Agosto Memorável: Carol Castro, 2008 — Parte 3

Para fechar a série sobre o ensaio da atriz na Playboy, precisamos falar sobre a foto que deu início a tudo

Por Bob Wolfenson — via Colecionadores Playboy (Instagram).

No primeiro texto, falei sobre o momento da revista em 2008, as capas de maior sucesso do ano e a escolha da estrela da edição de agosto. No segundo, fiz uma resenha sobre as fotos. Esse, o terceiro e último da série sobre o ensaio da Carol Castro na Playboy, que completou dez anos este mês, é sobre a foto acima, que me fez gostar tanto dessa obra. Inicialmente, eu escreveria apenas um texto abordando todos esses temas, mas percebi que ele ficaria enorme. Por isso, dividi tudo em três redações e deixei por último o mais importante: tentar explicar por que uma foto tão simples me marcou profundamente.

Como mencionei no primeiro texto da série e em outro, sobre a revista, vi essa foto pela primeira vez em fevereiro de 2016, na página Colecionadores Playboy, no Instagram. Seu dono, Rômulo Santos, tem um acervo imenso com edições regulares e especiais da Playboy brasileira (e algumas do exterior) desde os anos 70. Conheci essa página, curiosamente, por causa de outra revista: a Trip, especificamente a de dezembro de 2015, com Letícia Lima na capa, cujas fotos eu desenhara em janeiro. Num dia desses, vendo fotos em que Letícia estava marcada no Instagram, encontrei uma postagem da Colecionadores Playboy com um exemplar daquela edição da Trip.

Àquela altura, eu estava cada vez mais interessado na história da Playboy, apesar de ela ter entrado em decadência até ser encerrada pela Abril em 2015. Meu olhar sobre a revista mudava, focando mais no conceito das fotos e na interpretação das modelos. Caindo sem querer na página de um colecionador no Instagram, resolvi dar uma olhada nas postagens e acabei conhecendo mais os clássicos da publicação.

Até que, numa dessas olhadas, encontrei aquela foto da Carol Castro. Confesso que não reconheci a atriz à primeira vista. Na verdade, pensei que aquela mulher fosse a Juliana Paes. Na década passada, eu (e muita gente) achava as duas atrizes bem parecidas uma com a outra — e Carol odiava essa comparação, como ela mesma afirmou em entrevista ao Pânico no rádio há dez anos. Cliquei na foto imediatamente e, vendo a descrição, soube que era do ensaio que Carol fez em agosto de 2008.

Como o Instagram só permite imagens de nudez até certo ponto (pode mostrar o bumbum, mas não seios e tampouco genitais), as postagens da Colecionadores Playboy mostram só uma parte das fotos. Por isso, há vários posts que exibem apenas o rosto das mulheres. O dono da página tem atualizado muito pouco nos últimos anos, e quem visitá-la agora pode chegar com facilidade aonde está essa foto da Carol Castro. De todos os rostos que vemos nas fotos em volta, nenhum é tão sério e sombrio quanto o da atriz.

Via Colecionadores Playboy (Instagram).

“Se eu tivesse de desenhar uma foto dessa mulher, seria essa” — costumo ter esse pensamento quando me impressiono com alguma imagem feminina. Com a foto da Carol Castro, não foi diferente. E as coisas foram acontecendo: as postagens da atriz começaram a aparecer na aba de busca do meu Instagram; comecei a segui-la por causa dos poemas que ela escrevia nos posts (sério, não foi por causa da Playboy); a atriz protagonizou a novela das 21h da época, Velho Chico, fiquei fã dela e então resolvi desenhar aquela foto. Mas eu queria porque queria ver aquela foto no papel, o que me motivou a comprar a revista em um sebo em outubro de 2016.

O poder dos olhos

Não era a primeira vez que me impressionava com o olhar feminino. Sempre tive um fascínio pelos olhos das mulheres, mais até que pelo sorriso delas. Principalmente quando se trata de fotos. Já fiquei desnorteado por fotografias de mulheres por causa do seu olhar. Na minha imaginação, ele sempre quer dizer ou demonstrar alguma coisa: alegria, tristeza, rejeição, flerte, indiferença, etc. Mas, se isso sempre foi tão comum para mim, o que essa foto da Carol Castro tem de tão especial?

Para começar, podemos falar da composição da fotografia. Ela é bem simples: Carol está nua, sentada sobre uma cama ao lado de uma janela. A foto foi tirada em plano médio, pegando a atriz da cabeça até a barriga. Sua cabeça está um pouco baixa, com uma maquiagem bem escura nos olhos e um batom claro na boca. Seu cabelo, levemente ruivo, cai sobre o lado direito do corpo. Seus braços estão bem esticados e fechados, e seus seios quase não aparecem. A parede ao fundo é laranja claro, quase no mesmo tom da pele da atriz.

À primeira vista, só os olhos de Carol já me prendem. É muito difícil saber qual sentimento a atriz está expressando. De um lado, ela pode estar nos seduzindo. De outro, ela pode estar nos intimidando. Ela pode ser tímida ou maquiavélica, pode estar triste ou simplesmente não sentir nada. É um mistério. Sua expressão vai do mais puro e simples “não me toques” ao mais alto e feroz “tá olhando o que, filho da p…?!”. Mas a frase que mais combina com essa foto é “decifra-me ou te devoro”; ou melhor: “não tente me decifrar, pois já estou te devorando”.

Seja como for, esse olhar da Carol Castro me pegou mais do que qualquer olhar feminino que já vi. E parece que não foi só comigo. No editorial dessa edição da Playboy, Edson Aran, então diretor de redação da revista, escreveu sobre a atriz: “A linda morena conquistou todos nós com suas curvas e seus penetrantes e fugidios ‘Bette Davis’ eyes’”. No encarte do DVD Melhores Making Ofs Volume 7, que inclui esse ensaio, a atriz é descrita dessa maneira:

O fato é que Carol Castro sintetiza em seus 1,66m, com curvas pra lá de arretadas, o ideal feminino de beleza brasileira (…). E o olhar, ah, o olhar… É enigmático, que pede para ser decifrado. E, como a gente sabe, nunca conseguimos.

Anos depois, em dezembro de 2014, Carol seria capa da revista VIP, sendo também entrevistada pelo jornalista Leandro Beguoci. Em seu texto no meio do ensaio da atriz, Beguoci escreveu que a atriz tem “olhos absolutamente faiscantes”. Essas citações mostram que, de fato, os olhos são um dos maiores atrativos de Carol Castro. E ela mesma parece reconhecer isso: em seu Instagram, há várias fotos com closes de seus olhos.

Via Instagram da atriz.

No recheio da revista, a foto que desenhei aparece na página 177, logo após o poster. Duas páginas depois, vemos a imagem mais simples do ensaio: a do close do dedo na boca. Então, chegamos à foto icônica da atriz escalando o telhado. Entre essas e outras fotos, a da página 177 é a que mais destaca o rosto de Carol. Nela, mais do que em qualquer outra, podemos olhar mais diretamente em seus olhos do que em seu corpo.

Essa foto e o ensaio

À medida em que fui olhando as outras fotos da revista, principalmente depois que a comprei e pude vê-las na ordem certa, minha curiosidade por essa foto aumentava ainda mais. Isoladamente, ela já é misteriosa. Dentro do contexto do ensaio, ela se torna enigmática.

No texto passado, escrevi que as fotos da Carol Castro na Playboy podem ser divididas em três partes, cada uma dando ênfase a uma personagem de Jorge Amado — cuja obra é o tema do ensaio: a primeira, com Dona Flor; a segunda, com Tieta; e a última, com Gabriela. Porém, disse que há momentos em que Carol aparentemente não interpreta ninguém, sendo apenas ela mesma. É aí que entra o mistério da foto que desenhei, que costumo encaixar no grupo das fotos sem personagem.

Se observarmos as fotos tiradas naquele mesmo lugar, veremos como a atriz se solta. Por exemplo, nas duas que aparecem no poster, mostrando Carol deitada em poses sensuais, e naquela em que a atriz agarra a janela. Além disso, ela não veste nenhuma peça, enquanto que, nas outras fotos, ela sempre usa alguma coisa (uma flor na cabeça, um salto, um corpete etc) que indica a personagem que a atriz interpreta. Isso favorece a minha teoria de que, nas fotos da janela, Carol Castro é apenas a Carol Castro.

Por Bob Wolfenson.

A foto que desenhei é muito diferente das que foram feitas na janela, e é um ponto fora da curva no ensaio. Carol está introspectiva, fechada e até isolada em seu canto. Não há sensualidade aparente e quase não há nudez explícita (apenas o seio esquerdo da atriz aparece, e de forma discreta). Tecnicamente, a foto mais simples do ensaio é a do close do dedo na boca, mas, em termos de erotismo, ela tem um peso bem maior que a da página 177. Esta, por sua vez, resume-se apenas à Carol Castro encarando o leitor.

Um outro detalhe importante do ensaio é que são poucas as fotos em que Carol olha para a câmera. E, nessas imagens, ela quase sempre está distante. Há apenas duas fotos em que a atriz olha para a câmera, de perto e com o rosto bem visível: a da página 177 e outra, em preto e branco, em que ela está de costas, olhando para trás. Além disso, há a diferença de perspectiva: a foto que desenhei é a única em que vemos a atriz bem de perto; no resto do ensaio, ela está mais longe da câmera.

As cores também deixam a foto mais sombria. O cabelo da atriz, tingido de ruivo mas quase voltando à cor natural, bloqueia a luz que vem da janela. A sombra das madeixas e do pescoço circundam o rosto da atriz. Sem um batom escuro na boca, os olhos ganham mais destaque na face, enquanto o corpo da atriz se aproxima do tom da parede ao fundo. As madeixas e o rosto de Carol escurecem grande parte da imagem, e a forma como os fios estão jogados para o lado deixam a atriz mais sensual.

Na mira da atriz

Então, me pergunto: o que essa foto significa? O que Carol estava pensando e o que ela queria nos passar? O que Bob Wolfenson quis mostrar com essa foto? E por que diabos ela apareceu na versão final da revista, bem naquela página, logo depois do poster e antes da foto do telhado? São questões como essas que tenho feito há tanto tempo e que jamais consegui responder.

Nas minhas reflexões, essa foto pode dizer várias coisas, quase sempre contraditórias. Talvez nem o sorriso de Mosa Lisa tenha me confundido tanto quanto o olhar da Carol Castro. Qualquer opinião a respeito do que seus olhos querem dizer é arriscada. O semblante da atriz é de sedução e repulsa, de quem quer nos atrair e, ao mesmo tempo, nos afastar. Mas uma coisa me parece certa: ela está nos desafiando.

Vamos pensar nesse ensaio como uma história entre o leitor e a Carol Castro: ele vai a Salvador de barco e, ao chegar na Baía de Todos-os-Santos, encontra a atriz nua sobre outra embarcação, dando-lhe boas-vindas. Nas páginas seguintes, o leitor a observa como um voyeur. Ela sabe que está sendo seguida, mas parece não dar bola para isso. Até que, em um certo momento, os dois ficam de frente um para o outro. Carol se senta em seu canto e apenas encara o leitor. O que ele faria nessa situação?

Posso dizer que, nesse momento, Carol Castro prende o leitor sem tocá-lo. Basta apenas o seu olhar profundo e sinistro para que ele se torne refém da musa. Ela, então, revela-se como uma femme fatale que confunde os sentidos de seu espectador. Ele já não sabe se deve ficar ou sair, mas tem certeza de que, uma vez com aquela mulher, todo caminho que ele tomar será perigoso.

Via Colecionadores Playboy (Instagram) e The WOW Report.

Durante todo o ensaio, e como é característico da Playboy, a perspectiva do leitor que vê a atriz é de um voyeur ou de um stalker. Mas tudo muda na foto da página 177: dessa vez, é ela quem nos observa, quem nos vigia, quem nos persegue. Isso sem mexer um fio de cabelo. A atriz se senta, se fecha e deixa seus olhos fazerem todo o trabalho. Logo, seu olhar permanece conosco, como se ela fizesse conosco o que fazemos com ela ao folhearmos a revista.

Os grifos na palavra “ela” no parágrafo anterior servem para ressaltar a mudança de papeis que ocorre nessa foto. Diferente do que ocorre nas outras imagens, aqui nós observamos a atriz e somos igualmente observados por ela. Mais do que isso, nós vemos quem é aquela mulher. Pela primeira vez, nós podemos parar por um minuto e ver a sua face, fora de qualquer situação ou sugestão sexual. Porém, seu semblante é tudo o que ela tem a nos apresentar, mantendo em segredo tudo o que há por trás dele.

Uma personagem fascinante

O que vejo na Carol Castro dessa foto é uma figura aparentemente inocente, inofensiva, tímida, isolada e até recatada, mas que, no fundo, é dissimulada, ardilosa, sedutora, manipuladora e até agressiva. Um anjo com um semblante maquiavélico, uma mulher fatal. São elementos que lembram a Gracinha de Mulheres Apaixonadas (2003) e, mais ainda, a Ruth de O Profeta (2006). Em um ensaio temático de Jorge Amado na Playboy, a atuação da atriz na foto lembra a de personagens perversas que ela fez nas novelas.

O que escrevi neste texto são meras interpretações, coisas da minha cabeça, algumas das quais foram aparecendo conforme escrevia. No artigo passado, ressaltei a performance de Carol Castro em todo o ensaio, com o peso de fazer não uma, mas três personagens de um dos maiores escritores do país. E, como disse naquele texto, essa foto merecia uma análise à parte, justamente pela atuação de Carol nessa imagem, que destoa das outras fotos.

No fim das contas, a pergunta “por que essa foto, aparentemente tão simples, me marcou profundamente?” pode ter suas respostas nos parágrafos acima. Mas não garanto que elas acabarão com todas as minhas dúvidas. Muito pelo contrário: os olhos de Carol Castro continuarão lá, na página 177 de sua Playboy, sempre dispostos a me confundir e me fazer correr atrás de respostas difíceis — para não dizer impossíveis — de se encontrar. E a atriz sabe do poder que tem. Basta entrarmos em seu Instagram e vermos seus olhos por lá.

Há dois anos, minha principal referência sobre a revista era o site Inside Playboy Brasil, que trazia resenhas dos principais ensaios e, infelizmente, não existe mais. Essa página me serviu de inspiração para escrever sobre o ensaio da Carol Castro. A atriz carioca, que hoje tem 34 anos, é mãe de uma filha e está na novela das 19h O Tempo Não Para, merece ser lembrada por seu talento nos palcos, nas telas e nas palavras. Como essas, que ela escreveu no Instagram em 25 de fevereiro de 2016, em uma das fotos de seus olhos:

Janelas escancaradas para o mistério lindo da Vida…
Colecionando “agoras” guardados nas gavetas da memória.
Eternizando cada “frame” vivido…
Abastecendo o ser de sentido.
Pisca.
E então escancaram-se, novamente, as janelas…

Arquivo pessoal.

Parte 1: Como era a revista há dez anos e o histórico da atriz.
Parte 2: Uma resenha sobre o ensaio.

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