Balanço da Guerra Eterna

Eduardo Freitas
Sep 5, 2018 · 4 min read

de Patrick J. Buchanan (minha tradução do original)

“É tempo de pôr termo a esta guerra no Afeganistão”, afirmou o general John Nicholson em Cabul no Domingo no momento da sua despedida após quatro comissões de serviço e 31 meses como comandante das forças do EUA e da NATO.

No Dia do Trabalhador [NT — equivalente ao nosso 1º de Maio] foi notícia a morte de que mais um militar americano morrera pela acção de um ataque levado a cabo por um soldado afegão.

Por que razão continuamos a lutar no Afeganistão?

“Nós continuamos a lutar pela simples razão de estarmos aqui”, referiu o general na reforma Karl Eikenberry que precedeu o general Nicholson.

“Na ausência de uma orientação política e de uma estratégia diplomática”, declarou Eikenberry ao The New York Times, “os comandantes militares têm preenchido o vácuo combatendo numa guerra que não pode ser ganha militarmente”.

Esta que é a guerra mais longa na história dos EUA tornou-se noutra guerra onde não irá haver vitória.

Porém, se os 14 000 militares americanos no Afeganistão saírem, o regime seria derrubado, os Talibãs tomariam o poder e os massacres começariam.

Pelo que a América lá continua com os seus militares. Até quando?

O 17º aniversário do 11 de Setembro, agora iminente, parecer constituir o momento indicado para fazer o inventário dos nossos sucessos e falhanços nas guerras infindáveis no Médio-Oriente nas quais a América mergulhou neste novo século.

No Afeganistão, a presença dos Talibãs está mais disseminada em mais províncias que alguma vez esteve desde o regime foi derrubado em 2001.

Nos sete anos da guerra civil na Síria cuja ignição ajudámos ao armar rebeldes para derrubar o presidente Assad, o conflito parece dirigir-se para a maior, mais sangrenta e mais decisiva batalha.

O exército sírio, apoiado pela Rússia e pelo Irão, está a preparar-se para atacar a província de Idlib, onde vivem três milhões de pessoas e 70 000 rebeldes, incluindo 10 000 combatentes da Al-Qaeda.

Num tuíte na Segunda-Feira, o presidente Donald Trump alertou a Síria para não atacar Idlib, e avisou o Irão e a Rússia para que não se lhe juntassem num tal ataque: “Os russos e os iranianos cometeriam um grave erro humanitário. Centenas de milhares de pessoas poderiam morrer.” Quer a América quer a Rússia têm navios de guerra no Mediterrâneo Oriental.

O Conselheiro Nacional de Segurança John Bolton preveniu que o uso de gás em Idlib desencadearia uma resposta militar dos EUA. Isto é um convite para que os rebeldes em Idlib levem a cabo um ataque de bandeira falsa para atrair o poder da força aérea americana em seu favor.

Na Segunda-Feira em Damasco, o ministro dos Negócios Estrangeiros iraniano declarou que tinha chegado o momento de erradicar o enclave terrorista em Idlib. Se os sírios, os russos e iranianos não estão a fazer bluff e os avisos americanos são sérios, podemos estar a encaminharmo-nos para um confronto EUA-Rússia no interior da Síria.

E todavia, uma vez mais, quais os interesses vitais que nos digam respeito que estejam em risco na província de Idlib?

Na Segunda-Feira, a Arábia Saudita ter cometido um erro quando, ao usar um caça-bombardeiro de fabrico americano, um autocarro escolar ter sido atacado a 9 de Agosto, matando dezenas de crianças iemenitas naquela guerra onde impera um horror humanitário.

A campanha saudita para esmagar os rebeldes Houthis e reinstalar o regime anterior em Saná nunca poderia ser bem-sucedida caso os EUA não proporcionassem os aviões, as bombas e o reabastecimento no ar.

Somos assim moralmente responsáveis pelo que está a acontecer.

Na Líbia, onde derrubámos Muammar Kadhafi, facções rivais controlam agora Benghazi no leste and Tripoli no oeste. O mês de Agosto assistiu ao eclodir da guerra na capital, ameaçando o governo de unidade apoiado pela ONU.

No Iraque, que invadimos em 2003 para o limpar das armas de destruição em massa que não existiam, e para levar as maravilhas da democracia à Mesopotâmia, facções rivais estão a lutar pelo poder depois de eleições recentes terem resultado num ganho de terreno das forças pró-iranianas e anti-americanas.

Entretanto, a moeda iraniana está a afundar-se à medida que se aproxima o prazo de Novembro para a Europa ter de escolher entre cortar laços com o Irão ou perder mercado nos EUA. Enquanto o regime de Teerão vem ameaçando fechar o Estreito de Ormuz se for negado o acesso do seu petróleo aos mercados mundiais, ele enfrenta o estrangulamento económico se não se submeter às exigências dos Estados Unidos.

Quando se soma o número de mortos e feridos americanos nas guerras que desencadeámos desde 2001 com os mortos e feridos, os órfãos, as viúvas, os desalojados e transformados em refugiados árabes e muçulmanos, que benefícios existem na coluna do crédito?

Agora parece que nos dirigimos para o confronto com a Rússia na Ucrânia.

Numa entrevista ao The Guardian na semana passada, o enviado especial dos EUA para a Ucrânia afirmou que Washington está pronta a reforçar forças navais e aéreas ucranianas, dado o apoio continuado da Rússia aos separatistas do Donbass. A administração está “absolutamente” preparada para fornecer novo armamento letal, para além dos mísseis anti-tanque Javelin entregues em em Abril.

Mas se um exército ucraniano for lançado contra os rebeldes pró-russos em Lugansk e Donetsk, e a Rússia intervier ao lado dos rebeldes, estaremos nõs de facto preparados para ajudar o exército ucraniano?

O presidente Trump tem ainda que nos retirar de todas as guerras que herdou, mas até agora não nos embrenhou em novas guerras — um registo que vale a pena preservar.

Lisboa, 05–09–2018