S14E70

Há dias meu dedo médio está dormente.

Começou por sua ponta. Pelo meio, bem no meio, dessa pontinha. Logo, o gominho todo, por assim dizer. No dia seguinte, o segundo gominho, o do meio. E, assim por diante, um dia acordei sem sentir qualquer parte do meu dedo médio.

O dedo médio esquerdo.

Depois foi o direito. Pontinha, gominho, gominhos, dedo. Igualzinho — entorpeceu-se.

Pensei se eu haveria de ter cutucado o fiofó com xilocaína, pra modos de não sentir dor. Mas até onde me lembro, esse era o fulano. Pensei se eu haveria de estar com um princípio de AVC. Até onde me ocorre, esse foi o beltrano.

E nem sei se começou por qualquer dedo…

Então vi aquela foto. Alguém reagia contra um neo-nazista. Assim mesmo: um “vá se foder” bem grosso (o dedo) e grosseiro (mas merecido!). Daí pensei se eu haveria de ter perdido minha indignação. Minha capacidade de mandar às favas (ou à merda ou até ao inferno) aqueles que me desafiam.

Ofendem.
Chantageiam.
Negligenciam.

Esses existem e há dias — centenas de longos dias — adoecem minha determinação.

My resolve, em inglês. Mais bonito, assim…

Olho para a chuva que ora cai, forte, além da janela. Há dias — dezenas de poluentes dias — aguardada.

Aguardada… viria de água? De chuva?

Desranjo os dentes…

Nossa… feio, assim.

Desfranzo o cenho…

Credo! Mais esquisita ainda, essa expressão!

Me surpreendo com as gargalhadas. Por conta da Língua.

E ao que tudo indica, a antiga raiz garg- ou gurg- surgiu como onomatopeia, uma imitação de sons feitos com a garganta, sem modulação pelas cordas vocais ou boca. Daí surgiu o Grego gargarízein, “gargarejar”, que passou para o Latim como gargarizare. Neste idioma, gurgulio significava “garganta, esôfago, goela”. Gurgis era usado para “redemoinho”. Dessas origens surgiu uma grande quantidade de palavras de uso atual, como:

Gargalhada: emitir sons de riso.
Gargalo: o pescoço das garrafas. Por extensão, o ponto de estreitamento do trânsito, das atividades, de processos.
Gargantear: o ato de contar vantagens, de se supervalorizar.
Gargomilo: quando alguém está “cheio até os gargomilos”, está cheio até à garganta; não cabe mais.
Regurgitar: fazer sair de volta pela garganta.
Gorjeta: esta é inesperada! Era a quantia de dinheiro dada a uma pessoa “para molhar a garganta”. O Francês tem uma palavra mais clara para isso: pourboire, literalmente “para beber”.

Estou até os gargomilos de quem só garganteia e nem gorjeta, deixando-me no gargalo de um regurgito.

Se a pessoa que merece a recompensa for abstêmia, como eu, não deixe de lhe dar algo como propina, que significa “para comer”.

Vai ver meu mal é fome!

(Meu dedo médio, na pontinha, ainda dorme…)

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