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Um homem de hábitos simples e instrução formal limitada. Desconhecedor das malícias do mundo, como em geral são as pessoas de igual contexto: cidade rural, interior do estado, princípios do século passado.
Não conheceu pai ou mãe, mortos quando ele ainda contava poucos anos de vida, em circunstâncias que nunca lhe foram reveladas pelas freiras do orfanato. Isso lhe desgrenhava ainda mais as caraminholas.
(Porque sim, “caraminhola” é um tipo de penteado, mas também é falta de pente e desembaraço.)
E porque se chamava Colocenes — esse era o mistério — e não tinha explicação.
As freiras sempre lhe diziam que seu nome deve ter-lhe sido dado por sua mãe, Maria — seguramente uma devota. Ela deve ter se inspirado na Carta que o Apóstolo Paulo escreveu aos colossenses depois de saber da situação espiritual daquela Igreja através de Epafras, um fundador e dirigente, numa época em que outros mestres tentavam combinar elementos do paganismo e da filosofia secular com as práticas cristãs, induzindo a um relativismo religioso. A doutrina dos líderes em Colossos consistia basicamente na apresentação de certos espíritos intermediários entre Deus e Cristo e Paulo lhes chamava de volta à (sua) Verdade: não há intermediários entre Jesus e seu Pai, pois ambos são um. A mãe de Colocenes, Maria, como a mãe de Deus, então teria querido inspirar seu próprio filho a andar pelos caminhos que agradariam ao Senhor.
Colocenes preferiria ter seu nome por conta de seu pai: Tristão.
Porque este era um dos melhores cavaleiros de Arthur, útil para o Rei em várias ocasiões. Um padre mais liberal havia lhe contado dessas aventuras e também sobre o incondicional amor de Tristão por Isolda, com quem nunca pôde se casar já que esta era casada com seu tio — Rei Mark da Cornualha — e sustentar tal amor, mesmo que secreto, seria um ato de traição contra o rei. Mas o sentimento era tão grande que os dois não puderam evitar e Tristão foi expulso da Cornualha. Depois de desposado, sem embora consumir o ato, e depois de muitas aventuras, Tristão é ferido com uma lança envenenada e a única pessoa que podia curar seu ferimento e não o deixar morrer era a Isolda, sua eterna paixão, mas o barco que enviou para buscá-la não retorna e Tristão, em profundo desespero, morre. Ao sair do barco, Isolda encontra seu amor sem vida, entra em angústia profunda e morre ao lado de Tristão.
A Colocenes, contudo, lhe atraíam mais as batalhas travadas pelos da Távola. Sua coragem, as intrigas, traições, as feitiçarias e a mágica. Preferência esta, em detrimento à das freiras e a Isolda, perfeitamente compreensível, por sua mente fértil e rebelde de menino.
Quando um pouco mais velho, alfabetizado, conseguiu a informação pela qual ansiava na biblioteca da cidade:
Agravaim
Bagdemagus
Bedivere
Boors
Breunor
Calogrenant
Caradoc
Dagonet
Dinadan
Erec
Gaheris
Galaaz
Gareth
Gauvain
Geraint
Griflet
Ivain
Kay
Lamorak
Lancelot
Leodegrance
Leonel
Lucan
Meleagant
Marhaus
Palamedes
Pelleas
Pelinore
Percival
Safir
Sagramore
Segwarides
Tor
Uriens
Nenhum Colocenes entre os demais Cavaleiros...
Mas fez as pazes com seu nome quando, em idade avançada, ouvia a risada de sua neta, deliciada em chamar-lhe por seu apelido de criança:
- Vô Cocô! Vô Cocô! Eu te amo!!
Pois, com Amor, qualquer merda dessa vida fica um pouco mais bonita.
N.d.A.: Colocenes é de verdade o nome do pai de uma colega, que não sabe porque seus avós (Tristão, sim, Maria também) o registraram assim. Colocenes, já falecido, não foi órfão tampouco avô. Mas pelo Dia que passou, fica a homenagem.
