A garota no corredor

Todas as mulheres conseguem fazer a gente se sentir assim ou ela tem algum dom especial?

“Espera lá fora!”, foi a última coisa que Emanuel ouviu de seu pai, antes que a porta se fechasse e ele se visse sozinho naquele longo, frio e solitário corredor de hospital.

Emanuel tinha nove anos de idade, era o caçula de quatro irmãos e o único menino da família. Assíduo leitor das escrituras sagradas, alimentava a esperança de protagonizar uma jornada de mistério e reviravoltas. A influência do cristianismo sobre sua forma de compreender o mundo alimentava o sonho de ser alguém especial.

Se os cristãos eram os filhos mais novos de Deus, assim como o filho pródigo da parábola de Cristo no Evangelho de Lucas, e eles tinham acesso a Graça Divina através da fé; por que não ele, o caçula, o não tão bonito, popular ou inteligente, não poderia também ser o protagonista de uma bela história de superação?

Emanuel se achava parecido com José, filho de Jacó, um dos patriarcas bíblicos. Pequeno, se enxergava acima dos irmãos e dos pais. Até sonho parecido com o do herói hebreu ele já tivera: o sol, a lua e três estrelas se ajoelhavam diante de sua presença — no caso de José eram 11 estrelas, mas isso é detalhe.

Todas estas informações, é claro, nunca foram compartilhadas a ninguém. Eram segredos. Primeiro, porque o garoto não saberia organizar esses pensamentos e sentimentos em uma fala clara. Segundo, porque, conhecendo a família, ninguém prestaria atenção.

Talvez sua mãe. Talvez. Ela era sua melhor amiga, confidente e protetora. Zelava pelo menino ainda que ele estivesse errado. Protegia-o das “lições” de “como ser homem” que o pai pretendia ensiná-lo. Ela era, afinal, seu porto seguro. Por isso, entre todos, foi Emanuel que pior lidou com o estado da mãe.

Ela estava doente. Tinha câncer no estômago. Daqueles que aparecem e derrubam rapidamente a vítima, sabe? Diagnosticada em fevereiro, internada em maio, à beira da morte em junho.

“O que será de mim?”, pensava o pobre menino sentado no chão, ao lado da porta do quarto onde a mãe repousava. Lá dentro, o pai, as irmãs e a avó materna confabulavam sobre o destino da mulher. Ao garoto coube uma tentativa de preservação sob o rótulo da indiferença.

“É para o seu bem”; “você é pequeno demais”; “isso não é coisa para crianças”, eram os argumento geralmente usados pelos mais velhos para despistá-lo. Contudo, ele compreendia o que acontecia. Tudo era claro, como as manhãs de sol no outono. E como vento que sopra sobre as folhas das árvores, ele ouviu aquele prazeroso som.

“Oi”, disse uma voz jovem, quente e afetuosa. Emanuel ergueu o rosto e testemunhou uma das cenas mais belas de sua vida: uma linda garota puxava assunto com ele. Bom, para um menino de nove anos ela era uma das mulheres mais belas que ele já vira. Para você e para mim, talvez, apenas uma bonita menina.

Ela devia ter o quê? Dezesseis anos? Dezessete, no máximo. Tinha a altura normal para a idade. Usava uma blusa preta, jeans rasgados, uma bota cano médio e um gorro preto escondia parte dos cabelos que insistiam em escapar por sobre seus ombros. Porém, o que mais chamou a atenção de Emanuel não foi nenhuma peça de seu vestuário, tampouco sua pele tão alva quanto a neve ou a maquiagem carregada que ela usava. O que arrebatou o olhar do menino foi o piercing em formato de ferradura que a garota ostentava no nariz. “Os pais dela deixaram?”, se perguntou Emanuel.

“Posso me sentar aqui?”, indagou a garota. Ele quer dizer que sim, ser simpático, mostrar-se alguém interessante de acordo com o que ele acreditava que meninas do Ensino Médio achavam interessante. Porém, o máximo que conseguiu foi consentir com cabeça.

Emanuel disfarçou o sorriso quando, ao sentar no chão, seus joelhos se tocaram. Tímido, não conseguia fitá-la. Seu olhar estava fixo no vazio do piso frio. Já ela, o observava com zelo.

- Você está bem? — perguntou a garota.

Ele queria falar, contar tudo, mas como sabemos, um garoto de nove anos não tem muita facilidade para dizer o que sente. Para não deixar a menina sem resposta, limitou-se a murmurar um “a-ham” em concordância.

- Sabe de uma coisa? Eu acho que você não está bem. — sorriu ela.

“Conte para ela”, era a voz que Emanuel ouvia em sua cabeça. “Diga que sua mãe está morrendo, seu pai não o ama e suas irmãs o odeiam”, ordenava alguém em sua mente. Entretanto, obstinado, o garoto apenas transpareceu que ela poderia ter razão.

- Posso contar uma coisa? — sussurrou a garota, aproximando a boca do ouvido do menino.

Surpreso — e contente — com a atenção recebida, ele aponta que sim com a cabeça.

- Eu estava só passando e vi você encolhido aqui no chão. Pensei: alguma coisa aconteceu. Afinal, um menino tão bonito não tem o porquê estar tão triste. — sorriu a garota. Emanuel também. Principalmente pelo fato do adjetivo “bonito” ter sido usado para descrevê-lo.

- Pensado bem: ele pode ficar triste se tiver um bom motivo. Ele pode estar triste por se sentir sozinho. Ele pode ficar triste caso a pessoa que ele mais ama na vida tenha que partir. Ele pode ficar triste se coisas que ele não compreende ainda aconteçam repentinamente. — reflete a garota.

Emanuel ouve tudo com a devida atenção. Quem é essa garota? Todas as mulheres conseguem fazer a gente se sentir assim ou ela tem algum dom especial?, intriga-se o garoto. Na dúvida, ele mais uma vez opta por ficar em silêncio. A menina, com seus enormes olhos negros, o observa com carinho e torce para que ele compartilhe suas perturbações.

Ela aguarda. Os segundos parecem horas. O clima pesado obriga a garota tomar alguma atitude. Ela, então, ensaia levantar-se. Enquanto se move, sussurra algo como “é melhor eu ir nessa”, mas Emanuel não compreende com exatidão. Contudo, a reação da menina desperta algo no coração do garoto. Ele precisa colocar aquilo para fora. Inexplicavelmente, as palavras fluem, autônomas, incontroláveis:

- Eu acho que minha mãe vai morrer.

As palavras saem secas. Sem saber o porquê, ele sempre acreditou que quando conseguisse verbalizar essa ideia, lágrimas escorreriam dos seus olhos, percorreriam seu rosto e encharcariam sua camiseta, moletom ou que quer que estivesse vestindo. Mas não. Tudo que ele fez foi repetir a frase, “minha mãe vai morrer”, e resignar-se.

- Eu não sei o que vai ser de mim… De nós… — balbucia o menino. — Sabe, eu pedi pra Deus… Eu orei… A minha mãe é tão boa pra mim. Tão boa pra nós. Ela não merece morrer. Se alguém morrer, que morra eu. Eu não sirvo para nada. Eu não sou bom em nada. Mas ela não. Ela é boa. Ela é boa. Ela não merece morrer. — chora Emanuel.

A garota, com os olhos também cheios d’água, se ajoelha em frente ao menino, acaricia seu rosto e com a voz embargada, sussurra:

- Posso contar um segredo?

Emanuel apenas acena com a cabeça, enquanto tenta secar as lágrimas que insistem em escapar.

- Você não precisa ter medo da morte. — diz ela, com uma convicção que atinge o mais profundo do peito do menino. — Ela faz parte da vida tanto quanto cada beijo que sua mãe lhe deu. A morte não é um castigo. Não é algo a lamentar. E, claro, não é algo para festejar. Talvez você tenha ouvido algum adulto falar que sua mãe está sofrendo muito e seria melhor se ela partisse logo. Porém, eu lhe digo: não há nada de especial nisso. A morte não é misericórdia e não é maldição. Ela é o que é. Ela está aqui neste hospital e está em uma esquina lá no outro lado da cidade; está em outro continente, em uma região que você nunca ouviu falar; ela está no fundo do mar e está em um sistema solar tão longínquo que a humanidade não tem a mínima ideia que exista. Quando o primeiro ser vivo surgiu, ela estava aqui. Quando o último ser vivo morrer, seu trabalho terá acabado. Então, ela poderá colocar as cadeiras sobre a mesa, varrer o chão e trancar a porta do universo antes de sair. Porém, enquanto isso, ela apenas cumpre seu papel na ordem das coisas. Por isso eu lhe digo: você não precisa ter medo. — sorri a garota.

Emanuel, depois do monólogo da menina que ele achou tão linda, enfrenta o que os adultos chamam de paradoxo. Ele não quer que mãe morra, mas todos os sentimentos que borbulhavam dentro de si, de alguma forma, se acalmaram depois de ouvir as palavras da garota.

- Você vai ficar bem? — ela indaga com carinho. Emanuel diz que sim com um movimento de cabeça. — Eu preciso ir agora. Tenho que visitar a senhora que está neste quarto. — aponta a garota.

- Você veio ver a minha mãe? — sussurra Emanuel.

A menina finge surpresa com aquela informação e tenta desconversar:

- A senhora que está nesse quarto é sua mãe?

Emanuel, mais uma vez, apenas consente com a cabeça.

- Você é amiga das minhas irmãs? — pergunta o menino.

- Não. — diz a garota

- Eu vou te ver de novo um dia? — indaga Emanuel, timidamente.

A menina sorri, agacha-se mais uma vez, beija a testa do garoto e afirma:

- Sim. Nós vamos nos ver de novo. Talvez demore muito tempo, mas nós vamos nos ver de novo. — sorri a garota.

Sozinho, Emanuel sorri. Não sabe o porquê. Apenas se sente bem. Seu coração está leve. Ele não tem mais vontade chorar. E que linda era aquela menina, ele pensa na inocência dos seus nove anos.

A silenciosa paz do corredor frio do hospital é interrompida quando seu pai sai pela porta do quarto. Ele chora. Seu rosto está vermelho e ele chora. Emanuel nunca havia visto seu pai chorar. O menino se ergue com rapidez, enquanto seu pai se prostra e o abraça. Por sobre o ombro do homem, ele pode ver sua mãe deitada, com uma expressão de paz, e as três irmãs pranteando ao seu redor. Ele imagina o que aconteceu. Porém, a primeira coisa que passa por sua cabeça é: onde está aquela garota?

Ninguém lhe dará essa resposta. Ninguém precisa lhe dizer nada. Ele sabe. Ele entendeu.

A single golf clap? Or a long standing ovation?

By clapping more or less, you can signal to us which stories really stand out.