10 dias de monge
Hoje estou voltando para a rotina depois de uma das viagens que mais mudaram minha vida.
Não tive que ir para muito longe: o Dhamma Santi, que é o primeiro e maior centro de meditação Vipassana da América do Sul, fica em Miguel Pereira, interior do estado do Rio de Janeiro. Mas a viagem mesmo, foi para dentro.

Completei meu muito aguardado e planejado retiro de 10 dias. 10 dias de meditação — durante 10 horas do dia, dias esses em total silêncio. Sim, foi incrível.
Na primeira vez que ouvi falar do Dhamma achei que eu nunca seria capaz de levar uma vida monástica por todo esse período… mas que ótimo que eu amo um desafio ❤. Foi só uma questão de tempo e sentir que era a minha hora e lá fui eu. Fui em busca de disciplina, autoconsciência, e consolidação dos aprendizados até hoje. Mas obtive muito mais.
Antes era difícil de imaginar como realmente é essa experiência, então vou tentar descrever:
Alunos
Confesso que achei que o curso seria adotado só pela galera mais zen que eu podia imaginar. Pura inocência — várias das pessoas jamais tinham sequer meditado, mas buscavam essa paz interior pra si mesmos.
São aproximadamente 50 homens e 50 mulheres por período, mas em alojamentos distintos e a única área comum sendo a sala de meditação, também segregada. Os 50 indivíduos são alojados em dormitórios com alguns quartos cada um, um banheiro compartilhado, e cada quarto variando de 2 a 8 pessoas. Dividi o maior quarto com mais 6 rapazes, todos da mesma faixa etária — isso é relevante porque sim, não é fácil endurar a rotina, mas ter pessoas de realidades próximas todas juntas (mesmo que em total silêncio) dá bastante força. Gratidão ao Dhamma!
Alguns são alunos antigos, que fazem o curso periodicamente, geralmente 1 por ano. O curso inclusive é gerenciado e servido todo por alguns desses alunos, que estão ali como voluntários para servir e também meditar ❤. Além disso há os professores, um para os homens e outro para as mulheres, nenhum desses remunerados.
O aluno não paga nada por estar ali. A razão disso é que você vive realmente como um monge, através da graça e doação de outras pessoas. Ao final ou depois do curso o aluno pode doar o quanto achar que deve e pode, para que mais alunos possam se beneficiar como você se beneficiou.
Alojamentos

Além dos dormitórios existe o prédio da sala de meditação (acima), e o prédio dos refeitórios e cozinha. Tudo isso espalhado no meio de uma linda e pequena floresta atlântica bem montanhosa.
No meio de tanto silêncio, a natureza fala alto, e fala bem bonito.

Rotina
04:00 Chamada
04:30–06:30 Meditação na sala ou no quarto
06:30–08:00 Desjejum e descanso
08:00–09:00 Meditação em grupo na sala
09:00–11:00 Meditação na sala ou no quarto, segundo as instruções do professor
11:00–12:00 Almoço
12:00–13:00 Descanso e perguntas individuais com o professor
13:00–14:30 Meditação na sala ou no quarto
14:30–15:30 Meditação em grupo na sala
15:30–17:00 Meditação na sala ou no quarto, segundo as instruções do professor
17:00–18:00 Lanche e descanso
18:00–19:00 Meditação em grupo na sala
19:00–20:15 Palestra do professor na sala
20:15–21:00 Meditação em grupo na sala
21:00–21:30 Perguntas abertas na sala
21:30 Repouso. Apagam-se as luzes
Já deu pra ficar um tanto ansioso só de ler né?
Você só come nesses 3 (na prática 2) momentos do dia. No café-da-manhã e almoço você come o quanto quiser das opções, todas vegetarianas, claro. Ali tá escrito lanche mas na verdade são quantas duas frutas você quiser, e chá à vontade — isso só para os alunos novatos. Alunos antigos podem se deliciar do quanto quiserem de água com limão (monges não comem após o meio-dia).
A comida não é exatamente o que você chamaria de deliciosa, mas dá pra sentir que é feita e servida com carinho pelos alunos voluntários, e sim, você acaba achando ela deliciosa. No refeitório, todas cadeiras são organizadas nas mesas de forma que todos alunos encaram a mesma direção, evitando contato visual direto.
Na hora dos intervalos você pode fazer o que quiser das opções que restam: ficar na sua cama olhando pro teto, lavar sua roupa ou os banheiros, caminhar pelo bosque, ou até meditar. Os banheiros ficam tão limpos que dá pra comer no chão. Mas não tinha comida, então ninguém comeu no chão.
Animais
Parte da moral budista é não matar ou mal-tratar os animais. Sabe o que isso significa? Aranhas. Aranhas everywhere.
Como também não tinha TV, constantemente nós alunos observávamos elas devorando os pobre insetos que caíam em suas teias. Era tipo Animal Planet. Também podia ver as formigas trabalhando. E caminhando pelo bosque às vezes tinha uma cobra caminhando com você lado-a-lado, totalmente de boas.
Foi legal perceber que pequenos animais na verdade não dão a mínima pra você e vivem em paz, contanto que não se sintam ameaçados. Caso algum entrasse nos alojamentos, haviam kits salva-inseto (um pote de plástico e uma folha plastificada) que você prendia o bichinho e soltava na natureza.

O Budismo
Melhor que uma religião, pode ser entendido como uma filosofia de vida. Não dogmático, o Buda pregava algo bem simples:
“Evite o mal. Pratique o bem. Purifique a mente” .
Ou em diferente tradução:
“Não crie sofrimento. Pratique a virtude. Seja senhor de sua mente.”
Mas apesar de ter sido ensinada pelo próprio Gautama (o Buda), a técnica não tem nenhum cunho sectário — todas diferentes religiões são extremamente bem-vindas, pois toda religião tem (ou deveria ter) como essência esses mesmos valores. As aulas são ministradas por áudios deixados pelo responsável de popularizar o Vipassana no ocidente, S.N. Goenka (que respirou pela última vez em 2013).
A técnica de meditação
É realmente bem técnica. A Vipassana não utiliza nenhum mantra, visualização, ou pede esvaziamento total da mente. Vipassana significa ver as coisas como realmente são. O foco de estudo é seu próprio corpo e as sensações encontradas naquele momento, com a única qualidade de impermanência — lei universal da natureza, tudo muda, tudo passa.
A técnica mesmo só é ensinada ao quarto dia. Nos primeiros 3 dias pratica Anapana, exercício de controle da atenção e respiração, refinando o seu foco.
Ao quarto dia a coisa pega. Primeiramente você é instruído a focar na sensação do topo da sua cabeça. Nesse momento faz todo o sentido os 3 dias anteriores, pouco a pouco você vai aprendendo a sentir partes do corpo individualizadas. Do topo da cabeça você vai passando por todas outras áreas do seu corpo, com o tempo otimizando sua técnica e o tempo gasto. Essa é a parte da consciência. Mas igualmente importante para a técnica é a equanimidade. Ao identificar as sensações do corpo, você não deve as identificar como agradável ou desagradável, mas apenas como impermanente, permanecendo consciente e equânime.
O porquê disso? Porque é aceito universalmente que a essência de todo o sofrimento se resume em apego, desejo, ou aversão. A contribuição do Buda foi em identificar nossas sensações — e não os objetos — como a raiz, ou seja: o sofrimento está dentro de nós, e portanto, sob nosso controle.
“Se você tiver desapego, todas as outras virtudes virão naturalmente”, Swami Sivananda
O Nobre Silêncio
Pode não parecer, mas foi a parte mais fácil do curso. Todos o respeitam. Você apenas fala com o seu professor caso tenha alguma dúvida, e com o gerente do curso caso necessário.
Ele é estabelecido pois é benéfico para a técnica, e isso fica claro, você entra em um estado auto-centrado, contemplativo. Não é triste como parece, de forma alguma — no último dia o silêncio é removido e aí vira uma festa, todos falando pelos cotovelos e contentes da trajetória, felizes por compartilhar a experiência. Também é ensinada uma linda meditação complementar, fechando muito bem o ciclo.

Para todos interessados, chequem mais a fundo sobre o código de disciplina do curso clicando aqui.
Além do Dhamma Santi no Rio de Janeiro, existe no interior de São Paulo o Dhamma Sarana, além de outros vários no mundo todo. Já aviso: as turmas são disputadas e abrem alguns meses antes do período. Chequem os respectivos sites e não hesitem de perguntar aqui caso tenham qualquer dúvida.
Se você conhece alguém que se interessaria e beneficiaria do curso, compartilhe esse texto. Se gostou do texto, então aperte ❤ e caso queira perguntar ou acrescentar algo, fique à vontade nos comentários abaixo.
