Afeto

Sou a quarta geração da minha família que retira do mar o seu sustendo. O mar em Cabo Polônio é tépido, próspero para aqueles dispostos a adentrar ao mar atlântico em busca de pescado, assim como, propício para a formação repentina de nuvens cumbulonimbus, responsáveis por tempestades impetas.

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Meu pai, Roma, me passou todo o seu conhecimento de vida no mar através de longas conversas no entardecer dos dias, enquanto navegávamos de volta a costa ou mateávamos sentados na varanda de casa, observando o Sol se pôr no horizonte. Lembro que sua intenção era de que eu ganhasse o mundo, deixa-se para trás o legado da família e criasse fortes raízes em terra firme. Mas eu nunca quis abrir mão de viver os dias na imensidão azul do oceano.

Desde pequeno, minhas melhores recordações são atreladas ao mar. Foi nele em que aprendi a importância do silêncio e a valorar a dadiva dos dias. Até o dia em que ele se fez algoz.

A vila de pescadores é constituída por pequenas casas brancas, feitas de madeira, artesanalmente, assim como as embarcações pesqueiras. As partes mais importante de ambas as construções são as estruturas. Tanto casas como naus são as mesmas desde as primeiras gerações, as únicas mudanças que acontecem são as de reparo, troca de uma tábua ou outra após surrada pelo tempo. E existe uma peça única, que nem meu avô soube da procedência, apenas que desde a época em que meu bisavô era marujo, já era enferrujada e estimada, a âncora; único objeto do barco e de nossa estirpe, que nunca transmutou.

Certa vez, eu e meu pai, tivemos que ancorar em mar aberto e aguardar por 6 dias o mar se acalmar. E neste tempo ocioso e angustiante, enquanto eramos sacolejados, Roma, ao me passar o cantil de bolso falou:

-Filho, nunca esqueça de entrar no mar preparado para enfrentar todas as intemperes possíveis. Aqui não temos o domínio sobre as correntezas por debaixo do soalho. Somos vacilantes aprendizes a deriva.

Desde então, apesar do temor, meus olhos vem com outra perspectiva o mar, com maior respeito e prazer de compreender suas forças.