Balada do louco (Arnaldo Baptista / Rita Lee)

Intérprete: Mutantes

Álbum (Ano): Mutantes e seus cometas no país do baurets (1972)

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A música, letra e cifras estão aqui:

  • Tom de Mi maior • I7 (blues) • Dominante primário e secundário V7/IV e V/V • Diminuto ascendente para o I grau VIIº • Acorde de subdominante alterado #IVm7(b5) • Acorde invertido.

A genialidade dos Mutantes sempre se fez evidente na criatividade, na versatilidade e na diversidade das formas em suas composições. Na “Balada do louco”, eles se valem de cadência plagal (11) e de acorde diminuto (12) para resolução na tônica, além de cadência deceptiva (13) e de acorde de passagem (14) em progressão harmônica descendente, em contraste com melodia ascendente no trecho “Mais louco é quem me diz e não é feliz”. Professor Almir Chediak nos ensina os mistérios do trítono (15) e suas resoluções no seu livro “Harmonia & Improvisação” (Vol. 1, pags 87–91, Lumiar Editora). O trítono nos explica a capacidade de certos acordes produzirem certas instabilidades que “clamam” por resolução e repouso em acordes estáveis. Dentre eles estão os acordes diminutos, além dos já conhecidos V7 e SubV7, comentados em postagem anterior. Minhas limitações científicas me induzem a concluir que existe algo de blues, de melancolia, no conjunto harmônico e melódico desse clássico da música brasileira e mundial.

A felicidade não é deste mundo! Isso já foi dito, não ao pé da letra, mas por outras palavras (para saber onde, visitem este link: http://www.blogdovelhinho.com.br/felicidade-quando-teria-dito-jesus-que-ela-nao-e-deste-mundo/). Mas será verdade? Recebo inúmeras mensagens, todo santo dia, me convidando a ser feliz. Essa meta, buscada incessantemente pela humanidade, não parece ser fácil de alcançar, a não ser de forma muito efêmera, o que parece corresponder àquela frase inicial. Todavia, as mensagens continuam a chegar, dando ideia de que ela está por perto. Muitas delas nos são trazidas pela espiritualidade através de seus “mediadores”, por vezes indicando roteiros mais ou menos fáceis de seguir, mas todos apontando para o caminho do amor e da conformidade com a lei de ação e reação.

O conteúdo poético da “Balada do louco” não sugere o caminho da loucura, como pode parecer à primeira vista. Ao contrário, e de forma muito inspirada, nos convida a refletir que ela não está em possuir beleza, fama, poder ou fé, ou tudo isso junto. Feliz é aquele que encontrou a paz (mais uma vez, a paz…). Pode parecer loucura pensar assim, mas não será loucura maior querer ser “normal”? Na relatividade das nossas aquisições e conquistas, somos os “deuses” das nossas próprias vidas, e devemos sim ser felizes, dentro de nossas possibilidades.

11 . Cadência plagal: Tipo de cadência (encadeamento) harmônica onde são combinados acordes das funções Subdominante e Tônica, tendo efeito conclusivo. Ex. Nessa música, temos a cadência perfeita (combinação das funções Dominante e Tônica) no trecho “…por pensar assim”, ou seja, na ocorrência do dominante primário B7 seguido da tônica E. A cadência plagal ocorre toda a vez que ocorre a transição do acorde A (subdominante) para E (tônica).

12 . Acorde diminuto: Ou acorde de sétima diminuta, é a categoria de acorde que se caracteriza pela terça menor, quinta diminuta e sétima menor e pela presença de dois trítonos (comentado à seguir). Nessa música, o acorde D#º está no VII grau da escala de Mi maior e tem função dominante meio-forte, servindo de preparação para a tônica.

13 . Cadência deceptiva: É quando o acorde dominante vem seguido por qualquer grau que não seja a tônica. Ex. No trecho “…por eu ser feliz”, o dominante primário B7 vem seguido de C#m, ou seja, III grau da escala de Mi maior.

14 . Acorde de passagem: É um tipo de acorde de função especial, não dominante. Nessa música, o acorde A#m7(b5) é ouvido como subdominante alterado que serve como acorde de passagem do I/5ª no baixo para o IV grau.

15 . Trítono: Dividindo-se a escala cromática de 12 notas (7 naturais e 5 acidentes) ao meio, teremos o intervalo correspondente a 6 semitons, ou trítono (1 tom = 2 semitons). Este intervalo resulta na dissonância que caracteriza o som preparatório nos acordes de sétima da dominante. Dividindo-se os trítonos ao meio, teremos os 4 intervalos de 3 semitons que formam o acorde diminuto, visto acima.