
Ela era uma daquelas meninas idealistas, sabe? Um verdadeiro orgulho para as feministas, diriam algumas mulheres que publicam fotos em redes sociais virando garrafas de vodka sobre o corpo com a legenda “bela, recatada e do lar”. Bárbara tipificava a verdadeira mulher contemporânea: aluna de Comércio Internacional, politizada, linda, inteligente, divertida, simpática, fitness sem ser fanática, enfim, uma mulher que inspira textos gigantescos na internet. Apesar disso, também sonhava em casar, constituir família, ter filhos e tudo que a tradição sugeria como ideal. Ela era um perfeito equilíbrio: sem extremismos. E mais: ela sabia com quem gostaria de realizar esses planos.
- Acho que estou apaixonada por ele. — suspirou Bárbara.
- Sério? — surpreende-se Letícia, uma amiga em comum com o homem dos sonhos de Bárbara.
- Sim! Ele é maravilhoso!
Para alguém como ela, sim, Gabriel era maravilhoso. Aos vinte e poucos anos, diferente dela, advogado formado, recém passara no exame da Ordem e se preparava para inaugurar um escritório com os colegas. Ah, e era um ferrenho defensor da causa animal. Tinha um lema: nunca cobraria se fosse para lutar por um cãozinho inocente. Além disso, era belíssimo! Cabelos castanhos, barba de três dias milimetricamente aparada, um sorriso de quem usou aparelho durante toda a adolescência e um corpo definido por uma dieta vegana e provas de 10 km na orla do Guaíba, em Porto Alegre.
- Ele faz eu me sentir como não me sentia há muito tempo! É algo mais intenso do que com meu namorado da escola. — dizia Bárbara.
- Tem certeza disso? — insistiu a amiga Letícia, aparentando preocupação.
- Sim! Mas por que esse tom?
- Que tom?
- Esse, ora. Não se faça de tola.
- Ah, Babi, não sei. Ele pode ser um cara legal, mas tenho a impressão que ele não é confiável. — lamentou Letícia.
- Por quê? O que faz você achar isso? — preocupa-se Bárbara.
- Ele é muito malandro! Já pegou a PUC inteira.
- Não é verdade. Já falamos sobre isso. Ele só tem esse jeito. Na verdade, ele é o cara mais romântico que eu conheço.
- Ainda assim: você, por acaso, sabe com quem ele ficou?
- Não. Não falamos sobre isso. Ele disse que eu não precisava contar nada do que já fiz se eu não quisesse. Disse que somos o que vivemos e que respeita minhas memórias. Inclusive meus antigos relacionamentos porque, em parte, são graças a eles que me tornei a mulher que sou hoje. — justifica Bárbara, apaixonada.
- Coisa querida! — sorri Letícia.
- Eu sei! — ri Bárbara, sem esconder a vaidade.
- Mas você sabe que ele ficou com a Martina, né?
- Com a Martina?
- É.
- Não sabia. — balbucia Bárbara com certa dificuldade.
- Pois é: até se apaixonou. Chegou a escrever sobre ela. — conta Letícia.
- Não. Não sabia.
- Então: é bom ir devagar. Um cara que diz se apaixonar toda hora não pode ser tão sério assim.
Bárbara engoliu seco a informação e não tirou aquilo da cabeça durante todo o dia. O Biel com a Martina? Com a Martina?! Não fazia o jeito dele. Ela era magrela, branca como papel, vivia filosofando sobre como o mundo é trágico e ainda jogava para os dois lados. Nada contra, pensava Bárbara, mas por algum motivo isso a incomodava. O que ele viu nela? Aquilo não fazia sentido.

À noite, os dois se encontraram para jantar. Depois, provavelmente, ela iria para a casa dele — Gabriel ainda morava com os pais, mas isso não era um problema; os sogros davam toda a privacidade ao jovem casal. Porém, talvez as coisas não acontecessem dessa forma. Ainda mais depois que a pergunta que angustiava Bárbara escapuliu sem ela poder fazer nada:
- Você já ficou com a Martina?
- Oi? — disse Gabriel, fingindo que não entendera a fim de ganhar tempo para pensar numa resposta.
- A Martina. Aquela aluna de jornalismo. A esquisita. Já ficou com ela?
- Babi, — diz Gabriel, tentando seduzi-la — o que isso tem a ver? Por que essa pergunta agora?
- Não importa. Eu só quero saber. Você ficou com ela?
- Isso não tem importância. — dá de ombros Gabriel.
- Para mim tem! Responde. Ficou com ela: sim ou não?
- Fiquei, mas faz tempo isso. Qual o problema?
Bárbara silencia. Não desvia o olhar de Gabriel, mas parece distante. A impressão é que viaja dentro de sua própria mente. Sem demorar ela volta. Pede desculpas, diz que ficou surpresa em saber disso, achou estranho, mas ele tinha razão: era algo do passado. Não tinha importância. Gabriel ficou curioso e quis saber quem havia lhe contado. Bárbara cogitou a possibilidade de lhe dizer, mas pensou em Letícia e preferiu desconversar. Ali ela viu que ele estava apaixonado: aceitou a decisão da namorada tranquilamente. Tudo para evitar que ela se sentisse desconfortável.
Não funcionou. A cena dele com Martina nos braços não saía de sua cabeça. Era uma fotografia perturbadora. Ela queria deixar para lá, mas não conseguia. Não aproveitou o jantar. Tentou disfarçar. Insistiu no personagem de mulher bem resolvida. Entretanto, foi mais forte que ela:
- Vocês transaram?
- Ah, Babi! Por que isso agora?
- Eu preciso saber!
- Não vejo motivos para isso. Para que mexer nessas coisas?
- Eu preciso saber! Preciso! Então: vocês transaram?
- Sim. — balbucia Gabriel, como se confessasse um grave pecado.
- Quantas vezes?
- O que importa?
- Vai! Me diz! Quantas vezes?
- Algumas.
- Mais de cinco?
- Três vezes, ok? Dormimos juntos três vezes. — explica Gabriel didaticamente, tentando evitar o verbo “transar”.
Bárbara fica aflita por instante, mas logo percebe que não adianta ficar incomodada com aquilo. É passado, como Gabriel disse. Entretanto, essa decisão tão lógica e madura, perfeitamente realizável em teoria, logo esfarela e, como um soco no estômago, uma violenta repulsa pelo namorado toma conta de si. Ela tem ânsia de vômito, fica tonta, a pressão baixa e uma cena, agora nítida e viva, sequestra seu pensamento: Gabriel, com seu belo e adorável corpo nu, tomando a frágil e pálida Martina nos braços, deslizando a mão pelos ossos à mostra e beijando-lhe a pequena boca.
Bárbara estava em choque. Quando voltou a si deparou-se com um Gabriel assustado e preocupado. E sentiu ainda mais nojo. Não podia ficar ali. “Não posso”, sussurrava. “Não pode o quê?”, angustiava-se Gabriel. “Não posso mais”, dizia Bárbara, “não posso mais continuar com você”. Ela foge, deixa o namorado sozinho e desaparece.
Dias depois, muitas ligações não atendidas e mensagens não respondidas levam Gabriel quase à loucura. Estava desesperadamente apaixonado por sua doce e linda Bárbara. E acreditava que ela também estava. O que houve? O que pode ter feito tudo mudar tão rápido? O fato dela descobrir sobre um antigo caso? E daí? Foi um caso. Apenas isso. Era passado. Ele queria Bárbara e apenas Bárbara. Ela era tudo. Amava-a. Sim. Gabriel a amava. Temeu quando concluiu isso. Essa dor, essa angústia só podiam significar isso: ele a amava.
Bárbara estava decidida: não veria Gabriel nunca mais. Todo o sentimento que acreditava ter por ele se transformou em aversão. Não podia ouvir seu nome sem ter náuseas. Foi o que sentiu quando Letícia ligou para ela e lhe perguntou se sabia da última sobre Gabriel.
- Não! E nem quero saber! — afirmava categoricamente Bárbara.
- É importante! Muito importante! Você precisa saber. — argumentava Letícia.
- Não quero!
- Preciso lhe dizer!
- Eu não quero!
- Bárbara, me escuta: o Gabriel morreu.
- Morreu? — balbuciou o amor da vida do morto.
- Ele se matou, Bárbara. Ele se envenenou.
- Mas… Mas por quê? Por que ele faria uma coisa dessas?
Letícia deu detalhes da logística do velório e insistiu para que ela fosse. Logo seus pais descobriram e fizeram questão de ressaltar seu dever de marcar presença. Bárbara se angustiou, chorou e quando começava a se entorpecer com a culpa lembrou-se de Martina. Logo, a jornalista roubava todo seu pensamento. A visão da garota nos braços do agora cadáver aterrorizava Bárbara. Pensou no velório, imaginou seu lindo Gabriel, bem vestido, perfeitamente alinhado num caixão, os familiares e amigos em silêncio derramando lágrimas de reverência, mas a imagem logo foi profanada pelo surgimento de Martina na cena. Ela usava um vestido preto, com rendas e babados, e um chapéu que cobria quase todo seu rosto. Ela parou ao lado do caixão e chorou. De todos que ali estavam, era a que mais demonstrava dor. Bárbara quase vomita quando a epifania chega a esse ponto. Ela, então, decide: não irá, de jeito nenhum, ao velório de Gabriel. Não se aproximará de um corpo, por mais que esteja sem vida, que um dia já se deitou com Martina.