Medo

Recai a noite,
e eu preciso acender as luzes de casa,
mas com cada cômodo escuro tenho uma conversa.
cada cômodo escuro me faz uma acusação.

O quarto me acusa do medo de mudança.
a cama é pequena, a escrivaninha é antiga,
o armário é embutido.
o mesmo ar de 30 anos continua embutido.

O corredor me acusa do medo do desconhecido.
“aquela curva tem seus caprichos”, penso,
apesar de já ter andado muito por esse lugar.
o mesmo ar de 30 anos continua a eludir.

A sala me acusa do medo da solidão.
não me vejo só em nenhuma das poucas fotos
que adornam o excessivo número de nichos e prateleiras.
o mesmo ar de 30 anos continua.

Revelados os medos, revelo-te a verdade.
cômodo nenhum me acusa.
eu mesmo me acusava.
eram meus espectros pessoais.

A criança, inocente,
dava poucos passos,
e eu logo perdia de vista.

O jovem, relutante,
contentava-se em recuar,
e eu logo perdia de vista.

O adulto, infeliz,
redescobre o medo do fracasso
e não quer perder nada.

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