O feriado é bacana, mas você faz alguma ideia do que foi a Proclamação da República?

Desde que eu comecei a conviver com pessoas simpatizantes à monarquia pelas redes sociais, sei que o dia 15 de novembro será repleto do mesmo clichê: dezenas de posts dizendo que a Proclamação da República foi um golpe.

Em 2016 essa narrativa foi potencializada devido ao processo de Impeachment da presidente Dilma Rousseff. Em meio aos militantes que até hoje insistem que o impedimento foi golpista, alguns monarquistas sentem-se ávidos por mostrar o que realmente é um golpe.

Deixe-me fazer a minha parte, colocando aqui um trecho de uma carta muito interessante:

“República no Brasil é coisa impossível, porque será uma verdadeira desgraça. Os brasileiros estão e estarão muito mal educados para republicanos. O único sustentáculo do nosso Brasil é a Monarquia; se mal com ela, pior sem ela.”

A citação acima foi escrita pelo Marechal Deodoro da Fonseca, o militar que proclamou a república e foi o primeiro presidente do Brasil.

Não se engane. Não pense que eu peguei algo que ele disse durante a adolescência e logo se arrependeu; essa carta foi escrita em 1888, um ano antes do golpe, digo, da proclamação da república. Sim, o fim do Império do Brasil não apenas foi um golpe militar, como também sequer era apoiado pelos seus próprios protagonistas. O povo? Nem sabia o que acontecia; muitos só descobriram meses depois, quando Pedro II já estava em seu local de exílio.

Bacana. Posso falar bastante sobre Dom Pedro II, Marechal Deodoro, o Império do Brasil, a Proclamação da República… mas o brasileiro realmente conhece essas figuras? Faz sentido bater na mesma tecla de que a proclamação foi um golpe, quando a esmagadora maioria das pessoas não lembra ter ouvido sobre Pedro II, mesmo que faça parte do currículo escolar básico?

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“Quem sou eu?”, como o próprio nome sugere, é um jogo em que você deve adivinhar o personagem imaginado pelo seu adversário. Eu, como bom nerd que sou, costumo brincar disso com alguns amigos mais próximos. As regras dizem que eu preciso escolher um personagem amplamente conhecido, e os outros jogadores podem fazer um determinado número de perguntas que só podem ser respondidas com sim ou não. Esgotadas as questões, cada um tem uma chance para acertar o personagem escolhido. Terminada a rodada, outra pessoa escolhe uma outra figura histórica e o jogo se reinicia.

Como bom amante da história do “Brasil Império” que sou, costumo escolher uma figura desse período. Entretanto, sempre tenho que ser cuidadoso. Normalmente escolho Dom Pedro II, por ser a figura mais importante e conhecida dessa janela histórica. Quem não conhece o Pedrão, não? Se você passou pelo ensino fundamental, é obrigatório conhecê-lo.

Normalmente eu jogo com gente da minha idade. Jovens de 20 a 25 anos, que em sua maioria estudaram em escolas particulares caras e, em boa parte dos casos, já estão para se formar no ensino superior. São vistos, pelos pais e amigos, como parte da “elite intelectual” juvenil, o futuro deste país.

A maior parte deles se espanta quando revelo que o personagem que não conseguiram acertar era Dom Pedro II. Perguntas absurdas como “Poxa, achei que você só poderia escolher personagens conhecidos. Quem é Dom Pedro II?”, ou “Você disse que o cara era um político brasileiro. Ele não era rei de Portugal?”, ou “Como é que eu vou conhecer um dos reis brasileiros, se foram mais de 30 nesses 500 anos?” são comuns. Do que adianta dizer para esse público que a Proclamação da República foi um golpe, se eles sequer sabem do que você está falando? Será que isso levantará algum interesse? Valerá o esforço?


Se você não conhece a história do seu país, que tal começar hoje? Minha experiência pessoal praticamente me obriga a te recomendar começar pela série de livros do pesquisador Laurentino Gomes: 1808, 1822 e 1889. Além de serem obras interessantes e bem escritas, são feitas para todo tipo de público. Caso falte motivação para esse estudo, deixo uma citação do próprio Laurentino, no livro 1889:

“Uma sociedade que não estuda história não consegue entender a si própria porque desconhece suas raízes e as razões que a trouxeram até aqui. E, se não consegue entender a si mesma, provavelmente também não estará preparada para construir o futuro de forma organizada. O estudo de história é hoje, talvez até mais do que qualquer outra disciplina, uma ferramenta fundamental na construção do Brasil dos nossos sonhos em um novo ambiente de democracia.”

Se você, entretanto, é um educador, militante político, influenciador digital ou formador de opinião, que tal começar a escrever de uma forma mais eficiente dada a realidade do lugar onde vive? Você pode ser muito competente e acumular uma quantidade incrível de conhecimento, mas não atrairá a atenção das massas se continuar falando em uma linguagem que não condiz com a realidade das pessoas. Não dá para salvar o mundo tentando convencer o brasileiro médio a estudar latim e grego antigo à força.

Você pode até considerar a autoeducação como sendo uma obrigação pessoal e acreditar que o brasileiro está falhando feio nesse quesito, mas isso não muda os fatos; é preciso começar a pegar a galera pela mão e tentar ensinar alguma coisa de verdade, de uma maneira que chame a atenção e pareça motivador e interessante para o seu público.


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Leia também o meu texto anterior, sobre a manipulação que a imprensa brasileira fez conosco durante as eleições americanas: