Porque nos tornamos viciados em conveniência

Todos nós adoramos algum nível de conveniência: realizar coisas de um jeito mais simples, gastar menos para obter o mesmo produto, automatizar processos. Preferimos até mesmo fugir de pessoas difíceis. Parece algo absolutamente óbvio: mais fácil = melhor. Tanto que a ideia de conveniência se tornou a base da cultura contemporânea, nosso zeitgeist.

Onde quer que você olhe, de empresas produtoras de smartphones, governos e até traficantes de drogas, o discurso é praticamente o mesmo: queremos objetos e processos mais rápidos, com menor “fricção”. Hoje isso se tornou um valor fundamental, pelo qual estamos dispostos a abrir mão até mesmo da liberdade. Estamos completamente otimizados.

Um alien que pousasse em nosso planeta talvez achasse que somos uma civilização estranhamente preguiçosa: queremos automatizar o trabalho para ter mais tempo livre, porém superlotamos esse período com entretenimento que rapidamente se torna uma espécie de trabalho, tão exigente que precisamos, também, automatizá-lo com aplicativos e algoritmos. Que também precisarão ser otimizados no futuro. É a armadilha da conveniência cega.

O problema é que, para sobreviver, a conveniência depende da ignorância. Tentamos não enxergar pelo menos 3 fatores:

1. Toda conveniência tem custos

Para ter computadores mais finos, é preciso colar certos componentes no corpo do equipamento (e tirar sua liberdade de trocá-los por si mesmo). Você não pode ter todas as portas de que precisa, vai ter que gastar dinheiro com adaptadores. A durabilidade do produto também pode ficar comprometida. Para ter comida barata e rápida, é preciso processá-la com diversos produtos químicos arriscados para a saúde em longo prazo.

Ou seja: a conveniência depende de algo que alguns economistas chamam de externalização dos custos: delegar a conta para “outro” pagar. E esse “outro” pode ser você mesmo, no futuro. Ou até mesmo no presente, só que de uma maneira nem sempre clara.

Por exemplo, um produto pode parecer melhor e mais barato. Porém, ao consumi-lo, isso causa um impacto na sociedade que gera outros custos paralelos, como aumento na criminalidade, nos impostos (para investir em infraestrutura de cidades que crescem descontroladamente), maior gasto com saúde etc.

Assim, conveniência sempre tem um preço. Resta saber se conseguimos enxergá-lo.

2. Conveniência é um instrumento político

Muitas vezes, o marketing de certas empresas vende a conveniência como algo asséptico, infalível, quase como uma concessão divina.

E então você compra o produto e percebe que aquela otimização prometida virou um defeito, ou eliminou uma função do produto que você usava constantemente, forçou você a fazer algo que não queria. Ou simplesmente se aproveitou do seu FOMO para incitá-lo a gastar dinheiro.

Embora isso não seja uma imposição armada ou legal (legislação induzindo a fazer algo), ainda assim é um tipo de coerção. Uma exploração da ingenuidade, ignorância ou impulsividade. Totalmente legalizada, é claro — que eu saiba, ninguém vai preso por promover compras de impulso. Ainda assim, é um ato político: alguém (ou uma instituição) que detém algum tipo de poder manipula outra pessoa ou sociedade.

E, como vimos, já que a conveniência vive de externalização de custos, também vai produzir um impacto político tradicional. A comodidade dos países desenvolvidos pode produzir guerras em outros locais ou trabalho em condições sub-humanas.

Porém, quando falamos sobre trabalho escravo, muitas vezes não entendemos que nós também fomos escravizados. Não é só alguém que não conhecemos, que está sofrendo numa mina da África. Todos estamos presos pelo mesmo processo.

Nós também trabalhamos como idiotas para pagar contas desnecessárias. Chafurdamos em escritórios, tomando ansiolíticos, para juntar recursos para comprar produtos que, em tese, um dia facilitarão nossas vidas. Um dia poderemos relaxar. Um dia.

3. A conveniência é uma ilusão

De modo geral, quando achamos algo conveniente (ou simples) é porque não pensamos direito sobre aquilo.

Ou nos apegamos a certas aparências, à nossa insegurança, ao desejo de pertencer a um grupo de espertos ou descolados. Afinal, precisamos de uma desculpa para não nos sentirmos estúpidos ao gastar tempo e dinheiro com coisas duvidosas.

Essa é a base que nos ajuda a ignorar que boa parte do que é chamado de conveniência apenas esconde complexidades. Ou adia o momento em que teremos que lidar com elas.

E nessa busca pelo “melhor” e mais simples, deixamos rastros, na Internet e fora dela, que são captados e rapidamente capitalizados por empresas como Amazon, Facebook e Google.

Não é por outro motivo que um dos executivos da empresa, Jason Spero, encaixa os desejos dos atuais consumidores em três pontos: “Ajude-me mais rápido”, “conheça-me melhor”, “surpreenda-me em todos os lugares”. Isso saiu de uma newsletter que é enviada para profissionais de marketing.

Quanta gente querendo me ajudar. Quanta gente tentando me fazer feliz. É o mundo da busca cega pela conveniência.

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