Um cancro no papado

Eduardo Freitas
Aug 31, 2018 · 4 min read

de Patrick J. Buchanan (minha tradução deste texto)

“Padres que rezam em escolas paroquiais para crianças, e acólitos que auxiliam à missa não são apenas pecadores, são predadores criminosos que pertencem a celas penitenciárias e não às reitorias das paróquias…”

Este Verão, o escândalo sexual que tem vindo a atormentar a Igreja Católica atingiu um nível crítico.

Primeiro veio a extraordinária revelação que o cardeal Theodore McCarrick, antigo arcebispo de Washington e amigo de presidentes, havia sido um padre-predador que rezava com seminaristas e abusava dos rapazes acólitos, e cuja depravação era largamente conhecida e encoberta.

Surgiu depois o relatório do Grande Júri da Pensilvânia que investigou seis dioceses e descobriu que cerca de 300 padres tinham abusado 1000 crianças ao longo dos últimos 70 anos.

O bispo de Pittsburgh, Donald Wuerl, agora cardeal arcebispo de Washington, expulsou alguns destes padres corruptos, mas transferiu outros para outras paróquias onde novos ultrajes foram cometidos.

Este fim-de-semana trouxe a mais extraordinária acusação.

O arcebispo Carlo Maria Vìganò, núncio do Vaticano nos Estados Unidos com o Papa Bento XVI, acusou o Papa Francisco de, conhecendo os abusos de McCarrick, nada ter feito para o sancionar, e que, sendo que a “tolerância zero” para com os abusos sexuais é a própria política de Francisco, que o papa deveria resignar.

Na sua carta de 11 páginas de acusações, Vìganò acusou ainda a existência de uma poderosa “corrente homossexual” entre os prelados do Vaticano mais próximos do papa.

O que sabia o papa e quando é que ele soube?

De forma não dissemelhante ao Watergate, a questão aqui é a de saber se o Papa Francisco sabia o que se estava a passar no Vaticano e na sua Igreja, e sabendo, por que razão não foi ele mais resoluto em extirpar a miséria moral.

Os católicos ortodoxos, conservadores e tradicionalistas são os mais visíveis e sonoros a exigir uma explicação. Os católicos progressistas, para quem o Papa Francisco e o cardeal McCarrick foram tidos por aliados em questões de moralidade sexual, foram remetidos para as linhas defensivas.

Agora, as acusações só por si não são prova nem evidência.

Todavia há uma obrigação, um imperativo, dada a gravidade das revelações, de que o Vaticano responda às acusações.

Quando é que o Papa Francisco se apercebeu da conduta de McCarrick, que parece ser comummente conhecida? Terá ele deixado que a sua próxima amizade com McCarrick o impedisse de fazer o seu dever pastoral e papal?

Este escândalo destrutivo está a sangrar há décadas. Tempo demasiado. O tempo está a esgotar-se para a Igreja. Ela tem que agir decisivamente agora.

Padres que rezam em escolas paroquiais para crianças, e acólitos que auxiliam à missa, não são apenas pecadores, são predadores criminosos que pertencem a celas penitenciárias e não às reitorias das paróquias. Eles têm que ser entregues às autoridades civis.

Sendo certo que nenhum de nós está isento de pecado, clérigos sexualmente activos e abusivos devem ser expulsos do clero. É necessária uma purga no Vaticano, removendo ou reformando bispos, arcebispos e cardeais, cuja futura revelação de má conduta passada continuaria a alimentar este escândalo.

Durante demasiado tempo, os fiéis católicos têm sido forçados a pagar danos e reparações por crimes e pecados de padres predadores com o conluio e cumplicidade da hierarquia ao abafá-los.

E é necessário dizê-lo claramente: Este é um escândalo homossexual.

Quase todos os predadores e criminosos são masculinos, como sucede com a maior parte das vítimas: rapazinhos, rapazes adolescentes e jovens seminaristas.

Os candidatos ao seminário devem ser escrutinados de forma semelhanye à utilizada no Conselho de Segurança Nacional. Aos que tiverem inclinações homossexuais deve ser-lhes dito que o sacerdócio não é para eles, tal como não é para as mulheres.

A sociedade secular classificará isto de discriminação injusta, mas é a base do que Cristo ensinou e como fundou a sua Igreja.

Inevitavelmente, para a Igreja permanecer igual a si própria, o embate com a sociedade secular, que agora defende que a homossexualidade é natural e normal e com direito a ser respeitada, irá alargar-se e aprofundar-se.

Porque nos ensinamentos tradicionais católicos, a homossexualidade é uma desordem psicológica e moral, uma propensão para cometer actos que são intrinsecamente errados, e é e sempre foi pecadora e depravada, como ruinosa de carácter.

A ideia dos casamentos homossexuais, recentemente descoberta como sendo um direito constitucional nos EUA, permanece um absurdo na doutrina católica.

Se a mais alta prioridade da Igreja é a de coexistir pacificamente com o mundo, ela irá modificar, amaciar, parar de rezar, ou repudiar estas crenças, e seguir o caminho hedonista de tantos dos nossos separados irmãos protestantes.

Mas se seguir esse caminho, não será a mesma Igreja que durante séculos aceitou o martírio para permanecer a fiel depositária das verdades do Evangelho e da tradição sagrada.

E de que forma o abraçar da modernidade e dos seus valores fez avançar as fés religiosas cujos líderes mais procuraram com vigor acomodá-los?

A Igreja está a atravessar talvez a sua crise mais grave desde a Reforma. A seguir ao Vaticano II, os fiéis têm vindo a abandoná-la, alguns de forma silenciosa, outros abraçando o agnosticismo ou outras fés.

“Quem sou eu para julgar?” disse o papa quando foi pressionado a pronunciar-se sobre a moralidade da homossexualidade.

É inegável que, Francisco e os bispos progressistas, que urgem por uma nova tolerância, um novo entendimento, uma nova apreciação do carácter benigno da homossexualidade, ganharam os aplausos de uma imprensa secular que abominou a Igreja de Pio XII [NT - e tentou destruir o carácter desse Papa].

Que valor têm todos os maravilhosos clippings agora que o momento crucial chegou à cidade do Vaticano?

Lisboa, 31 de Agosto de 2018