Só.

Dores e delícias da solidão.

Eu chego em casa todos os dias com um cansaço que só eu sei. Não menosprezo o cansaço de ninguém mas o meu cansaço só eu conheço. Cada um sabe o peso nos ombros que carrega, que sabe o alívio dos pingos do chuveiro sobre o corpo, o toque macio do lençol na cama e o sono dos justos (ou a falta dele). Mas quando chego no prédio onde moro, inevitavelmente olho para a varanda do meu apartamento numa esperança meio vazia de que as luzes de casa estejam acesas, de que haja uma TV ligada e cheiro de alguém cozinhando alguma coisa no fogão. Vã esperança. Aí o cansaço parece aumentar a tal proporção que parece que sou esmagado pela gravidade.

A solidão não é um monstro trevoso e imenso, o nome disso é depressão, a solidão é meramente um referencial. Afinal de contas, quem está realmente sozinho num mundo com acesso imediato a internet, onde podemos em dois ou três toques falar com alguém por meio nossos smartphones? E lógico: quem disse que a solidão não pode ser proveitosa? Poder ficar em paz na sua casa onde antes havia o barulho que não te deixava se concentrar nas suas atividades, poder também ter a privacidade de andar com pouca ou nenhuma roupa, deixar o vento correr mais, abrir as portas e janelas e saborear aquele filme ou temporada inteira de uma série sozinho sem nenhum tipo de interrupção de alguém chamando pelo seu nome da maneira mais irritante possível.

O problema da solidão é a falta.

Porque por mais que você pense ter toda felicidade do mundo estando sozinho e aproveitando todo aquele espaço para você, inevitavelmente bate a vontade de estar com alguém ali dividindo toda essa alegria que você imaginava ter só. É onde bate o sentimento de que a felicidade pode até existir sozinha, mas ela é muito melhor quando compartilhada com alguém. E eu não falo somente de um relacionamento amoroso, pode ser um amigo, seus irmãos, sua mãe, pai, tios, avós, qualquer um que você possa em um determinado momento falar daquela coisa interessante que aconteceu no seu dia ou mesmo falar de uma ou outra frustração. Você pode até ir para o seu celular e digitar tudo que quer de maneira efusiva ou furiosa mas nada se compara a ter alguém ali para rir ou chorar com você.

Mas você se acostuma, aprende a valorizar seu tempo sozinho. Acaba percebendo que consegue se virar, que não precisa de sua mãe quando tiver aquela febre, tosse e espirro (apesar de que ela faz uma falta nessas horas), que sabe fazer um macarrão com salsicha quando você estiver com a fome de dezessete crianças (mesmo que você morra de medo de colocar fogo na casa toda), aprende a varrer a casa e passar um pano (mesmo que seja de uma maneira quase rudimentar), não deixa a louça acumular tanto e coloca a música que quiser no sábado de manhã quando tiver tomando aquele café que você pode até não ser mestre em fazer mas você gosta, porque é seu.

Pouco a pouco você vai recebendo as visitas, as pessoas que você gosta de compartilhar suas alegrias e frustrações ali, seja a família te visitando num aniversário, sejam seus amigos para tomar uma cerveja ou uma taça de vinho numa sexta que você não queira sair de casa… Ou mesmo aquela pessoa que você tanto gosta e está ali pela primeira vez. Você vai percebendo que sua casa vai se tornando mais que seu porto seguro onde tudo que você gosta está ali, ela vai se tornando também familiar as pessoas que você ama e quer perto, aonde elas podem ir e voltar quando quiserem, você vai se sentindo seguro, amado, querido e confortado. Sua casa é a casa de cada um que você ama.

É um processo que pode ser lento, depende de cada um. Entender que a solidão não é esse monstro e que traz uma ou outra vantagem precisa de uma boa dose de maturidade e desprendimento. O que importa não é dar valor a solidão, é entender que ela pode aparecer e procurar os que não te deixam só.

Ser feliz é uma questão de dividir a felicidade.

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