Saudades, para que te quero?

Eduardo Silva
Sep 1, 2018 · 2 min read

Saudade é um sentimento legítimo e inevitável, uma vez que a memória de um bom momento ou fase da trajetória fornece o embasamento necessário para que possamos, no tempo presente, criar referenciais de ação, projeção e, a despeito de seu caráter temporal, até mesmo felicidade. Sem a saudade, seríamos como robôs em programações matematicamente frias, ou livros de história fechados e empoeirados por anos, pois é na sua presença, controversa e dolorosa, que articulamos nossa concepção de legado social de forma contínua e ininterrupta.

Esta mesma saudade, porém, é que nos faz recorrer à máxima de que ‘’tudo em excesso é ruim / faz mal’’. O risco em se aprisionar na memória e se alimentar de saudade pode atrapalhar a continuidade do processo e criar distorções na formulação de ideias. Em linha e empatia com os historiadores do futuro, precisamos respeitar o fluxo, nos adaptar a certos ritmos e buscar, com o máximo de autonomia possível, os espaços certos para promover mudanças no cenário em que atuamos.

Do contrário, acabamos nos deparando com situações pitorescas e não menos assustadoras. Vidas inteiras dedicadas a versões, a covers de vidas já vividas, emulando gestos, olhares e expressões que nos remetem um roteiro predefinido,uma peça de teatro em curso. É a saudade e a memória que se materializam e envolvem o ser humano em um roteiro circular, numa espiral social excludente e descontextualizada. “Que tempo bom que não volta mais!” “Naquela época isto funcionava, aquilo dava certo!’’. Frases como essas trazem conforto e podem surtir efeito analgésico (ou até anestésico) em nossos departamentos psíquicos.

Mas quero lançar algumas perguntas (retóricas): devemos mesmo fazer todo este esforço para pensar com a cabeça de alguém que interagiu com um ambiente social, político, cultural e pessoal tão distinto do nosso? Onde reside exatamente o sentido de uma vida alugada para um conceito fechado, que já teve o destino traçado e já transferiu sua força para novos conceitos? Por que não pensar (ou aceitar, de alguma forma) a ideia de que estes conceitos não se perderam, mas se transformaram e apenas ganharam “novas roupas” no decorrer da história?

Em minha santa ignorância e neste filosobol fajuto de boteco, gostaria de sugerir um exercício que já proponho a mim mesmo e ponho em prática há algum tempo: um tipo de “autoradiografia’’ social. Do artistas ao filósofos, dos gurus de costumes aos cientistas sociais, onde estão vocês na fila do pão? Somos o passado e o futuro em constante movimento, materializados neste caótico e fascinante presente chamado século XXI.

O resto? Já virou ou ainda vai virar história, não se preocupem.

Eduardo Silva

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Este é um espaço dedicado a reflexões, devaneios e crônicas “filosobólicas” sobre as coisas da vida e da percepção. Fiquem à vontade : )