do amor de Transcol

Por que a busca diária por aquele tropeço do acaso em que você irá encontrar o amor de sua vida às 05:17 de um Transcol lotado em direção a Vila Velha?

Quando pequeno, quando já tinha devorado meu pão e manteiga matinal, eu observei meus pais conversando à mesa do café e entendi o que era amor: se tratava de casar aos 21, juntar seus trapos e partir pra caça e coleta em par que, mais cedo ou mais tarde, termina na divisão celular que deu origem a você e que deu origem a mim também.

Quando adolescente, eu vi Jim Carrey dividindo cena com Kate Winslet numa trama mais profunda do que Ace Ventura e entendi que amor era essa coisa que te faz deprimido numa tarde de Dia dos Namorados porque você ainda não tem namoradinha como todos os seus amiguinhos descolados da oitava série; amor era juntar as mãos para ir à padaria ou descobrir a arritmia precoce numa madrugada de quinta para sexta trocando mensagens instantâneas com outro cérebro ambulante.

Quando secundarista, eu descobri que o amor, a depender do conteúdo genético de cada um daqueles que empreendem nessa atividade, pode chocar e causar espanto: pode até mesmo merecer a alcunha de ‘imoral’.

Hoje eu te escrevo para confessar: estou confuso.

97% do tempo, e eu falo completamente embasado por pesquisas do IBGE, a gente não entende o papel do outro em nossa vida – e tá tudo bem. Amanhã eu saio cedo e pego um verdinho municipal lotado – meu amor não estará ali, mas eu te conto de qualquer maneira.