A Fantasia como cura

Já tem algum tempo que escrevi sobre a fantástica literatura nacional e como tive contato com os autores brasileiros. Se você espera um texto sobre Jorge Amado, Machado de Assis, ou qualquer outro dos autores “consagrados”, pode parar por aqui. Nunca gostei desses livros e sempre achei a narrativa deles muito chata, simplesmente porque eu não tinha a capacidade de me conectar com as histórias e linguagens.

Contudo, mais do que apenas abordar a questão da leitura, o objetivo aqui é contar uma história, que começa por volta dos meus oito anos de idade. A minha infância nunca foi fácil, por motivos que não pretendo abordar por aqui, e quando eu era pequeno tinha uma visão um pouco triste da vida. Todas as minhas lembranças estão relacionadas a estar chorando por alguma razão ou simplesmente triste e inconformado. Até que, um dia, isso aconteceu:

É difícil explicar para quem não viveu a infância nos anos 80 o significado que esse filme, e vários outros da época, teve em nossas vidas. Logo no trailer, uma cena me atingiu diretamente no coração: um menino, mais ou menos da minha idade, sendo perseguido pelos valentões da escola e enfrentando muitos problemas em casa. Para ter uma ideia da dimensão da situação, todos esses “gloriosos cidadãos” estudavam na minha escola. E o Marco Antônio não foi o único a sofrer com eles.

A identificação foi automática: cheguei em casa, peguei o livro da História Sem Fim, me enrolei debaixo das cobertas, liguei uma lanterna, e fui automaticamente transportado para um mundo fantástico. Saí pela janela do meu quarto montado em um dragão branco para as aventuras do menino Atreyu, com a missão de derrotar o nada.

O curioso foi perceber que o nada, inimigo impronunciável e invisível na história, tinha um paralelo direto com a minha vida. Transformei toda aquela tristeza que me perseguia num inimigo invisível, que poderia sim ser derrotado com a ajuda dos amigos. Sim, eu também tive muitos amigos nessa época, que são os mesmos até hoje, me apoiando nesse duelo épico contra o nada. Mesmo que eles não soubessem disso.

A fantasia se tornou a cura, pois utilizando elementos fantásticos eu fui capaz de enfrentar problemas que eram grandes demais para uma criança da minha idade entender. A violência pode ser difícil de lidar, principalmente quando se é criança, mas utilizar metáforas ajuda bastante a minimizar e atacar de frente os problemas. Todos eles podem ser combatidos com a magia certa, o artefato certo e o melhor conjunto de aliados. Derrotar o último chefe de Final Fantasy II no Super Nintendo, após duas semanas de tentativas, também me ensinou isso.

Nesse ponto, pausa para a leitura obrigatória de uma matéria sobre um dos meus escritores favoritos, na verdade casal de escritores, Carolina Munhóz e Rafael Draccon:

Draccon ainda se aprofunda na questão lembrando de fãs que comumente procuram Carolina para dizer que, de alguma forma, ela ajudou a mudar a vida deles. Recordam de uma mãe que disse à escritora que, graças a um de seus livros, conseguiu entender a homossexualidade da filha.

A fantasia de fato ajuda a curar, e mesmo estando crescido, casado, com os fantasmas da infância exorcizados, a trilogia Dragões de Éter me ensinou a importância da determinação e da coragem. Não é só a história, de um realismo marcante para uma história fantástica, que foi capaz de mais uma vez me atingir o coração. Em um dos livros (sem muitos spoilers), existe um trecho em que um navio voador movido a éter pousa na frente de um castelo. Um dos meus jogos preferidos de todos os tempos é Final Fantasy II de Super Nintendo, e um dos momentos marcantes do jogo é quando encontramos o personavem Cid em um navio voador. Foi a primeira vez que uma histórica fantástica trouxe um elemento que conversava diretamente com a minha realidade.

João, personagem principal do livro, era um menino pobre que desde cedo foi obrigado a enfrentar de frente as dificuldades da vida adulta, e em vários momentos temos certeza absoluta que ele não vai conseguir. Mais uma vez, com uma grande dose de magia, autoconfiança e a ajuda dos amigos, ele consegue vencer os desafios.

Os autores, mesmo que inconscientemente, foram responsáveis por salvar a minha vida mais de uma vez (e continuam fazendo-o) com suas histórias. Mais do que apenas divertir, terão minha eterna gratidão por fazerem do produto de seus trabalhos a mais poderosa ferramenta de cura que já conheci. À eles (e outros) o meu eterno Muito Obrigado.

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