias, dona Beduína resolveu, naquela manhã, dar um basta na embaraçosa situação, cedendo-se ao desejo do marido.

- Jura, querida?! — perguntou ele.

- Juro, Polaco.

Após ter sido feito um convite aos filhos, extensivo aos seus respectivos companheiros e companheiras, numa prévia combinada noite se reuniram.

- Então, papai, o que deseja nos revelar? — inquiriu o filho, juiz, após espiar os salgadinhos que havia sobre a mesa.

- Estamos curiosos. — manifestou-se o filho, pastor.

O senhor Polaco, diante da realidade, meditou, fitou a esposa e, acabrunhado, confessou que nunca fora representante comercial.

- Como não?

O pai continuou:

- Exceto na companhia de vocês, nas nossas saudosas viagens, nunca deixei a capital. Nunca, no exato sentido da palavra, trabalhei. E, quanto à minha ausência — “se encontra no trabalho” — me encontrava, na verdade, numa propriedade, desconhecida de vocês, que possuo em Nerlin.

Com a prévia, todos pressentiram que um imenso iceberg iria emergir. Então, semblantes desfeitos, era o que se via.

- Continue, senhor Polaco! — solicitou uma das noras.

- A boa vida que tiveram: mesa farta, viagens e passeios; roupas de grife, educação em colégios particulares e o patrimônio que possuímos que ficará para vocês, proveio do roubo de automóveis.

- Meu Deus! — exclamou pasmada a filha, que era jornalista, ao ouvir aquilo.

E um longo, mas, longo e funesto silêncio se fez.

- Está brincando, papai! — teceu o filho que era delegado.

- Não estou, meu filho. — garantiu o senhor Polaco.

- A senhora sabia, mamãe? — inquiriu incrédulo.

- Era jovem, meu filho: era excitante.

- Quantos, papai?

- Multiplique duzentos por trinta e dois anos.

- Não é possível! — manifestou o filho, que era juiz, horrorizado.

- A aposentadoria de seu pai, — disse dona Beduína — deve-se ao fato do falecimento recente de “Xangal”.

- O meu único e fiel receptor. — esclareceu o senhor Polaco.

- O pai de vocês, — dona. Beduína — conta com sessenta e quatro anos de idade, está extremamente novo e lúcido, mas acredita que a cada dia que passa, aproxima-se o momento de se encontrar com Deus e de Lhe prestar contas. Assim, como ele mesmo diz, deseja encará-Lo com alma lavada.

- Alma lavada, mamãe, é se redimir publicamente. — disse advertidamente e pensativo o filho que era pastor.

- É o que pretendo fazer, meus filhos! — sustentou o senhor Polaco.

O genro e as noras, com caras nada satisfeitas se entreolharam.

- A nossa reputação irá à merda, papai! O senhor nos criou e agora pretende nos destruir? — argumentou o filho, juiz.

- Não pretendo destruí-los, meus filhos. Estão todos vocês bem encaminhados.

- Sim, é bem verdade, papai, que estamos bem encaminhados. Porém, num jornal qualquer, assim já vejo estampado: “Quem diria? O austero delegado, Dr. Enus, criado à custa do roubo”.

Era uma situação bastante complicada.

- Não estou acreditando. — balbuciou o filho, juiz, balançando a cabeça.

- Meu Deus! — exclamou o filho, delegado.

O filho, que era pastor, permaneceu mudo e pensativo. A filha, jornalista, irada e chorosa, levantando-se, disse que nem mesmo nos netos ele estava pensando. Como ficariam diante dos amiguinhos da vizinhança e da escolinha?

- É verdade! — concordou um deles que também tinha filho.

Uma das noras, após pedir desculpas pela intromissão, exaltou a união da família e perguntou por que não resolveriam aquela situação através de uma votação.

- Votação? — indagou o senhor Polaco.

- Sim, senhor Polaco. E, caso o resultado não o favoreça, usará como uma espécie de salvo-conduto.

- Bem pensado. — teceu o juiz.

- Estamos numa sinuca de bico. — advertiu a idealizadora.

Dona Beduína, pedindo a palavra, disse:

- Que seja então uma votação secreta com a manifestação de todos.

- De pleno acordo, dona Beduína: “sim” ou “não”, anotando-se num papel e depositado sobre a mesa. A pergunta seria: O senhor Polaco deve se redimir perante a sociedade?

- Todos no fogo! — manifestou-se o genro.

- É interessante. — considerou o filho, que era juiz.

Após a anuência de todos, cada um tratou de registrar o seu voto num papel, depositando-o, dobrado, sobre a mesa.

Terminado o escrutínio, a idealizadora da ação delegou a dona Beduína o trabalho de apuração. Feita a apuração, a senhora Beduína proclamou o resultado:

- Há nove “nãos”. — anunciou ela.

- Diante do resultado, o senhor Polaco não deverá se redimir perante a sociedade. — sublinhou a idealizadora da votação.

Sobre a mesa, como dito, havia salgados. Eis que todos que ali estavam se serviram deles. Dona Beduína, com um salgadinho na mão, perguntou ao marido se estava triste com a derrota.

- E por que estaria, Bedu? Agora a minha alma está lavada. — pronunciou.

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