Formas específicas de produção cultural dos fãs brasileiros

A ideia inicial desse artigo é promover uma análise perante a comunidade digital de fãs (fandom) de uma serie de televisão britânica, Doctor Who, produção que é exibida na rede BBC do país desde a década de 1960. Os autores reuniram pesquisas e dados coletados em formulários, estes aplicados em um dos maiores grupos de fã do estado de São Paulo (Whovians), uma vez evidenciado como maior polo de consumo do conteúdo no Brasil. Dos cinquenta participantes que mais promoviam fluxo de conteúdo, uma parcela de 25% foi selecionada para participar de entrevistas presenciais.

A cultura material, produtividade e conhecimento da mitologia da serie foram três pontos utilizados como base para que os entrevistados pudessem “provar” seu amor pela serie, adentrando cada vez mais para que fosse sugestivo o envolvimento com a produção, envolvendo a realização de atividades como realização de legendas, participação da cultura nerd com cosplays e fanfictions, assim como diversas outras formas de manifestação.

Os autores do texto apresentam duas vertentes principais para definir da palavra fã: o senso comum tratado para os autores Jenkins (2006) e Morin (1968) como alguém limitado única e exclusivamente a um tema o qual transcenderia o aceitável e, para Jenson (1992), uma pessoa mentalmente instável ou um colecionador, dependendo da sua classe social em relação direta com a percentagem de renda gasta com materiais. Tomando isso como princípio, é necessário quebrar esse pensamento de platonicidade de participantes da comunidade digital de fãs para com seus ídolos.

Esse discurso se desenrola até um ponto positivo pouco levado em consideração: o fã como criador de conteúdo, e não apenas consumidor. Uma das afirmações propostas por Fiske (1992), choca os não apoiadores dessa massa cultural ao apontar que a qualidade de conteúdos fanmade pode ser tão alta quanto os considerados oficiais. Isso é algo interessante, uma vez que vemos paixão na produção que, na maioria das vezes, não tem fins lucrativos — apenas puro prazer, elevando a reputação do responsável dentro do próprio fandom.

A comunidade fandom brasileira de Doctor Who, exemplificada no artigo, conta como uma extensão digital do mundo real para aqueles que participaram de eventos presenciais sobre a serie na cidade de São Paulo. Foi possível perceber um grande crescimento no grupo da plataforma Facebook após a repercussão da serie no Brasil, através da transmissão em televisão aberta da Rede Cultura em horário nobre. “A experiência do fandom ganha novos contornos quando vivenciada em grupo” (JENKINS, 2006; FISKE, 1992; OLIVEIRA e TONUS, 2011 apud AUXILIO, MARTINO e MARQUES, 2013, p. 116).

O consumo de material vendável é bastante comum em fandoms, é possível perceber um grande movimento de produtos como figure actions e audiovisuais como DVDs e blurays, além de muitos serem adeptos de referências presentes na serie, como looks de roupas diferenciados, posse de acessórios e penteados de cabelo.

Como criadores de conteúdo, é possível perceber na comunidade de Doctor Who muitos adeptos a confecção de cosplays, atuação em páginas da web com fã-sites destinados a compartilhar notícias e informações, publicação de fanfics em websites especializados para os apaixonados em escrever.

É possível concluir, então, que participar de um fandom existem benefícios e malefícios. A participação nessa forma de comunidade pode despertar afinidades antes escondidas, tornando algo prazeroso com frutos para serem colhidos no futuro. Articulam-se com as experiências estéticas da subjetividade, delineando-se continuamente no conjunto das práticas sociais, permitindo a articulação de significados e experiências (MARQUES 2008a, 2008b; MARTINO, 2010).

Referência:

AUXILIO, MARTINO, MARQUES. Formas específicas de produção cultural dos fãs brasileiros. In: Ciberlegenda. Niterói, junho de 2013.

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