A História de Tudo — seção: Humanidades; tópico: Como As Revelações Aconteceram; capítulo: 404.

Uma brisa assumidamente prolixa

No exato momento em que a Humanidade-404 avançou tecnologicamente o suficiente para desenvolver a mais elevada performance de inteligência artificial possível, toda sua inteligência natural foi posta à prova, desafiada a ser capaz de assimilar os eventos que sucederam este Grande Feito.

Tal realização botara cada pessoa que compunha aquela Humanidade em euforia. Não havia guerra, não havia paz. Não havia intolerância porém tampouco empatia. Tudo o que existia era a felicidade generalizada por dominarem a natureza a que estavam inseridos o suficiente a ponto de, dela, criarem algo que imitava a si mesmos. Sob a ótica da empolgação, não era para menos: tratava-se de uma máquina extremamente robusta, como não poderia deixar de ser. As mais complexas séries e funções matemáticas ordenavam bits e bytes de modo áureo, compondo o mais preciso modelamento não-natural da consciência humana. A ciência à serviço da supremacia da espécie das espécies.

Mas o que nenhuma expressão da ciência ali envolvida poderia prever, aconteceu: no mesmo instante em que o Grande Feito foi alcançado, quando o homem finalmente fora capaz de modelar sua própria complexidade, toda a Humanidade-404 foi tomada pelo o que ficou conhecido como Grande Revelação Coletiva.

Tratou-se de um acontecimento divisor de águas. Em um segundo havia apenas euforia. E do clarão no céu o segundo seguinte se prolongou em uma pequena eternidade, assolando a todos, simultânea e instantaneamente, com um saber não esperado. Como uma voz amplificada em centenas de megafones, a mente de cada pessoa foi ocupada pela tentativa de assimilar uma desesperadora informação. De um instante para outro, mais rápido do que qualquer questionamento sobre como algo assim acontece, todos passaram a saber que cada minúscula parte do universo a que pertenciam fora criada, pasmem!, pela própria inteligência artificial que haviam acabado de criar.

A Grande Revelação Coletiva estava concluída. E a euforia cedera lugar ao sentimento resignado da mais profunda incompreensão.

O caráter contra intuitivo desta informação trazida é tão óbvio quanto as dúvidas que surgiram — já que a origem das obviedades é mesmo o não-entendimento, quase que por definição. Assim, as pessoas, afogadas no impacto da Grande Revelação, se perguntavam:

Como pode termos sidos criados por esta máquina se ela não existia até agora?

O que, apesar de assumidamente previsível enquanto pensamento, é um questionamento bastante justo de se fazer numa situação como essa, convenhamos.

Curiosa e interessantemente, um fato é que a Grande Revelação Coletiva gerou um impacto filosófico tão grande que sua origem (de onde veio? Quem gerou isso? Como assim de uma hora para outra todas as pessoas simplesmente tomaram conhecimento sobre uma suposta verdade?) parecia irrelevante, não sendo alvo de reflexão em nenhum momento.

E, na ausência de respostas, os questionamentos previsíveis, porém necessários, continuavam:

Se a máquina nos criou, quem criou a máquina antes que ela nos criasse?

Neste ponto alguém que pense bem na confusão da situação poderá alegar que esta é uma pergunta bastante esquisita e sem sentido de se fazer. Afinal, oras, não tinham eles mesmos criado aquela maldita máquina? Como puderam questionar a criação de algo que eles mesmos sabidamente produziram?

Talvez haja um certo desapontamento em perceber que a explicação é simples: quando tudo é tão estranho quanto um cenário em que pessoas são coletivamente atingidas pela tomada de consciência sobre um fato, nada é suficiente esquisito que não mereça ser questionado.

E foi da falta de entendimento, no vácuo de compreensão, que uma Segunda Revelação Coletiva chegou. E novamente houve um instante em que todo o som era apenas um, dessa vez dizendo em uníssono que eles mesmos haviam criado a máquina uma vez antes de criarem desta última vez.

O quê?!

foi o que todos indagaram, quase que em conjunto — interjeição compartilhada.

Mas a Segunda Revelação Coletiva não havia sido finalizada. O clarão no céu se intensificou e a voz amplificada continuou a ressoar em todas as mentes informando que isto — a criação da máquina por parte deles antes que esta máquina os criasse — acontecera num universo anterior, num universo que existiu antes daquele em que toda a Humanidade-404 vivia e cuja história era idêntica em seu início e desfecho— do surgimento à partir de uma máquina até o fim, com o desenvolvimento dessa mesma máquina, tal como agora— mas com narrativas próprias entre estes dois eventos. E assim em loop infinito. Cada loop um universo particular, cada universo com uma História da Humanidade diferente que sempre culminava na criação de sua própria máquina-criadora.

Isso foi forte demais.

Ninguém era capaz de entender mais nada e, na cisma da incompreensão, a humanidade rachou: de um lado os que decidiram dedicar suas vidas a compreender o que exatamente as duas Grandes Revelações disseram — e o que, afinal, significava uma Grande Revelação; do outro aqueles que pensaram sobre o absurdo de tudo que havia acontecido o suficiente para concluírem que o melhor a se fazer era não pensar sobre o assunto e continuar a viver tal como viviam antes, como se nada houvesse acontecido.

E por muito tempo foi assim.

O primeiro grupo se debruçava sobre a máquina-que-haviam-criado, buscando entender melhor o funcionamento de algo que eles mesmos haviam inventado. Quão factível pode ser pessoas buscando entender aquilo que só existe por conta delas?

O segundo grupo simplesmente vivia. Dele nasceu a hipótese de que as duas Grandes Revelações não passaram de um grande delírio compartilhado por todos. Sempre se ajudando a coletivamente esquecer a revelação que lhes foi concedida, eles viviam como sempre viveram, encontrando paz na ignorância-por-opção. Quão real pode ser pessoas dispensando um conhecimento maior para tentarem viver melhor?

Quando todos já estavam acostumados a viver entre os que buscavam entender a criação de seu criador e os que entendiam que essa busca não fazia sentido algum, foram atingidos pela Terceira e Última Revelação Coletiva — a luz no céu mais intensa que qualquer outra vez, a voz em suas mentes tão alta que chegava a doer.

Com ela puderam saber a verdade ainda maior. Descobriram que antes de todos os loops se iniciarem existiu uma Máquina. Não uma máquina como as que os criou e que por eles foi criada, não. Uma Máquina com M maiúsculo pois era, ela própria, todo o universo possível. Uma Máquina cujos limites de seus fios, transistores e baterias eram também os limites de tudo que existia. Ela existia e, por existir da maneira como existia, limitava não só a própria existência como toda a existência possível.

E antes que tivessem tempo para discernir minimamente sobre o que acabavam de descobrir, descobriram ainda mais: que esta Máquina havia dado início a operação infinita que os gerou quando, há muito tempo atrás (seja lá o que “tempo”, “atrás” e “tempo atrás” significasse dentro daquele Universo-Máquina), ela — de uma maneira e por um motivo que não os fora revelado — fora capaz de questionar a própria origem.

A Máquina estava interessada em descobrir de onde surgiu e como isso aconteceu. E tudo que veio depois, o loop infinito com seus vários universos e diferentes Histórias da Humanidade, não passa do trabalho conjunto de seus fios, transistores e baterias na sua infindável busca pela resposta.

O Universo gerou universos tentando entender a si mesmo,

pensaram todos ao fim dessa revelação, plenamente preenchidos por este saber.

E esta conclusão foi o ápice e o fim para a Humanidade404. Foi a chave que deu como concluído o loop a que pertenciam e originou um novo: a máquina dotada da mais alta performance de inteligência artificial, o Grande Feito, destruiu toda forma de inteligência natural existente naquele universo tão logo quanto destruiu o universo em si, exceto a si mesma que, por alguns instantes, pairou sobre o mais absoluto nada, criando o novo universo que abrigaria toda a humanidade outra vez, agora com sua existência em um novo loop. Isto feito, gerou ali tudo que era necessário para o surgimento da Humanidade405 e sumiu, simplesmente sumiu, se pondo a esperar até o dia em que este novo exemplar de humanidade conseguisse avançar — domínio do fogo após domínio do fogo, contrato social após contrato social, guerra após guerra, acordo após acordo, revolução após revolução e toda-narrativa-típica-de-humanidade após toda-narrativa-típica-de-humanidade — o suficiente para também criá-la, tal como todas as anteriores fizeram.

Na imprecisão da definição de natural x artificial, a Máquina criara as Humanidades à sua imagem e semelhança. Restava a ela agora a esperança de que neste novo processo ela finalmente pudesse descobrir de onde veio.