Ligando pra você pra saber de mim

Quando ligo no canal 40 e passo tanto calor (mesmo sendo tão cedo da noite), sou traído pela pior máquina. Lentamente, começo a acreditar nos absurdos que escrevo. A cada frase, a cada shift+enter, me liberto da minha mente. Meus garrões e minhas palavras sublinhadas em vermelho e todos os meus erros sintáticos ganham vida própria. Se rebelam contra mim. Em algum lugar, eu me rebelo contra eles.

Penso em ligar pra alguém, nunca sei se penso em ligar pra mim mesmo. Não é por acaso que atendo os telefones sem grande hesitação. Gosto de me estender até esquecer. Existe um gato intrigado em algum lugar, atento (e sem medo) ao som da água correndo na tubulação mal instalada pelo trabalhador mal pago. O tédio reina. Penso nos momentos vazios, penso ainda mais nos momentos vazios com taquicardia por proximidade de alguém.

Subo os lances (Sozinho) da escada e olhando pra todos os lados. Não que eu fique paranóico, não é isso, mas na minha cabeça o incêndio de Chicago nunca termina. Só me resta jogar xadrez impacientemente (desistindo sempre que perco o bispo das casas brancas) e imaginar que estou deitado numa grande caixa cheia de uvas pisoteadas. Nessas horas, ninguém sabe o que procura, nem se deveria procurar.

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