Meu sonho de um Brasil melhor

Sábado de manhã. Converso com os colegas acertando os preparativos para o protesto. Checagem de itens obrigatórios realizada: bandeira do Brasil, camisa da seleção (eu não tinha, mas peguei emprestada), tinta verde e amarela. Tudo o que era necessário para sair às ruas e derrubar os corruptos do poder.

Nossa estratégia é muito simples: IMPEACHMENT! Saída imediata de todos os ladrões. Tenho certeza de que a presidência era só o começo. Não resta a menor dúvida de que, com o cargo vago, o espaço para as reformas que o país tanto necessita vão acontecer naturalmente. Algumas delas já elaboramos há tempos dentro dos diretórios estudantis e já são tão conhecidas que já se tornaram chavão: reforma da previdência, reforma tributária, mais dinheiro para a educação. Basta apenas fazermos nossa parte e tudo vai dar certo.

Quando chegou o dia, mal pude acreditar no que vi: uma multidão de gente nas ruas. Estávamos acostumados, meus amigos e eu, a sermos os chatos da manifestação, sempre convidando todos a ir para as ruas protestar contra tudo o que está aí. Ao ligar a TV e ver milhares, milhões de pessoas nas ruas em todo o país, confesso que derramei uma lágrima. Dessa vez não estaríamos sozinhos; não seríamos mais os chatos. Dessa vez o país ia mudar.

Ao sair de casa e pegar o ônibus com o pessoal para a Esplanada, foi até difícil encontrar as lideranças de sempre no meio de tanta gente. Nossa tinta verde e amarela não durou nem até a gente chegar no parlatório, em frente ao Congresso. Tinha carro de som, trio elétrico, um monte de gente que nunca imaginei se interessar por política (e talvez não se interessasse mesmo) estava presente. Nesse ambiente, nossos líderes pareciam ainda maiores. Altivos, elegantes, preparados: eram o exemplo que o país precisava. Se eles assumissem o poder, tudo daria certo.

Contudo, apesar da festa, apesar do clima de que dessa vez íamos vencer, as palavras ditas por meu pai quando saí de casa ainda me incomodavam um pouco. Eu perguntava: “pai, como você pode ser contra o impeachment? Essa gente toda precisa sair”. E ele me disse de maneira tão natural que fiquei até assustado.

Meu filho, esse negócio de impeachment é só um teatro. No Brasil quem está no topo não importa. Independente de quem seja o presidente, continuarão os mesmos no poder. E essa gente vai ganhar ainda mais força.

É evidente que ele não podia estar certo. Eu já havia estudado os partidos, o movimento político, e havia um monte de gente honesta com intenção de mudar. Se essa gente tivesse chance e fosse para o poder, o país seria outro.

Na semana anterior aos protestos, estive na casa de um grande amigo, cuja mãe namorava um famoso deputado. Durante o almoço ficávamos discutindo o processo e o deputado, um grande exemplo de moralidade, respeito, enfim, tudo o que não é comum na classe política, explicou pra gente que precisavam juntar 336 votos para conseguir o impeachment. A grande sacada do dia é que havia uma possibilidade muito grande do voto 336 ser o dele, já que o nome começava com a letra P. Seria lindo se fosse assim. Seria histórico.

Volto a mente das histórias da semana para a esplanada no protesto. Aqueles milhares de pessoas estavam ali para provar que meu pai estava errado. Afinal, ele não tinha estudado política e não conhecia o poder da sociedade civil organizada. Não presenciou o que vínhamos construindo, a mobilização que fizemos. Até um nome tínhamos ganho na imprensa: os caras-pintada. Aquele ano de 1992 seria incrível.

Corte para a Terça-feira de votação. Montamos uma verdadeira operação de guerra e a estratégia era simples: se você era a favor do impeachment, aplaudíamos você e seu carro. Se fosse contra, íamos vaiar e, se tivéssemos sorte, talvez conseguíssemos até virar seu carro. Nosso grande líder, Lindbergh Farias, fazia no parlatório do Congresso um discurso que consideraríamos histórico. Muita gente chorou (eu inclusive).

O enredo não poderia ser melhor. Vencemos, e com ampla margem. Aquela gente corrupta, aquela escória, ia finalmente sair do poder. Todos os partidos que lutaram por aquilo, PT, PDT, PC do B, tinham uma sensação de vitória que não conheceram durante a eleição. Estávamos prontos para assumir as rédeas e mudar o país. Cantávamos o hino com grande emoção. Era a vitória definitiva contra a corrupção.

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