Você sabe o significado de cada uma das notas de seu velho boletim?
Impressionante o fato de que ao longo do tempo, a escola ainda consegue manter a nota como forma exclusiva de atribuição de valor ao processo de ensino-aprendizagem dos alunos. De um lado, ainda ouvimos educadores e pais reforçando sua importância e do outro, as principais vítimas, ou seja, os alunos, ora felizes, ora desapontados, de acordo com a nota obtida em avaliações.
Se olhássemos hoje os boletins ou mesmo as provas de quando estávamos na escola, saberíamos o significado das notas? Geralmente, costuma-se dizer que quem tirou entre 8 e 10 foi “muito bem” e quem tirou menos que 5, “foi mal”. Pouco ou nunca se discute que independente da nota, há sempre o que melhorar e há sempre algum conhecimento independente da categorização dada.
Estatisticamente a nota pode até ter algum significado. Pode permitir que o professor tenha uma visão geral da turma e saiba quais alunos estão com maior ou menor facilidade com relação a determinado tema abordado nas avaliações. Porém se perguntar a uma criança ou mesmo a um universitário que tenha recebido uma prova com apenas correções baseadas em certo, errado e uma nota atribuída, notará que eles entendem pouco sobre o que de fato aprenderam e o que ainda precisam estudar.
A avaliação deveria contribuir para que alunos e professores pudessem de alguma forma aperfeiçoar os processos: os professores para que percebessem o que é preciso ensinar melhor, o que está dando certo e o que deve ser aperfeiçoado e no caso dos alunos, deveria contribuir para que tivessem noção do que precisam estudar mais e o que já sabem com segurança.
Porém se o objetivo é apenas “tirar uma nota”, esta etapa importante acaba ficando perdida. Até porque para isso é preciso estudar o suficiente para fazer uma prova, sem contar que outras estratégias como a própria cola podem garantir o mesmo resultado.
Outro aspecto bastante prejudicial e trabalhoso para o professor, é que este geralmente corrige todas as avaliações bem distante dos alunos e quando este recebe sua avaliação de volta, esta nem mesmo é discutida e o tempo de reflexão sobre os processos geralmente fica perdido. Para corrigir provas de uma turma, o professor dedica horas de trabalho e geralmente todo este tempo é perdido, justamente por ser resumido a uma simples letra ou número que pouco pode contribuir com os alunos.
Longe dos alunos, como é possível perceber o seu raciocínio e conhecimentos mobilizados para resolver cada questão? Como perceber se foi mera distração ou se ela realmente não compreendeu o conteúdo abordado?
Ainda que tenhamos que conviver com as notas, acredito que seja possível conciliá-la com formas mais qualitativas de avaliação. Tive boas experiências assim na faculdade. Alguns professores liam nossos trabalhos e faziam comentários em vários aspectos do que estava bom e do que poderia ser melhorado e ao final colocavam uma nota, porém com pouco destaque e deixando claro que aquilo não era o mais importante. Nossa sensação ao ler os trabalhos era uma vontade grande de melhorar, de refazer, mesmo com notas altas. Tive professores que até arriscavam dar notas altas a todos e ao mesmo tempo destacar o que precisava ser aprimorado nos trabalhos.
Já trabalhei em lugares em que a coordenação dizia que notas abaixo de 8 deviam ser comentadas, justificadas. Sempre me perguntei: será que todo 10 é igual? Significa que o aluno aprendeu tudo e não há nada para ser melhorado? Quem tirou 2 está muito ruim mesmo? Aliás, existe nota 0? Existe algum aluno que nada saiba? Realmente é muito confuso tentar solucionar todos estes desafios com um número…
Seguindo a ideia de conciliar as notas, acredito que possamos ao menos propiciar situações mais reflexivas tanto para nós, como para os alunos, de modo que possam ter e sentir progressão em seus processos de aprendizagem. Algumas estratégias que poderiam ser testadas são:
- Fazer as correções em sala de aula, coletivamente ou individualmente em alguns momentos, de modo que os alunos explicitem o que pensaram, como pensaram, o que aprenderam e o que ainda têm de dúvidas;
- Propor que os alunos em duplas, a partir de critérios combinados com a turma, façam correções nas atividades dos colegas, porém sem atribuir notas , certo ou errado, mas deixando contribuições do que poderia ser melhorado. Esta dinâmica permitirá que eles vivenciem avaliação tanto na posição de avaliadores como de avaliados e a responsabilidade de avaliar o outro fará com que se preocupem mais em aprender também;
- Experimentar fazer correções com provocações e comentários sem atribuir nota e dar nova chance para que os alunos ajustem ou refaçam as atividades, procurando inclusive adivinhar que nota poderia ser e porque. Essa provocação ajudaria tirar o foco da nota, possibilitando que eles pensassem mais nos processos. O fato de “adivinharem” a nota, ajudaria também a ter um parâmetro da avaliação que eles mesmos são capazes de fazer do que aprenderam;
- Juntar uma sequência de avaliações e pedir que os alunos observem se tiveram melhora ou se as atividades foram mais desafiadoras ao longo do tempo. É uma oportunidade de refletir sobre os conhecimentos consolidados, o que já foi esquecido e o que ainda é preciso estudar, além de estabelecer um plano de ação para as próximas etapas de aprendizagem.
Corrigir provas e dar notas apenas, é um trabalho demorado e cuidadoso, mas que também pode servir apenas para cumprir uma tarefa burocrática. Não podemos nos contentar com isso, afinal, o trabalho que realizamos precisa ter mais sentido para os alunos e para nós mesmos.
Texto originalmente publicado em: http://marygrace.com.br/voce-sabe-o-significado-de-cada-uma-das-notas-de-seus-boletins/