Tempestade extemporânea

Dylan busca novas temporalidades em Tempest, seu 35º álbum de estúdio

Palas Atenas em tons de vermelho na capa de Tempest, 35º álbum de estúdio de Bob Dylan

Em entrevista à revista Rolling Stone dos Estados Unidos, em 2012, Bob Dylan, à certa altura, pede ao repórter que pegue um livro e leia o trecho destacado por ele. O tal livro indicado pelo compositor era Hell Angel’s, cuja a parte destacada conta a história de um tal Bobby Zimmerman que havia sido morto em acidente de moto na década de 1960. O nome, a data e o fato não são mera coincidência com o acidente que tirou Dylan de circulação em 1966. Para o artista, trata-se de uma transfiguração.

“Quando você faz algumas das suas perguntas, está fazendo-as a uma pessoa que morreu há muito tempo. Está fazendo perguntas a uma pessoa que não existe. Mas as pessoas cometem esse erro a meu respeito o tempo todo”, segue Dylan enigmático. Esse falseamento da própria figura, a confusão de temporalidades, não é um ato gratuito ou midiático; mas um procedimento artístico. Bob Dylan parece ter que sempre matar a si próprio para nascer de novo — em um novo tempo. E isso fica bem perceptível em Tempest, trigésimo quinto álbum de estúdio, lançado neste ano.

Um misterioso acidente de moto em 1966 tirou Dylan da estrada e alimentou rumores

Quando o compositor apareceu, na década de 1960, como suas baladas folk, queria refundar um tempo épico, tempo dos imortais cânticos negros, que ecoavam das plantações de algodão, ou dos trabalhadores das estradas de trem que cortavam os EUA. Depois, com som eletrificado, modulado na frequência da música pop, soava sua gaita para acelerar o ritmo e tingir de cores surrealistas as palavras lançadas em letras quilométricas. Agora, em pleno século XXI, Dylan estabelece outra relação com o tempo; desta vez transfigura-se num velho bluesman.

Traz consigo, desta nova transfiguração, toda a década de 1950. Período em que o blues ainda podia ser encontrado quase in natura e que o rock surgia em conexão com a música negra da América profunda. “Se você nasceu mais ou menos nessa época, vai saber que o início dos anos 60 até talvez 64, 65, na verdade era a década de 50, o final dos anos 50”, diz o compositor na entrevista à Rolling Stone. É disso que se trata. Ao fazer blues, rockabilly, R&B e rock n roll, Dylan conecta sua música com outro tempo.

Nem o profeta folk, nem o beat elétrico; Dylan encarna um bluesman na velhice

“Em 66, provavelmente os novos anos 60 começaram a chegar em algum ponto daquela época e já tinham dominado tudo até o fim da década”, diz o compositor. E não foi justamente naquele ano que ocorreu seu fatídico acidente de moto? Pois é anterior àquele período que fala Tempest. E Duquesne Whistle já abre o disco impondo aos ouvidos uma melodia suave das antigas estações de rádio. Em Soon After Midnight, segunda faixa do álbum, é um R&B calmo, daqueles gravados na Sun Records, gravadora de Nashville, primordial para o nascimento do rock.

Já em Early Roman Kings, sétima faixa, o acordeon aparece como um recurso extemporâneo, não saudosista, que arranca o ouvinte de seu tempo. O instrumento aparece sob brumas, num blues pesado que evoca Muddy Watters. Enquanto Roll On John fecha o álbum com uma homenagem a John Lennon. Dylan busca no título de uma música sua de 1962 a referência para relembrar o ex-bealte. Lembrando que, na mitologia dylaniana, 1962 ainda faz parte da década de 1950.

A estranha capa com imagem da estátua de Palas Atenas e foto, na contracapa, de Bob Dylan dentro de um Corvette da década de 60 só atestam essa conexão do artista com outra época. A transmutação dylaniana age no (e com o) tempo. Dylan refunda temporalidades e mata a História, libertando, assim, sua música para ser sempre outra. “Transfiguração é aquilo que permite à gente se arrastar para fora do caos e voar acima dele. É por isso que eu ainda sou capaz de fazer o que faço e compor as músicas que canto e simplesmente continuar seguindo em frente”, diz na entrevista.