Uma mãe perfeita

No horizonte, um som abafado e estranho ecoa.

Abro os olhos e ainda está escuro. Tateio a mão esquerda na cabeceira em busca do celular. Não é hora de acordar, o despertador não está tocando. No relógio: 4:30 a.m. Aos poucos vou recobrando a consciência e o som vai se tornando mais nítido. Um som repetitivo e incansável.

Em um susto de consciência, me dou conta do que se trata o barulho. Visto os chinelos e caminho em direção ao outro quarto e, quanto mais me aproximo, mais nítido se tornam os gritos desesperados do bebê.

Durante os 8 meses de choros e noites mal dormidas criei o hábito quase robótico de verificar o que há de errado no bebê. Primeiro tiro ele do berço e checo se não está cagado. Se a fralda está limpa, aconchego e tento acalmá-lo para ver se volta a dormir. Se isso não acontece dentro de 15 minutos, dou meu peito para ele.

Desta vez é apenas falta de aconchego. Por vezes me pego imaginando como seria se nós, adultos, respondemos aos estímulos da mesma maneira que os bebês. Imagino que os donos de restaurantes seriam os primeiros a desistirem do mundo e abraçarem a loucura. Ninguém aguentaria uma sala inteira de adultos chorando e berrando desesperadamente por comida.

Ele fita o teto da casa com atenção. Age como se eu não existisse. Sua perspectiva e olho ruim provavelmente o tornam incapaz de identificar até onde eu acabo e a parede começa. Um olhar muito vazio para uma pessoa tão pequena, penso.

Enquanto balanço seu pequenino corpo apertado ao meu, observo as casas vizinhas à janela. A casas ao redor são recheadas de famílias margarina com seus cães e gatos, pais com empregos respeitáveis e donas de casa atenciosas. Um lugar ótimo para criar uma criança. Um lugar que até dois anos atrás eu odiaria morar.

Sempre ouvi muitas histórias e relatos sobre como ser uma mãe de primeira viagem é difícil. Os problemas enfrentados até se acostumar com a rotina nova e como criança pode ser difícil de lidar para quem não está acostumado. Pode ser o pouco tempo nessa nova profissão, mas nunca tive problemas com nada disso.

De fato me descobri possuindo um dom natural para o cuidado. Para mim, a criança é uma criatura muito simples, movida pelo instinto. É quase como ter um animal de estimação perambulando pelo lote. Ele sabe pedir comida e água, tem horários distintos do nosso e não compreendem muito bem a noção de limite. Nós até falamos com eles da mesma maneira estúpida. A única exceção mesmo fica por conta dos gastos altíssimos com fraldas.

Olho para o bebê e, enquanto ele coça levemente um olho, meu instinto aflora novamente e percebo que em breve ele cairá no sono. Engraçado essa coisa de instinto. Cientistas chamam de memória genética, religiosos, por sua vez, de “toque da mão divina” ou “milagre da atenção”. Eu só acho engraçado mesmo.

De fato, esse sentimento se tornou tão forte que tomou conta da minha personalidade. Desde que ele nasceu, tudo que eu sou para os outros é “a mãe perfeita”. O pior disso é que eu sequer preciso tomar alguma atitude que justifique essa afirmação. “Está no seu olhar, é instintivo” é o que dizem.

Como se depois do nascimento eu, de certa forma, transformasse a minha existência para uma vida de servidão. Servidão a um bebê.

Não que cuidar dele seja um problema, eu até gosto. É melhor do que tratá-lo como um investimento financeiro de alto risco. O que incomoda mesmo é a sensação de que minha antiga personalidade não é mais minha. Maturidade, é o que dizem.

O bebê finalmente fecha os olhos e dorme. Com cuidado coloco-o sob o berço e caminho em direção ao quarto. Enquanto caminho, minha cabeça repete uma pergunta: Se minha personalidade não é mais minha, quem sou eu então?

É isso que me aguarda daqui em diante? Uma vida dentro de um comercial de margarina? Onde tudo é previsível e absoluto? Uma mãe perfeita que gera um filho perfeito em uma vida perfeita.

Repentinamente paro no corredor e sinto um aperto na garganta. Meu coração acelera e sinto dificuldades para respirar. Busco algo para me apoiar e encontro apenas vazio. De uma hora para outra sinto um terror inacreditável.

“Uma mãe perfeita. Uma mãe perfeita. Uma. Mãe. Perfeita. Perfeita. Uma mãe p e r f e i t a.”

Não posso ser isso. Não quero ser isso. Ninguém deve ser isso. Isso sequer existe.

Gotas de suor escorrem lentamente pelo canto da testa. As mãos trêmulas e cabeça pesada. Isso precisa parar. Em um movimento só, levanto-me e volto ao quarto. O bebê permanece exatamente no mesmo lugar que o deixei. Completamente inerte a qualquer ação exterior. Pego-o no colo e levanto o mais alto que sou capaz e, em um único e rápido movimento, solto-o de minhas mãos e deixo que bata violentamente no chão.

Pronto. Agora ninguém pode dizer que sou uma mãe perfeita.

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