Um elogio ao Museu da Casa Brasileira

Já desde os tempos da graduação acompanho o prêmio Design do Museu da Casa Brasileira — MCB. Eventualmente participei do concurso do cartaz, mas independente disso, sempre discuti com amigos os resultados deste, ou da seleção dos produtos, da expografia etc. O fato é que, depois desses 10 anos acompanhando o prêmio, escrevo esse curto texto como um elogio ao MCB que, enfim, pisa em terras do maior interesse à história e debates do design gráfico.

cartazes escolhidos em 2014 e 2015, com juri coordenado por gustavo piqueira. fonte: site do mcb

O primeiro ponto é sobre o vencedor do concurso do cartaz nessa trigésima edição. Após dois anos conturbados, cujas escolhas partiram obviamente de uma tentativa de dar novos ares ao concurso mas que alcançaram resultados no mínimo discutíveis, ter como premiado um pano de prato de um artista gráfico fora do eixo paulistano é algo muito interessante.

Meu ponto para isso é simples: no prêmio, o suporte do cartaz como principal peça de divulgação e princípio de identidade já soa um tanto quanto inadequado faz um tempo. Me parece servir como peça de divulgação unicamente por ser uma peça-fetiche da classe. Designers gráficos gostam de cartazes, e gostam de fazer cartazes. Como peça de comunicar algo efetivamente, nunca me pareceu fazer grande sentido. Ainda mais por ser uma peça-fetiche que é fetiche do público ao qual se propõe o concurso, ou seja, designers gráficos; e não daquele que receberia a comunicação do prêmio posteriormente, que são os designers de produto. Não se pode esquecer que o cartaz, embora se desenvolva posteriormente em uma identidade mais completa, visa especificamente divulgar o prêmio design, que é a premiação de design de produto. Então, mesmo que seja o fetiche cartazístico que exerça força de comunicação, o público que morde essa ísca não é ao final o que interessa. Há ainda que se avaliar se a famosa cartada da “tradição” cabe de ser usada aqui, mas não estou certo disso.

“cartaz” escolhido no concurso de 2016, com juri coordenado por rico lins. fonte: instagram do mcb

Enfim. O ponto é que pela inconsistência inata de um concurso de cartazes natimortos, o fato de um pano de prato, um efetivo objeto do ambiente caseiro com finalidade muito precisa e prática, ter ganho é algo de uma felicidade sem tamanho para rejuvenescer o concurso. Mais feliz ainda por ter acontecido na sua trigésima edição, um número tão redondo, ocasião perfeita para uma reavaliação dos rumos e finalidades do tal prêmio.

O que me surpreendeu muito nesse resultado é o quão bem recebido ele foi pela classe. No círculo ao qual pertenço, não me recordo de qualquer comentário negativo a respeito dele. Me pareceu, inclusive, que as pessoas souberam muito bem pesar que o simbolismo por detrás dessa peça é mais fortes que qualquer outro de seus aspectos, tanto que sequer houveram comentários quanto à qualidade gráfica da tipografia impressa no pano. Ou seja, o conceito é tão forte que a execução gráfica chega a ser desimportante. E, do meu ponto de vista, não ter havido essa discussão foi algo ótimo.

E junto a esse reconhecimento da peça, outra grande felicidade que a equipe do prêmio design teve foi algo que considero de suma importância à nossa história gráfica do design brasileiro, que foi a mostra do concurso do cartaz. Essa mostra foi uma exposição que aconteceu nas salas do piso inferior do MCB, onde se expuseram todos os cartazes submetidos ao prêmio, abrindo para votação popular do melhor cartaz.

fotografia de uma das salas da “mostra do concurso do cartaz”. fonte: site do mcb

Meu elogio à equipe do prêmio por essa iniciativa possui um contexto. Ingressei esse ano no curso de mestrado da FAU USP, onde realizo uma pesquisa sobre determinados aspectos do ensino do design dos anos 1960 e 1970. E tenho enfrentado os malogros de reunir documentos de nossa história do design. Se tem uma coisa que não aprendemos, foi preservar nossa memória.

Pois bem, ao ver uma exposição onde absolutamente todos os cartazes se encontram na mesma hierarquia de importância em relação aos demais, e que não há qualquer seleção feita por uma elite instruída para escolher o melhor dentre as opções, isso para mim é de fato história do design gráfico. As edições anteriores do prêmio podem, no máximo, ser entendidas como história da vanguarda do design gráfico, entendendo aqui vanguarda como aquilo que se julga inovador e relevante a determinado período por determinado público. A mostra do concurso do cartaz é o contrário disso: alí é onde está de fato o zeitgeist do nosso design gráfico brasileiro, sem filtros e sem restrições, sem clubismo. E por esse motivo, documentalmente é de uma importância impar, que nenhuma outra edição do concurso jamais alcançou. Isso pois, da maneira como vejo, as anteriores nunca poderão ser entendidas como efetivas representantes da cultura gráfica de um período, pois se trata de uma seleção feita por um juri com alinhamentos ideológicos no campo projetual quase sempre muito claros. Exemplo disso são justamente o cartazes que coloquei no início do texto. Alí está estampada a cara do (coordenador do) juri. E por mais que o intuito de ambos os anos tenha sido de renovar o concurso do cartaz, renovação de linguagem num suporte caduco nunca será uma renovação de fato.

sala da 29ª edição do premio design, com projetos premiados de luminárias. ressaltamos as formas coladas na parede “emulando” o rastro de luz de cada peça. fonte: site do mcb

Isso acabou refletido no ano passado num projeto expográfico muito problemático. Me recordo especificamente da sala das luminárias onde se cometeu o erro de colar nas paredes recortes nas áreas de iluminação dos exemplares premiados, mimetizando o desenho que a luz fazia na parede. Oras, a iluminação é o cerne de uma luminária, e não poder ver em ação a principal característica de um objeto premiado é algo um tanto quanto descabido. E isso porque as lâmpadas permaneciam acesas apesar de tudo…! A única leitura que posso fazer disso foi que o projeto expográfico privilegiava os aspectos unicamente formais daquilo que estava exposto. A forma da luminária, e não seu uso, era isso que estava exposto. E é de se questionar a que um prêmio de design da casa brasileira estava se propondo ao apresentar objetos do cotidiano dessa maneira.

Mas apesar da última edição, é com grande felicidade que vejo a renovação que o concurso e prêmio desse ano (ao final comemorativo) estão passando. Desejo que tais iniciativas continuem nessa, e nas vindouras edições.