Tornado
Tô aqui na cafeteria. São recém 4 da tarde e logo mais tenho de buscar minha irmã na escola. Ela sempre me manda mensagem perguntando se vou buscar ela, sendo que eu sempre vou e eu sempre tô lá na frente no horário. Pré-Adolescentes me matam, por Deus. Mas não era sobre isso que eu queria falar. É que me aconteceu um absurdo agora no caminho. Vou chegar nisso em breve. No que eu estacionei o carro (trata-se de um carro qualquer, para uma pessoa normal que não tem grande interesse por carros) eu juro que quase desmaiei e marquei toda a calçada com o cheiro do meu corpo. Felizmente, consegui entrar aqui e respirar um pouco. O ser humano que me atendeu chegou perto da mesa e “Já vou te atender, tá? Bastante movimento hoje”. Falei pra ele não se preocupar muito com o tempo, até porque eu não consigo tomar café quente de jeito nenhum. Sendo assim, tenho um tempinho pra te contar o que tá na minha cabeça.
O ponto é que não consegui evitar de olhar os carros passando no cruzamento (tem uma sinaleira aqui, dessas que dá problema seguido e faz com que 86% dos motoristas utilizem algum tipo de método de comunicação que remeta aos períodos mais obscuros e primitivos da humanidade) e fico pensando como o tempo tá passando, e como às vezes , quando eu sento na frente do maldito prédio que estudo na faculdade e vejo um monte de gente me passa tanta coisa na minha velha cabeça. Sentado na frente do tal prédio, com toda aquela grama feia e uns canteiros mal acabados na frente de um bocado de árvores ainda mais feias dependendo da época do ano (o que não impede que sejam plano de fundo pras fotos tiradas nos mesmo ângulos e postadas nas mesmas páginas da internet) eu vejo gente velha, nova, estranha, gente que parece inteligente e gente que anda de bicicleta e odeia quem anda de carro. É uma vista muito interessante, não tem como negar, mas por outro lado é um tanto deprimente. Digo, eu fico pensando no que diabos vai acontecer com toda essa gente. Às vezes tu olha pra uma esquina ou outra, talvez uma parede de um prédio conhecido e tu só consegue pensar que se a tua memória te falhar um pouquinho só, é uma questão de 6 piscadas de olho até tudo sumir e toda essa gente ir pra um canto diferente do mundo.
É tudo efêmero. Como eu vou ficar seguro sabendo que metade dessa gente pode muito bem acabar me encontrando daqui 30 anos e me perguntando como eu tô? Como é que eu vou responder isso? Calma, não é isso não. É óbvio que eu vou responder que tá tudo bem e tudo o mais, mas sabe aquela sensação quando alguém te olha e tenta te “sacar”? Esse sentimento de parecer ser previsível, a dificuldade enorme de aceitar as próprias fraquezas. Enfim, me parece muito plausível que daqui a 30 anos a maioria das pessoas aqui se torne bastante previsível, ao menos a nível superficial pra pessoas do seu círculo de conhecidos.
Sobre o que me aconteceu no caminho, acho que eu tive uma espécie de acesso involuntário à outras dimensões. Pode rir o quanto quiser, mas eu juro que tive uns bons e velhos flashbacks. Me perdi completamente, achei que ia desmaiar ou algo que o valha. Eu tava pensando num filme que assisti ontem. É irrelevante pros fins que pretendo com esta conversa levar adiante qualquer espécie de detalhe a respeito do filme, mas o ponto importante é que o debate em torno do filme sempre acaba tentando concluir alguma coisa sobre a tal “filosofia cotidiana”, também conhecida como “O Funcionamento do Modo Automático do Cidadão Médio”. Bom, a gente sempre pode citar milhares de filósofos e vomitar por aí todos os nomes clássicos e toda aquela baboseira que aprendemos no colégio e tudo o mais pra tentar começar a explicar qualquer coisa a respeito. Mas, o que é que, lá no fundo, nos impede de ter uma maldita crise existencial antes de dormir todos os dias? O que efetivamente ajuda ou piora a vida das pessoas no dia a dia?
Foi por isso que quase desmaiei. Agora sentado aqui, ainda não sei a resposta. Mas afinal, o que é que se faz? Como lidar com os nossos problemas (quaisquer que sejam) hoje em dia? Digo, eu mesmo tenho um bocado de coisa errada na cabeça. Meus amigos também, por Deus. E não falo isso de maneira cruel, quero dizer que tá todo mundo na mesma desgraça, ao menos num sentido relativo. Entre tanta coisa que já ouvi e tenta gente entrando em surtos e nervous breakdowns, será que vamos nos obcecar por um Deus que não conhecemos, por fatos que não enxergamos e por frases que só repetimos? Será que (caso o seja) se repetirmos nossa oração qualquer o tanto quanto for necessário nossos problemas magicamente desaparecerão e todos os malditos pretensiosos irão evaporar e nosso coração irá se encher de todas as coisas bonitas e agradáveis e tudo o mais? Ou quem sabe será que vamos gastar toda nossa energia chorando na cama todos os dias, odiando o espelho e indo na terapia todas as semanas até que, surrealisticamente, tudo mude?
Desculpa a enrolação. Eu quero dizer com isso é que eu realmente não sei até que ponto nossas crises são revoltas certeiras. Por exemplo, se você faz ou fez faculdade, sabe muito bem dos tipos cretinos que habitam esta instituição. Pensa naqueles professores que transformam quase tudo que eles tocam ou falam em mero academicismo ou ate pior: culto. Aqueles caras que, do alto de seus diplomas e suas teses lidas por um total de apenas 21 pessoas, humilham e até perseguem alguns enquanto do outro lado praticamente cultivam legiões de idiotas puxa-saco. Voltando ao ponto da crise, pensa em alguém que não aguenta mais a faculdade, talvez um dos motivos pra tanto sendo esta espécie agora brevemente citada. Em crise, esse alguém não quer mais ir para a aula, está desmotivado, está triste, está verdadeiramente sem ver grandes horizontes. Qual o ponto de ir pra faculdade, se ela é o completo oposto do que aparenta ser? Então, esse alguém entra nessa pane e tudo o mais. E não me interprete mal, eu super concordo e super estou nesse time. O que me preocupa, no entanto, são as motivações profundas pra tal crise.
Vamo lá: até que ponto esse alguém (que a partir de agora vou chamar de Carlos, pra fins tanto humorísticos quanto de referência) está se revoltando com o sistema falho e patético em si e não com as pessoas (ou seja, num nível pessoal e não conceitual) em questão ou até que ponto essa revolta não é tão cheia de egoísmo quanto o que se pretende destruir? Carlos, então, nessa lógica doida que tô tentando construir nessa cafeteria que vende um café minúsculo a um preço absurdo, é talvez tão egoísta quanto. Ainda, suponha que Carlos tem um professor favorito, um escritor favorito. Seja esse escritor o próprio James Joyce e seja esse professor algum professor muito humilde e que em cada frase proferida em cada aula tinha alguma, pelo menos alguma, coisa sábia no meio. Perfeito, ambos são pessoas que escapam do ódio à instituição faculdade. Mas se Carlos resolver desejar o fim do ego, o fim das motivações individualistas e tudo o mais, será que ele quer o fim do ego de James Joyce ou só o fim do ego do professor cretino? Entende? A gente se preocupar tanto com o fim do ego, com a guerra às coisas que não podemos ver nem tocar e com todas as questões morais vai nos levar até aonde? Ou pior: vai justificar quantas de nossas falhas e defeitos? Meu maior medo é que todas as revoltas, no fim, só justifiquem ou tentem justificar uma possível completa falta de vontade com a própria vida.
Bom, talvez todos os parágrafos que escrevemos sobre qualquer coisa foram em vão. Talvez, nossos autores preferidos nos odiariam porque somos pouco criativos e pegamos muito do trabalho deles. Talvez, o tempo e a distância não correspondam às nossas mais profundas expectativas. Ainda, talvez, quem vai saber quem é quem e o que é o que? Juro que só consigo pensar numa coisa. Todos sabem o som de duas mãos batendo palmas, mas qual o som de uma só?
Tenho que ir, o café já esfriou e do jeito que eu sou vou tomar inteiro nos próximos 30 segundos. Depois, é claro, tenho que buscar minha irmã.
