Esquerda impulsiona bancada conservadora (e precisa de novas estratégias de comunicação)

Culpabilizar a esquerda pela (re)eleição de Jair Bolsonaro, Marco Feliciano, Luiz Carlos Heinze? Não, não é essa a tarefa proposta nestes parágrafos. O objetivo aqui não é atribuir culpa, mas sim, falar das estratégias de comunicação para com os eleitores.

Pouco mais de uma semana depois da definição das bancadas no Senado, na Câmara e nas Assembleias Estaduais, o algoritmo do Facebook me leva a uma amostragem do círculo social que se resume a alguns valores: indignação, estupefação e incredulidade diante do sentimento de mudança e seu resultado.

A luta da esquerda está historicamente ligada aos movimentos sociais e aos direitos das minorias. A estratégia básica é a visibilidade, e é por meio dela que os movimentos buscam ser legitimados pela Opinião Pública — este conceito abstrato que desde a década de 1920 é um objeto de luta e de compreensão.

A visibilidade é um fator chave para a luta porque os movimentos carecem de recursos financeiros, de maneira geral, e sobra recurso de mobilização, pelo número de militantes. Isto impede que os movimentos atuem por meio de iniciativa interna às instituições políticas — por falta de representatividade e por baixo poder de influência, ou lobby, sobre os que ocupam estes lugares.

Uma segunda forma de atuação que se torna improdutiva é a de mobilização: os movimentos sociais, para se manterem autônomos, não se rendem às lógicas políticas dos que ocupam o poder. Assim, o poder de visibilidade fica limitado e dificilmente se origina das lideranças políticas que possuem capital o suficiente para colocarem as pautas reivindicadas na agenda pública e formal.

Desta forma, fazer barulho é a forma mais efetiva de buscar visibilidade no caso de movimentos sociais relativamente autônomos. Porém, há um paradoxo: nem sempre a visibilidade vem acompanhada de legitimidade. Com frequência, uma age como força repulsora à outra. Atribuir legitimidade a algo exige, em primeiro lugar, estratégias de comunicação que criem empatia com públicos que possuem valores diversos.

Entendo que os representantes políticos representam, de fato, os interesses majoritários da população. Tornam-se, assim, no seu conjunto, retrato de uma sociedade. Por mais que saibamos a força que o poder econômico exerce sobre o processo eleitoral, individualmente os eleitos representam formas de pensamento da população das mais diversas. E não podemos deixar de considerar que a questão econômica é uma razão de preocupação individual da população.

Um professor, uma vez, relatava a experiência que vivia semanalmente em uma linha de ônibus. No mesmo horário, toda quarta-feira, dividia espaço com trabalhadoras domésticas. Toda quarta-feira, o assunto principal era a novela do dia anterior. E em todas as vezes, a discussão residia em distintos discursos morais. Cada uma, com seus valores, aprovava ou desaprovava uma situação, e argumentavam neste sentido. Não pareciam dispostas, a curto prazo, a mudar tal opinião.

Daí percebe-se que os valores morais preponderantes que são medidos e levados em conta pelos cidadãos não costumam estar situados na racionalidade. Muitos estão, sim, mas nem de longe tendem a uma totalidade. Não podemos fechar os olhos: os fatores de decisão de um voto não estão ligados a estes valores morais da vida em sociedade.

É aqui que entra um dos principais desafios da esquerda no mundo todo: por estar estreitamente ligada às lutas sociais, que visam garantir direitos individuais e coletivos e a aceitação por parte da sociedade, percebe-se uma barreira (quase) intransponível na comunicação com um público que não possui interesse em militar por uma causa.

Não há comunicação entre os eleitores de Luiz Carlos Heinze e os movimentos que defendem “índios, gays, lésbicas e quilombolas, tudo gente que não presta”. Agricultores, do pequeno ao grande, estão interessados no crédito financeiro que terão para se proteger de uma safra ruim. Ou então, preocupados em perderem suas propriedades. Se isto serve para transitar seu voto entre outros candidatos, o contrário acontece ao considerar a homossexualidade um assunto consolidado em sua moral e irrelevante para sua vida. Ou então, a questão indígena só lhe é importante se isto incorre na possibilidade de perder seus hectares.

Não há comunicação entre os eleitores de Marco Feliciano e os movimentos que defendem que a homossexualidade não tem relação alguma com os valores religiosos e que, inclusive, eles podem coexistir, já que a orientação sexual está no desejo, e não no comportamento. Percebo que, de uma forma crescente, muitos evangélicos não concordam com a visão doentia de que o “homossexualismo” precisa ser tratado como um problema passível de cura. Aliás, a rejeição à homossexualidade é semelhante à que era praticada com os negros no século passado, quando começaram a busca por integração à sociedade após as abolições de escravaturas.

Não há comunicação entre os eleitores de Jair Bolsonaro e os movimentos que defendem a manutenção da maioridade penal em 18 anos, a investigação dos crimes cometidos pela Ditadura Militar e a igualdade de direitos entre LGBTs. Não queira acreditar que seu quase meio milhão de eleitores seja desprovido de conhecimento racional. Falamos do Estado que possui o maior contingente militar do Brasil, cuja classe tem seus interesses atendidos pelo parlamentar.

Acrescenta-se a todos estes fatores uma associação da imagem dos movimentos sociais de esquerda a estereótipos que contrariam esta moral, aliado ao estigma de décadas associando esta atuação a regimes totalitários comunistas, tem-se uma repulsa que reverte toda a visibilidade alcançada por estes grupos à perda de legitimidade da pauta.

Sim, existem inúmeros outros fatores que contribuem para este tensionamento entre visibilidade e legitimidade. Um deles é a construção de sentido que os dispositivos midiáticos fazem destas pautas. Para movimentos que dificilmente encontram espaço de representação sem visibilidade, torna-se determinante a legitimidade concedida pelo campo midiático.

Porém, enquanto as estratégias de comunicação destes movimentos não conversarem com os eleitores daqueles contra quem se luta, crucificar os líderes destes eleitores por uma resistência a pautas que não são o foco de suas atuações políticas apenas reforça a visibilidade dentre seus representados. A esquerda, articulada por razões justas, visibiliza quem não necessita de visibilidade, e capitaliza apoio de quem, por dogmas morais, não pretende relativizar estes valores tão cedo.

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