Casus Belli

Tenho uma confissão a fazer a você: eu acabei de matar uma pessoa.

Não sei o que deu em mim. Enquanto voltava do trabalho, simplesmente peguei um pedaço de ferro de uma lata de lixo de rua destruída e acertei na cabeça de um transeunte qualquer.

O motivo por fazê-lo também não sei. Não houve raiva, êxtase, nervosismo ou a própria necessidade de violência. Simplesmente fiz porque assim o fiz. O homem agora jaz deitado na calçada, imerso em sua própria poça de sangue e miolos. Como uma amante, a barra de ferro levemente enferrujada deita-se ao seu lado, dando ao ambiente um cenário tarantinesco de amor violento.

Revirei a cabeça em busca de uma razão para aquilo. Talvez meu inconsciente tenha visto um olhar torto, ou um sinal de que, num futuro agora impossível, sofreria algum tipo de violência por parte dele. Um assalto, um sequestro, qualquer coisa.

Impossível. O homem em questão, vestia-se formalmente e pouco dava indícios de qualquer razão para ferir-me. Seus traços lembravam o de um estagiário de algum escritório de advocacia renomado do centro da cidade. Provavelmente estava caminhando até o ponto de ônibus, voltando de um dia estressante no trabalho. Exatamente como eu.

Sua mão direita ostentava um pequeno anel de prata cuidadosamente polido. Me perguntei se alguém o esperava em casa. Levando em conta sua aparência jovial e seu porte físico, provavelmente era um rapaz de muitos amores. Imaginei a sua amante recebendo a notícia da polícia. O homem que hoje cedo brigara por quê ele esqueceu de lavar sua saia social que ela queria utilizar para uma reunião importante morrera de forma extremamente violenta e sem aviso.

Tudo suposição, é claro. Se você não sabe o que há dentro da caixa, todas as possibilidades são verdadeiras. Eles podiam se odiar. “Ela” na verdade podia ser ele. Eles podiam estar a beira do término do relacionamento. Minha ação poderia deixá-la feliz ou triste. Tudo era verdade.

Decidi que iria caminhando para casa. Enquanto passava pelas janelas de apartamentos e postes de luz amarelada, pensei em como seria minha vida na cadeia. Assim como você, nunca me importei com aqueles que vivem nas prisões brasileiras lotadas de pessoas e ratos. Seres inconsistentes que, para a maior parte da sociedade, já estão mortos.

Muito provavelmente eu seria um deles em breve. Imaginei como seria viver sob quatro paredes, dividindo um ambiente de seis metros quadrados com outros 25 traficantes, viciados e pobres. Choramingando algumas horinhas de sol, dormindo no chão frio, jogando futebol e tomando banho comunitário.

Imaginei eles perguntando o motivo de estar lá. Diria “matei um cara qualquer sem nenhum motivo aparente”. Neste momento decidi que não me trataria como inocente ou alegaria que estava fora de mim.

É verdade que muito provavelmente sou doente. Quem mataria alguém de forma tão violenta sem qualquer motivo para fazer-lo? Ou pior, que não sentiria absolutamente nada após isso? Talvez, por conta disso, meu lugar seja naqueles asilos mentais para presos super perigosos. Eu sou assim tão perigoso?

Abri a porta de casa e acendi as luzes. O gato surgiu por debaixo do sofá e passou por entre minhas pernas. Me seguiu miando incessantemente até o banheiro, desesperado por algo para comer. Abri a pequena caixa amarela onde guardava sua ração e coloquei um punhado dela em seu potinho.

Só então percebi o estado das minhas mãos. O sangue, agora seco, de alguma forma ficou alojado entre os espaços dos dedos.

Enquanto o sangue misturado com água escorria pelo ralo, percebi no espelho que gotículas vermelhas pipocaram por todo meu rosto. Mesmo assim, decidi que não iria lavar o rosto hoje. Voltei até a sala, troquei a água do gato, limpei a caixa de areia e desabotoei a camisa.

Sentei no sofá e liguei a tv. Um apresentador de algum reality show genérico vociferava um discurso emocionado de despedida de um dos participantes do programa. A câmera passava pela arquibancada e mostrava alguns rostos emocionados pelo discurso, enquanto outros estavam claramente ansiosos para saber a qual dos participantes era direcionado o discurso. Não sei quanto tempo fiquei ali, mas eventualmente desliguei a tv e fui dormir.

Pela manhã, a música tranquila do despertador anunciava a falsidade de um dia tranquilo. Levantei calmamente, desci as escadas e liguei a máquina de café. Enquanto esperava, decidi assistir o jornal da manhã na tv.

Nenhuma notícia.

Peguei meus chinelos e, enquanto tomava meu café, fui até a esquina comprar um jornal com o jornaleiro. O jornaleiro não respondeu meu bom dia. Paguei meu jornal e voltei para casa.

Nenhuma notícia.

Subi as escadas novamente e peguei meu notebook. Enquanto ligava o computador, decidi preparar uma torrada. Abri alguns canais de notícia locais e nacionais.

Nenhuma notícia.

A torrada estava deliciosa. Desliguei o computador e subi as escadas até o banheiro. Despi-me e liguei o chuveiro. Deixei que o vapor tomasse conta do banheiro e só então entrei no chuveiro.

Durante o banho, imaginei o que aconteceria se a polícia aparecesse na casa naquele exato momento. Eu seria algemado e levado à delegacia completamente nu? Eles deixariam eu me vestir? Dariam uma toalha para me cobrir? Imaginei-me tendo que depor ao juiz completamente nu, na frente de pessoas com o olhar cheio de ódio e cartazes exigindo justiça. O pensamento me fez sorrir.

Ninguém veio. Vesti minhas roupas, coloquei meu sapato, alimentei o gato, fechei a porta e saí pela rua. No ponto de ônibus, uma moça senta-se ao meu lado.

- Bonito dia não é? — perguntou, enquanto ajeitava os cabelos com uma presilha de plástico.

- De fato, um belo dia.

Ela sorriu para mim. Sorri de volta e virei o rosto para frente. Nenhuma notícia, pensei.

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