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Fragmentos de um discurso

Naqueles tempos, ninguém se interessava por geometrias nem tinha dinheiro pra elas. Não haviam edifícios, cada um mais alto que o vizinho, como árvores de ângulos retos em busca do sol. Dessa forma, quando faltou o barbante, Seu João, o pedreiro, se viu sem escolha mas não se preocupou: e o teto da hoje loja móveis antigos saiu em desnível. 
Os móveis eram novos, então. O tempo muda as perspectivas.

Escrever é despir-se. Mostrar o que exala dos poros sem revelar um naco de pele. Imprimir em outras mentes o que se leva n’alma. 
Ou inventar tudo isso — não importa.

— Estudou no Alexandre? 
Sem “Olá”? Sem “Sou Fulano, estudamos juntos e me lembrei de você em ___, daí te procurei por motivos de ____ …”? Estudei sim. Três anos como nunca antes: quase solto; com certeza, feliz. 
 — Você morava perto da estação Vila Clarice?
Sem “Te procurei pelo sobrenome; e você não mudou tanto…”? Ah, mas como mudei! Peso, barba, entendimento de quem eu posso ser neste mundo…
 — Sempre que dá bato papo com alguém: a Paula, a Ana… Sou mesmo saudosista! É claro que nem sempre consigo, afinal após 20 anos, ou sou assombração ou é pedido de empréstimos… Fica tranquilo não sou nenhum dos dois.
Sem “Eu casei e tenho uma filha linda! Terminei o ensino médio (lembra que era ‘segundo grau’? Até hoje me confundo!) e trabalho como vendedor na fabricante de danones…”? Você é quem eu penso ser? O do Opala creme, de câmbio na coluna de direção? Quem são Paula e Ana? Vai me adicionar ou conto agora que eu gosto de meninos? É importante que eu conte? Muda a tua busca… ou a confirma? Saberão, em fofoca, por você, a Paula e a Ana?
 — Ops, vou sair nos falamos depois.

Conheci alguns escritores. Nenhum de fama, ninguém conhecido popularmente, entretanto conheci mais escritores do que a média da população mundial! Por escritores, considero quem publicou uma ou mais vezes. Por conheci, o critério abrange o real e o virtual. Mas há de se ter tido uma amizade. 
Hoje, apenas eu… e elas. O tempo muda as perspectivas.

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