Eu nunca deixei de acreditar em Pedro Rocha

Pedro abraçou o Grêmio, seus valores, sua tradição e, por fim, se tornou um de nós.

Existe uma expressão presente no inconsciente do torcedor gremista que uma hora ou outra emerge e se manifesta.

- Eu disse que acreditassem! Eu pedi que acreditassem! Eu nunca deixei de acreditar!

Essas palavras foram originalmente proferidas na noite fria de 28 de julho de 1983, na cabine da Rádio Gaúcha no imortal Estádio Olímpico, por ninguém menos que Armindo Antônio Ranzolin — um dos maiores narradores que o Rio Grande do Sul já viu. Estas afirmações seguiram o gol de César, o de desempate contra o uruguaio Peñarol e que sagrou o Grêmio campeão da maior competição do mundo: a Libertadores da América.

O tempo passou, mas essas afirmações seguem embalando o coração gremista. Quando disseram que o clube, em frangalhos depois das administrações desastrosas de Guerreiro e Obino. não voltaria da Série B, elas foram repetidas: Eu disse que acreditassem! Quando o time, depois de 15 anos de seca, chegou à final da Copa do Brasil e os rivais zombavam da possibilidade da conquista do título, este mantra voltou com força: Eu pedi que acreditassem!

Agora, quando aquele garoto da base ganhou espaço no time de Roger Machado, em 2015, e apresentou qualidades e potencial destacável, ainda que com algumas limitações, quase ninguém ousou bradar as palavras de Ranzolin em sua defesa. Foram poucos — quase ninguém — que conseguiam ver a inteligência, a força, a velocidade e versatilidade daquele atacante posicionado como extrema pela esquerda.

Sei que dar testemunho de si mesmo não vale para nada — já nos ensinou Cristo nos evangelhos. Porém, não consigo resistir a tentação de expressar o que sempre foi minha verdade:

- Eu nunca deixei de acreditar em Pedro Rocha!

Pedro Rocha sairá do Grêmio. Foi vendido ao Spartak, da fria Rússia — como aquela noite de 1983 -, pelo valor de 12 milhões de euros — cerca de R$ 45 milhões. O Grêmio receberá o valor integral, já que possui 100% do passe do atleta. É o que o clube precisava para colocar as contas na balança.

Entretanto, essas minúcias financeiras que pouco importam para a paixão do torcedor — mas que são fundamentais para a instituição, é verdade — não são o centro do que gostaria de dizer. O mais relevante aqui é apontar o fato que Pedro Rocha se tornou uma jóia para o Grêmio e sua torcida.

Dos seus pés vieram dois gols que foram fundamentais na decisão da Copa do Brasil de 2016. Aqueles gols — belíssimos gols, diga-se de passagem — no grande time do Atlético-MG foram uma alforria para o angustiado torcedor gremista. As semanas de apreensão entre a semifinal e o primeiro jogo da decisão fizeram com que todos sofressem. Aliado aos anos de jejum de conquistas, aqueles dias pareceram décadas.

Até aquele drible desconcertante.

Até aquela disparada avassaladora.

Até aquelas lágrimas no corredor do vestiário do Mineirão.

Pedro se tornou um símbolo. Pedro era mais do que um garoto apaixonado por futebol que fazia gols decisivos em uma Final de competição nacional. Não. Pedro era eu. Pedro era os milhões de gremistas que, enfim, poderiam voltar a bradar: É CAMPEÃO!

Esta, talvez, seja uma das coisas mais notáveis neste garoto. Ele não é gaúcho. Ele não nasceu no Grêmio. Veio para o clube já formado, do Juventus de São Paulo. Porém, ao contrário de outros guris que, visivelmente, usaram a instituição como trampolim para suas carreiras, Pedro abraçou o clube, seus valores, sua tradição. Por fim, se tornou um de nós.

Isso sempre fora visível em cada arrancada, em cada drible, em cada retorno para marcar como um cão que persegue sua caça. Vê-lo, sempre aberto na ponta esquerda, se tornou um prazer. Sempre fora, na verdade. Lembro de incontáveis vezes discutir com outros torcedores que insistiam em pegar no seu pé. Tentava explicar: “olha o que ele está fazendo! O guri é rápido, forte e inteligente! É um jogador europeu!”

As vacas magras, é verdade, impediam que a torcida conseguisse olhar com atenção e frieza o que surgia diante de seus olhos. O “aahh” a cada erro de Pedro — não apenas os dele, mas de qualquer menino da base; enquanto qualquer jogador castelhano, por mais limitado que fosse, desfrutava de muita paciência e credibilidade (sim!, é sobre Maxi Rodriguez que estou falando) — sufocavam uma perspectiva mais ampla. Porém, tudo terminou naquela noite de novembro.

Aqueles dois gols nos trouxeram de volta. Como diz o áudio que circulou nas redes sociais recentemente, passamos a voltar a crer que vamos conquistar o mundo e acabar com o planeta. E tudo começou naqueles dois gols.

Pedro vai, deixa uma história linda no Grêmio e alguns milhões para a manutenção da estrutura do clube. O que eu posso dizer? Obrigado por tudo, Pedro Rocha. Eu nunca deixei de acreditar em você!

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