Aquele em que ele conheceu o menino que ia embora

Se minha vida fosse uma sitcom, esse seria o episódio sobre meus momentos de insegurança afetiva

Música alta, luzes sinestésicas, muito mais gente por metro quadrado que o comum, cheiro de álcool e outras drogas no ar. 
Entre um passo desajeitado de dança aqui e outro lá, um esbarrão e uma troca de olhares culminam em beijo. Beijo que leva a mais beijos.
- Como é teu nome? — pergunto, depois de um tempo. 
Ele responde e eu não entendo, mas finjo que sim. 
- E o seu? — ele devolve. 
Respondo e, agora apresentados, voltamos a nos beijar com intensidade. Estávamos embriagados o suficiente para não nos inibirmos de levar nossas mãos até parte nenhuma do corpo um do outro. Embriagados o suficiente para esquecermos que havia outras duas mil pessoas no mesmo espaço — a maioria delas embriagadas o suficiente para não se importarem. 
- Você beija muito bem — algum de nós dois disse em algum momento, não estou certo de quem. 
- Você também… tá difícil parar — respondeu o outro de nós, fazendo ambos sorrir.
Paro o beijo, seguro o seu rosto e o observo. Ele aceita quieto, me observando também. 
- Qual o seu signo? — ele dispara. 
- Virgem — respondo, rindo da pergunta. Ele não ri, a pergunta era séria, então emendo — e o seu?
- Libra — não sei que tipo de informação tirar disso, sequer acredito que haja muita informação a ser tirada, então simplesmente aceito. 
- Você é de onde? — pergunto, intencionando saber sobre sua faculdade de origem já que aquela era uma festa universitária. 
- Sou de Brasília… — começa ele, me pegando de surpresa— estou em São Paulo só por mais duas semanas.
- E o que você tá fazendo por aqui?
Não lembro qual foi a resposta. Também não lembro como chegamos ao momento em que concordávamos sobre duas semanas serem tempo suficiente pra nos vermos outra vez, depois e fora daquela festa.
- Anota o meu número? 
- Putz, eu deixei meu celular na chapelaria…
- Ixe, eu também to sem o meu…
- Se eu te falar meu nome você consegue lembrar pra me adicionar no Facebook amanhã?
- Podemos tentar…
Trocamos nossos nomes com eu mentalmente concluindo que estava bêbado demais pra lembrar de um nome que eu sequer havia entendido direito. Já sabia desde aquele momento que aquilo só poderia dar certo à partir dele. 
- E agora?
- Vamos nos beijar até essa música acabar e aí cada um vai atrás dos seus amigos, pode ser?
- Combinado. 
Feito.


Acordo zonzo depois de mais de doze horas de sono. Sono este que só foi interrompido porque a fome começou a pesar. 
Leite, café, pão. Entre uma mordida e outra, as lembranças da noite anterior chegam.

Qual era o nome dele mesmo?, penso. 
E não consigo lembrar.

Durante o dia a memória vai sendo preenchida, lacuna por lacuna, e a vontade de encontrá-lo cresce. Só não me vem o nome.

Avalio a possibilidade de perguntar por ele no evento da festa no Facebook, mas desisto com medo de me expor ao ridículo. Avalio a possibilidade de procurar no meio de todos os confirmados do evento e torcer pra foto de perfil dele me chamar atenção, mas desisto com medo de sentir-me sendo ridículo.

Não parecia haver alternativa mais razoável do que esquecer.

É uma história tão boa… que frustrante acabar assim.

E então uma notificação no celular.

Solicitação de amizade.

É ele!

Me sinto calmo por pensar que o fato de ele ter lembrado o meu nome e me procurado poderia indicar que o interesse não existia só pra mim, e isso me da segurança pra enviar uma mensagem em privado.

  • Olaar :)

[depois de um tempo, ele responde:]

  • Oii, tudo bem?
  • Sim, e contigo? Recuperado da festa?
  • Mais ou menos haha
  • É, eu também hahaha
  • haha

[espero um tempo para ver se ele manda algo além dessa risada, o que não acontece, então decido tentar outra vez:]

  • admito que tentei lembrar seu nome quando acordei mas não consegui hahaha
  • é, é um nome diferente mesmo.

Paro e espero. Essa resposta conclusiva demais me assusta. Não me sinto confortável com o fato de estar sozinho tentando fazer a conversa andar, me sinto inseguro pensando que ele na verdade perdeu o interesse em mim depois de vasculhar o meu perfil e agora só está respondendo por educação.

‘Ele deve ter visto minhas fotos e não me achou tão bonito quanto a memória que fez bêbado de mim. Ele deve estar arrependido de ter vindo atrás. Ele deve, ele deve, ele deve…’, mal consigo conter os pensamentos.

Gostaria muito que ele mandasse alguma coisa, uma pergunta, uma piadinha, compartilhasse um acontecimento, qualquer coisa que pudesse me tirar dessa insegurança, mas isso não acontece.

Não quero forçar uma barra, tenho pavor de me fazer inconveniente. Mando um emoji como maneira de sinalizar que estou interessado na conversa, mesmo sabendo que esta tática é falha já que nada garante que essa será a interpretação dele. De toda forma, ele sequer visualiza. Passam-se horas e continua nisso.

Dali em diante eu estava oficialmente frustrado e com minha auto-estima diminuída.

Durante um tempo toda notificação de mensagem me anima por me fazer pensar que poderia ser uma resposta dele, e com o tempo vou desacreditando nisso cada vez mais. Visito o perfil que ele tem, vejo suas fotos, seus textos, suas músicas. Penso que deve ser uma pessoa muito interessante.

Uma pessoa muito interessante que não me responde.

Inicio o processo de tentativa de aceitar e passar pra próxima, como sempre.


Dois dias depois eu estava no meu quarto estudando, lendo um texto que falava sobre a importância de não elevar suposições a conclusões finais sem o devido processo de demonstração e prova com todo o rigor necessário. O texto era sobre Fundamentos da Matemática, mas foi natural abstraí-lo e pensá-lo como uma recomendação que ia além dos números.

No caso em questão, a verdade era que por mais que na minha cabeça as evidências fossem fortes, eu não tinha garantia nenhuma de se fora dela essas coisas faziam sentido. A conclusão de que ele não estava interessado, no fim, não passava de uma interpretação minha das coisas. Uma interpretação que poderia condizer com a realidade ou não, eu não tinha como saber.

O que eu realmente sabia, na verdade, é que o meu interesse nele era tão somente um… interesse. Conhecer alguém bacana e ter a oportunidade de passar bons momentos com essa pessoa, nada mais do que isso, pelo contrário… me animava pensar que seria interessante conhece-lo um pouco mais justamente porque não precisaria me preocupar com os “e depois?” todos uma vez que o depois já estava determinado: ele deixaria São Paulo em pouco tempo e voltaria pra Brasília. Simples.

Motivado, então, pelo sentimento de ‘por que não?’, decido tentar outra vez. Abro o inbox e envio uma mensagem: “ei, vc vai ficar em sp até quando?”. Pra minha surpresa, quase que de imediato ele responde: “Oi querido! Até dia 12”. Animado, pergunto como ele pretende aproveitar os últimos dias por aqui. Para uma surpresa ainda maior, ele solta sem nenhuma parcimônia: “Contigo? hahaha Eu adoraria”.

Virada de jogo. Do degrau da frustração para o da ansiedade (a boa, no caso) em questão de minutos. Sentindo interesse e sendo interessado outra vez, que delícia.

Depois de um tempo analisando possibilidades, ficou combinado que iriamos numa balada na Augusta. Como bom visitante da cidade, conhecer como funciona uma das principais ruas dos programas noturnos paulistanos fazia todo sentido. Como fã de música pop, como ele era e eu também, fazia ainda mais.

“Então está combinado?”
“Sim, combinadíssimo!”

E lá estava eu, animado com a perspectiva de conhecer melhor alguém sabendo de antemão que as coisas não iriam além daquilo, do conhecer pelo conhecer — e pelas experiências todas que esse tipo de coisa carrega.

E é honesto quando digo que eu estava muito confortável com isso.


E então aconteceu.

A parte fácil é falar sobre ele, já que não há muito a acrescentar ao fato de que é uma pessoa realmente ótima. Seguro de si o suficiente pra dar espaço para que aquilo pudesse ser um momento de espontaneidade pra todos os envolvidos, como eu gostaria que fosse.

A parte difícil é explicar como foi todo o momento em si.

Existe, claro, o lado objetivo das coisas. Sobre termos bebido, dançado, nos beijado, conversado e tudo isso mais algumas vezes em ordens diferentes.

Existe, também, a romantização de tudo, que seria eu falar sobre como foi particularmente interessante estar no meio da pista, vendo-o dançar animado, me animando para acompanhá-lo, e me sentir numa cena de filme cuja historia era tão somente aquela que eu estava vivendo. Sobre como foi ainda mais interessante quando decidimos sair pra tomar um ar e sentamos na rua durante uns bons quarenta minutos nos quais tivemos a oportunidade de ter aquele tipo de deep conversation que aquece o coração. E sobre como foi conclusivamente interessante quando, depois da balada, paramos pra comer e ficamos abraçados — enquanto falávamos bobagens e riamos do fato de ele ter comprado por engano muito mais coxinhas do que qualquer ser humano é capaz de consumir sozinho — ambos conscientes de que estávamos apenas aproveitando a presença um do outro pelos últimos momentos, como previra o plano.

E nada disso é mentira.

Porém tampouco é a história completa.

Pra além das objetividades e suas romantizações, existe o que acontecia dentro da minha cabeça a cada momento.

Existe o Eduardo que só porque demorou a obter uma resposta quando perguntou pela pessoa ao chegar no encontro, pensou que levaria um bolo e passou a acreditar que tudo não passava de uma piada de mal gosto armada pra deixá-lo com cara de taxo e entrou em crise ansiosa por conta disso.

Existe o Eduardo que de repente estava na fila da festa bebendo com uma pessoa que aparentava ser muito bem resolvida com a própria auto-estima e que, embora admirasse isso, se sentiu intimidado, pois se tem uma coisa que o Eduardo não é, essa coisa é ser bem resolvido com a estima que tem de si.

Existe o Eduardo que ficou extremamente desconfortável em vários momentos durante o encontro porque sua cabeça começou a acreditar (sem muitos porquês) que a pessoa com quem estava queria que ele não estivesse mais ali para que ela pudesse ficar com outras pessoas. E esse Eduardo leva a outro Eduardo, que é aquele que se por um lado pensava que tudo bem ficar com outras pessoas, afinal eles não eram nada um do outro e estavam numa festa, que pensava que poderia ser inclusive divertido, por outro pensava que isso o levaria a se sentir preterido e seria um golpe muito forte na auto-estima já frágil que tinha.

Existe também o Eduardo que quando estava conversando com sua companhia sentiu um impulso de vontade de dizer a essa pessoa que estava apreciando muito a presença dela, mas não disse por temer ser mal interpretado, como se aquilo pudesse soar mais do que realmente era, e lhe apavora a ideia de dizer uma coisa e ser entendido por outra. E ele não disse também por medo de não ser recíproco e acabar colocando a outra pessoa numa situação desconfortável onde ela retribuiria não por sinceridade, mas por piedade.

Existe ainda o Eduardo que depois da festa quis fazer um convite para que eles continuassem aquilo em outro lugar e que, mesmo sentindo por um momento que existia esse interesse da outra parte também, não conseguiu fugir do pensamento inseguro que o levou a acreditar que a sua companhia só queria se ver livre dele o quanto antes e por isso era melhor simplesmente deixar isso acontecer e não tentar nada mais.

Existe, enfim, o Eduardo que sentia tudo isso e tentava ao máximo não transparecer, pois sabia, desde sempre, que de muitas maneiras estava sendo irracional, afinal a pessoa com quem estava de modo algum poderia ser colocada como vilã. Este Eduardo sabia que a única vilã ali era sua insegurança, que não lhe permitia simplesmente aproveitar todos aqueles momentos sem se afundar em dilemas.

E ter consciência disso não era o suficiente pro Eduardo se livrar delas.


Já em casa, acordo com lembranças mais completas da noite anterior que da última vez. Enquanto escovo os dentes, lembro da despedida:

-Então acho que aqui é a hora da gente se separar…
-É…
Um abraço demorado e apertado, honesto. Um beijo tímido e mal calculado, mas também honesto. 
Penso se devo falar algo mais conclusivo, como desejar um bom fim de viagem e um bom retorno pra Brasília. Não consigo me decidir e então ele diz:
- Me manda uma mensagem avisando que chegou bem? 
- Pode deixar. 
Último beijo. Última olhada.
Cada um pro seu lado.

Olho o meu celular e confirmo que já havia enviado a tal mensagem avisando que cheguei bem e perguntando se ele também. Não tinha respostas. 
Passo a me perguntar o quanto foi honesto da parte dele querer que eu mandasse essa mensagem e o quanto foi apenas retórica genérica de uma despedida qualquer. Tento não ficar preso a esse pensamento e vou fazer outras coisas.

Mesmo tentando, não consigo me desvencilhar das neuras. Passo o dia me esforçando pra focar meus pensamentos sobre a noite anterior pela perspectiva romantizada, mas simplesmente não consigo ignorar todas as confusões mentais originadas no processo.

Mais tarde naquele mesmo dia, encontro o pacote com algumas coxinhas que não conseguimos comer e decido enviar uma foto pra ele, fazendo graça. Pouco tempo depois ele responde fazendo graça também.

Fica entalado no meu peito e na minha garganta o que eu não tive coragem de dizer na noite anterior, então decido me esforçar para ser menos neurótico e concluir de vez essa história que, a despeito do que minha mente auto sabotante queria me levar a pensar, tinha sido tão bacana.

Envio então uma mensagem com tom de ponto final na qual tive coragem de compartilhar que havia gostado muito dos momentos todos — o que realmente era verdade apesar de tudo — e sobre como esperava que tudo tivesse sido divertido pra ele também. Desejo-o que aproveite bem os últimos três dias em São Paulo, sorte no retorno à Brasilia e sucessos nos objetivos todos que ele havia compartilhado comigo, e indico que ele deve me mandar um alô caso algum dia volte pra São Paulo para que possamos comer mais coxinhas por aí.

Pouco tempo depois, ele responde com uma mensagem que conota algum tipo de emoção positiva, mas talvez um tanto surpreendido. Basicamente diz que também adorou tudo, me elogia e pede para que eu não suma.

-“Eu vou continuar por aqui haha Então não suma você!”
-“hahahahahahahaha ❤”


O que eu esperava?, me pergunto. Era isso, não era? Vocês sairiam uma vez mais, passariam bons momentos juntos e cada um iria pro seu lado, ele em Brasília e você aqui, não é?

Mas a verdade é que o que me incomodava não era o fato de cada um ir pro seu lado, não, não, não. Quanto a isso eu estava bem, sempre estive.

O incomodo vinha de mim e era sobre mim. O incomodo era e é por eu sempre pensar que eu não sou atraente o suficiente, interessante o suficiente, simpático, engraçado, cativante e tudo o mais que se possa pensar o suficiente. Isso tudo, a bem da verdade, sempre foi sobre mim. Sobre eu ter e sentir tudo isso enquanto mantenho uma imagem autoconfiante de mim para os ao meu redor. Sobre eu querer e não conseguir me convencer de que posso ser todas essas coisas. Sobre tentar acreditar que uma pessoa de quem eu acho tudo isso possa achar isso de mim também em alguma medida.

Esse episódio todo sempre foi sobre eu tentando ter momentos agradáveis com alguém bacana e, no caminho, promovendo auto-sabotagens típicas de quem vive nessa insegurança afetiva mas tenta lidar com elas da melhor maneira.

E, bem, eu estou tentando. Juro que estou. 
Sempre estou.