Agosto Memorável: Carol Castro, 2008 — Parte 1

Os dez anos de um dos melhores ensaios da Playboy brasileira, com inspiração na obra de Jorge Amado

Por Bob Wolfenson.

Aqui, nessa foto… só o filtro do tempo mesmo. Esse que voa como o vento e marca a pele como tinta no papel… São os traços de vida que se fortalecem e ficam marcados na nossa ‘tela’ de carne… Como uma obra de arte”. Ela escreveu essas palavras em seu perfil no Instagram, em uma postagem de 16 de março de 2016. Àquela altura, Carol Castro estrelava a novela das nove Velho Chico, e eu começava a acompanhá-la na rede social (às vezes, também na televisão), atraído pelo lado poetiza da atriz. Por coincidência, eu tinha visto uma foto de seu ensaio na Playboy no perfil de um colecionador da revista em fevereiro. A imagem me chamara tanto a atenção que, aproveitando o sucesso de Carol na novela, decidi desenhá-la. Meses depois, essa seria a primeira Playboy que eu compraria com o meu próprio dinheiro.

O belíssimo ensaio de Carol Castro para a “Revista do Homem” completou dez anos em 2018. As fotos foram tiradas por Bob Wolfenson em meados de julho de 2008, em Salvador. A festa de lançamento aconteceu no dia 5 de agosto, mas a revista só entrou em circulação a partir do dia 12. Por muitos anos, só conheci essa Playboy de ouvir falar. Sabia que Carol já havia posado nua, mas não me lembrava quando. Até que chegou fevereiro de 2016 — curiosamente, logo após a publicação ter sido encerrada pela Abril — e acabei encontrando a foto que jamais me largaria desde então. Ela é simples: Carol, nua e sentada, olha para a câmera, e só. Mas aquele olhar da atriz, meio sedutor, meio intimidador, me pegou em cheio. Já interessado pelos clássicos da Playboy, esse acabou sendo, com o perdão do trocadilho, a menina dos meus olhos.

Como sempre gostei de desenhar, logo percebi que aquela foto de Carol era ideal para um retrato. Com o gancho da participação da atriz em Velho Chico, resolvi fazer um desenho daquela foto de sua Playboy. Modéstia à parte, o resultado foi bom, mas não fiquei satisfeito. Depois de olhar as fotos do ensaio na internet, principalmente a que retratei, tive uma grande vontade de ter essa revista nas minhas mãos, física, impressa, como — e com o perdão de mais um trocadilho — ela veio ao mundo em 2008. Então, em outubro de 2016, fui a um sebo de São Paulo, onde encontrei e comprei a Playboy da Carol Castro. A sensação de pegar a revista, sentir a textura da capa e ver cada página do recheio foi sensacional. Era como se fosse a primeira vez que visse todas aquelas fotos, sem me lembrar de tê-las visto na internet.

Por Iwi Onodera — via Ego.

O cenário da época

Há dez anos, a Playboy vivia o auge das ex-BBBs. Desde a primeira temporada do reality show, em 2002, muitas de suas participantes sairiam da “casa mais vigiada do Brasil” para estampar a capa e o recheio da “Revista do Homem”. Mas quem roubou a cena em 2008 foi uma dançarina de funk, Andressa Soares, até hoje conhecida como Mulher Melancia. Ela era parceira de palco do MC Créu, autor do hit que levava seu nome e fazia um enorme sucesso na época. Não só a música chamava a atenção, mas a performance de Andressa nos shows do MC enlouquecia o público e, claro, acabou abrindo os olhos da maior revista masculina do país. A dançarina posou duas vezes para a revista: em uma edição especial e em outra, regular, no mês de junho, que seria a mais vendida da Playboy naquele ano. Em julho, foi a vez de Natália Cassassola, participante do BBB 8, estrelar o ensaio principal, e a sua edição seria a segunda mais vendida de 2008.

Foi só no começo de julho que a Playboy definiu quem seria a protagonista da edição de aniversário, a mais especial do ano, em agosto. A escolhida foi uma das belas e talentosas atrizes da Globo: Carol Castro. Nascida no Rio de Janeiro em 10 de março de 1984, ela se tornou atriz por influência do pai, o ator Luca de Castro. Acompanhando Luca na TV e no teatro quando criança, ela começou a participar de peças junto com o pai, se encantando pelo mundo da atuação. Aos 19 anos, a atriz fez a sua primeira novela, já no horário nobre: Mulheres Apaixonadas (2003), de Manoel Carlos, interpretando a jovem e sedutora Gracinha. Depois, Carol participaria de Senhora do Destino (2004), Bang Bang (2005) e O Profeta (2006). Na última, a atriz fez a sua personagem mais importante até então, a vilã Ruth.

Em fevereiro de 2008, Carol Castro começou a atuar na peça Dona Flor e Seus Dois Maridos, junto com Marcelo Faria e Duda Mendonça, interpretando a protagonista. Era a primeira vez que o clássico de Jorge Amado, adaptado pelo diretor Bruno Barreto para os cinemas em 1976, chegava aos teatros. No mesmo ano, Carol esteve na novela das 19h Beleza Pura. Ao longo desses anos, a atriz fez alguns ensaios sensuais. Em julho de 2003, ela foi capa da revista VIP, a qual ela estamparia outra vez em 2014. No mês seguinte, na Playboy estrelada por Regiane Alves, Carol faria a sua primeira aparição na revista, mas sem um ensaio. A atriz apareceu na seção Coisas de Homem, dando opiniões sobre as roupas que os homens usavam na rua. Em 2001, ainda antes de entrar na televisão, Carol fez o primeiro de dois ensaios para o site Paparazzo, fazendo o segundo em 2005. Ela apareceria outra vez na Playboy em janeiro de 2006, agora na seção Mulheres Que Amamos.

Via Quem Acontece.

A escolha da estrela

Por seis anos, a Playboy “paquerou” a atriz, mas ela resistia a posar nua. Apenas em 2008, aos 24 anos e mais madura, é que Carol Castro finalmente aceitou fazer um ensaio para a revista. O fotógrafo escolhido pela atriz foi ninguém menos que Bob Wolfenson, autor de vários clássicos da revista, mas ausente da publicação desde dezembro de 2005, quando fez o quinto ensaio de Luma de Oliveira. A atuação de Carol como Dona Flor nos palcos serviu de gancho para o seu ensaio. As fotos seriam inspiradas na obra de Amado, e a atriz interpretaria três personagens femininas dos livros do escritor baiano: Dona Flor, Gabriela e Tieta. “A ideia de que ela interpretasse personagens de Jorge Amado foi uma escolha acertada. Carol atualmente vive nos palcos uma Dona Flor sensual e sofrida, sensível e safada, sonhadora e sedutora”, escreveu o então diretor de redação Edson Aran, no editorial daquela edição.

O acordo foi firmado no começo de julho e as fotos foram tiradas em vários pontos do Centro Histórico de Salvador entre os dias 15 e 17. As fotos seriam aprovadas pela atriz em São Paulo no dia 18. Nos dias seguintes, Carol publicou fotos dos bastidores do ensaio em seu perfil no Bloglog, o antigo portal de blogs de artistas hospedado pela Globo. Em uma das fotos, a atriz aparece com o roupão da Playboy, fazendo uma pose “a la Egito” — referência a uma brincadeira do apresentador Marcos Mion. “Acharam que era mentira, né? Temos mais fotos: ‘a la faraó’. Essa foi tirada numa noturna no Pelourinho. O coelhinho entrega total!”, escreveu na descrição. Naquela época, Carol Castro já era ativa no que hoje chamamos de redes sociais.

No dia 29 de julho, a Playboy divulgou a primeira foto do ensaio, em preto e branco, mostrando Carol subindo em um telhado. A foto não tinha nudez explícita e era um pouco diferente da que apareceria na versão final. Sua inspiração era clara: a famosa cena da novela Gabriela (1975), imortalizada por Sônia Braga, onde a protagonista escala o telhado de uma casa para pegar uma pipa, deixando os homens na rua em choque com as curvas da morena. Dias depois, já em agosto, a revista divulgou mais algumas fotos, ainda não-explícitas: duas delas, também em P&B, clicadas nos degraus da Igreja de Santa Bárbara, e a outra, a cores, com o Elevador Lacerda ao fundo. À primeira vista, já era possível perceber que Bob Wolfenson não usara apenas as referências à obra de Jorge Amado, mas também as belas e históricas paisagens de Salvador no ensaio que estava por vir.

Por Bob Wolfenson.

Parte 2: Uma resenha sobre o ensaio.
Parte 3: Sobre uma foto do ensaio que desenhei em 2016.