Resenha: Primrose Green - Ryley Walker

Capa do segundo álbum de estúdio do músico norte-americano Ryley Walker

A planta que Ryley Walker nomeia seu segundo disco, lançado em 2015, é uma referência direta ao folk que pratica. Primrose é uma flor comum nos campos norte-americanos. O cruzamento para chegar a cores diversas virou moda no final do seculo XIX; nenhuma delas, no entanto, verde. Primrose Green não é uma variedade daquela flor, mas um coquetel feito com o uisque e sementes de ipomeia que dá um efeito inebriante-sonhador em quem experimenta, mas que cobra com uma dolorosa ressaca no dia seguinte. É disso que se trata o disco: diferentes ingredientes que se cruzam para um novo sentido, as vezes inesperado.

Contracapa do disco, que foi gravado com ajuda de uma banda de jazz

O folk britânico sessentista/ setentista é a grande referência de Walker. Seja na capa a lembrar Van Morrison, seja na tessitura melódica próxima de caras como Nick Drake, Bert Jansch, ou nas vocalizações espirituais de Tim Buckley. Para isso, arregimentou, não músicos focloristas, mas uma banda completa e cabeçuda de jazz — o cellistas Fred Lonberg-Holm, a violista Whitney Johnson, o vibrafonista Jason Adasiewicz, o baterista Frank Rosaly, o tecladista Ben Boye, o baxista Anton Hatwich, e o guitarista Brian Sulpizio. E isso mudou tudo.

A principio fica aparente um arcaísmo nas referências de Walker. Nada de novo parece vir daquele folk já bastante repisado pelo revival neo-folk. Nem do jazz, que nas mãos erradas soa como uma reação à música praticada no século XXI. Mas a impressão fica na superfície. O passado aparece em Primrose Green como uma peça do presente, entre o residual e o emergente. O jazz, neste sentido, não é nostálgico, nem conformista, mas traz consigo o novo, por expandir o folk buscado do passado. Ainda assim, não se trata exatamente de uma fusão, mas de um complemento: o que falta no folk, o jazz supre e o que sobra no jazz, o folk condensa. Daí, resulta inventividade e poder telúrico.

Apresentação ao vivo de Flamingos Fly, por Van Morrison, em 1973

A faixa título, que inicia o álbum, resume bem este processo todo. O fingerpicking, dedilhado de violão bastante especifico deste tipo de folk, dá o tom da canção. “Headful of primrose green, gets me high, high”, canta ampliando as vogais enquanto a música desliza num jogo de transparência e condensação. A melodia é conhecida de algum lugar. Poderia vir de uma canção antiga, ou das ondas sonoras de um rádio ligado no apartamento vizinho. Mas é Walker cantando como se Van Morrison fosse um extemporâneo. Ou se Tim Buckley nunca tivesse excedido na dosagem de heroína. A expansividade ainda é tímida.

Em Summer Dress, a faixa seguinte, o ambiente não é tão seguro. O baixo e a bateria introduzem os compassos que serão preenchidos por um vibrafone e a guitarra, que levarão a música adiante. Walker faz exortações repetitivas com“feel alright”, provocando uma comparação comVan Morrison que pode soar desabonadora.

Em Same Minds o resultado é mais feliz. A introdução de baixo de Same Minds parece querer trazer aqueles gospels de Charles Mingus, mas deságua numa sincronia entre a expansividade do jazz e a glossolalia típica buckleliana. “ Somebody better calm me on down / Somebody had better cry / Cause we got the same hearts / We got the same little minds”, repete ao longo de toda a música. Não parece se tratar de uma súplica, mas de um chamado para que a diferença venha para apaziguar a alma do cantor ou desenlaçar alguma angústia não resolvida.

Better Git it in Your Soul do album Mingus Ah Um, que Charles Mingus se inspirou em cantos gospel ouvidos na infância

Love Can Be Cruel segue adiante com a forte pegada jazzy recobrindo a sonoridade folk. O ouvinte precisa saltar para dentro do trem em movimento para acompanhar o andamento de uma jam session já iniciada. A música segue numa urgente movimentação conduzida pelos teclados de Ben Boye e o baixo de Anton Hatwich. Até que, aos 2 minutos, finalmente surge a canção. “Time is slow and Love Can be Cruel” diz a letra. Ora frenética, ora espaçada, a brincadeira com o andamento dá sentido um sentido transitório para letra: o tempo pode soar veloz e o amor doce. Até que desemboca, aos 3 minutos, nas células mínimas da canção: seu enlace entre pulsação e melodia. Para então ser atravessada por um ruido eletrônico, numa colisão com os novos tempos, como quem diz que o passado é ruína e o presente vivo.

Tim Buckley canta Song to the Siren no programa de TV dos Monkees em 1968

A faixa seguinte é o completo oposto — com sua melodia rural e o piano pontuando o vazio deixado pela extensão vocal de Walker. Também se trata de um passeio musical. Mais suave, no entanto. A letra evoca as margens do Kishwaukee e os batismos de imersão que testemunhou em alguma fase da vida. O rio, que banha a cidade natal de Walker, é tributário indireto do Mississipi. Há todo um universo de imagens e sonoridades que o músico poderia evocar para atualizar a “alma americana” para o presente. Mas prefere o choque de realidade: o rio era um caldo marrom e poluído e os participantes desinteressados. “Have you heard the way i love your/ have you heard that song”, pergunta.

Os quase 45 minutos divididos em dez canções não devem fazer Primrose Green figurar nas primeiras posições de melhores do ano das listas de revistas especializadas. Possivelmente não vão reinventar o folk, nem trazer à tona a alma americana, ou o espírito do povo, para combater o mundo em que as identificações e as comunidades soçobram entre estilhaços de múltiplas referências. Mas pode ser um dos discos lançados em 2015 que mais vale a pena ouvir e ouvir outra vez. Walker, no fim das contas, expressa bem como os músicos podem criar, num universo musical cada vez mais difuso e cujo o passado se levanta como um monumento.

Ouça o disco:

Artista: Ryley Walker
Álbum: Primrose Green
Ano: 2015
Selo: Dead Oceans
Produção: Cooper Crain
# Faixas: 10
 Estilos: Folk, Folk Jazz
 Duração: 44:30