A bala que me atinge
A cada 23 minutos um jovem negro é assassinado no país. Uma bala me atinge. Me atinge porque sou negro e também porque sou jovem. Me atinge, sobretudo, porque não banalizo o ato, muito menos a dor. Não podia ser assim, ou ao menos não era para ser.
O Rio de Janeiro, cenário cantado em verso e prosa por ser o cartão-postal, hoje enfrenta uma de suas maiores crises: Estado falido, educação varrida e uma faculdade que existe pela resistência e força de seus alunos. Mais uma vez, uma bala me atinge. Aprendi a amar esta cidade, mesmo vivendo um apartheid social do qual não escolhi. Apenas me foi imposto, ou melhor, tentado o local do condicionamento. Eu não aceitei e virei às costas. Uma bala me atingiu.
Uma bala me atingiu quando escutei calado o relato de um colega dizendo que em diversas vezes ele foi, é e ainda será, infelizmente, parado e revistado pela polícia. Por ser negro e ter cabelo crespo. O momento de prazer e satisfação do fardado acaba quando o então colega mostra a carteira de identificação da faculdade (aquela, que é regida por uma instituição religiosa de ordem jesuíta). ‘’Não foi dessa vez’’, retruca o policial. E a bala mais uma vez me atingiu.
Me atinge quando alguém passa por algum episódio de preconceito. ‘’Macaco’’; ‘’seu preto’’; ‘’imundo’’; ‘’você não deveria estar aqui’’. Anos atrás, fui convidado para ir em um evento. Perguntado sobre o local onde morava, respondi no ato ‘’Rocinha’’. ‘’Nossa! Mas na Rocinha? Nem parece.’’, foi a resposta que escutei. Eu tinha 14 anos e fui atingido.
No Facebook, vejo compartilhamentos de uma foto na qual um militar do Exército revista uma moradora da Favela do Jacarézinho, subúrbio do Rio. No registro, quem observa o ato espantada é a filha da moradora, um criança que presumo eu ter no mínimo seis anos. Vontade de gritar. Estou à flor da pele.
Dói. É pesado. Um fardo. Quero o dia onde não se precise recorrer a carteira da faculdade para que me seja impossibilitada à revista ou qualquer outra coisa. Quero viver, conhecer outros jovens. Quero que eles possam sonhar e concretizar. Quero que haja integração e que eles possam ir à uma praia da Zona Sul sem que sejam seguidos e detidos, sem terem feito absolutamente nada. Que não se mate, que as armas abaixem e que a educação seja valorizada. Que o preconceito diminua.
Quero, sobretudo, a pureza do olhar do menino que caminha junto comigo ao longo do sinal e, que ao ver a passagem dos carros do Exército, pergunta ao ser pai o que está acontecendo. Tendo a resposta, ele diz com firmeza ‘’Papai, isso não pode acontecer. A rua não é deles, que estão com as armas. A rua é nossa, para que a gente possa viver em paz’’.
Eu só sei que eu acredito no menino e é no menino que vejo a força da fé.