Sobre se enxergar

Hoje eu estava vendo notícias no G1.com e me deparei com O estranho caso da mulher que só enxerga quando muda de personalidade, e não consegui terminar de ler. Tive que parar no meio e escrever sobre o que me veio à mente quase que instantaneamente.

Pra quem não quiser ler a notícia, trata-se de uma senhora que aos 13 anos sofreu um acidente traumático que afetou seu cérebro de duas maneiras: causando cegueira e também um transtorno de identidade, com múltiplas personalidades (mais de 10!). Até aqui, eu já poderia fazer muita analogia com o que vejo no comportamento em sociedade, mas essa senhora tem mais uma coisinha pra nos ensinar. Ao frequentar um psiquiatra, algo incrível aconteceu um dia:

“O mais surpreendente foi quando, na quarta consulta, encarnando a identidade de um garoto adolescente, ela recuperou a visão de repente”, disse à BBC o professor Strasburger.

Relaxa, não vou discutir Ciência aqui. Na verdade, vou! Mas é a Ciência Humana. Sociologia? Talvez. Mas vou falar de alguns distúrbios que percebi.

Tem muita gente por aí que assume diferentes personalidades. Vivemos numa sociedade que muita gente se vê obrigada a “agradar todo mundo”, mesmo não sendo obrigada a nada. Aí reflito: o quão diferente entre si são essas personalidades? Se for no mesmo nível de diferença entre Eu-no-Twitter e Eu-offline, não vejo problemas. No Twitter eu sou só mais autodepreciativo. Mas tem gente que vive mundos completamente diferentes.

Vivemos nesse momento em que “ostentação” é quase regra pra calar as “recalcadadas”, sempre tomando cuidado com as “falsianes”. Mas quem é a falsiane? Tem gente que posta fotos perfeitas com mais de 1oo curtidas, mas fora aquilo, o que se tem? Porque dentro de casa não é bem assim. Não falo de bens materiais, falo de atitudes (tipo ser politica- e ecologicamente correto no Facebook, mas jogar lixo na rua porque tem um pobre pra catar). E a pergunta é: essas pessoas tem consciência de que criaram uma versão “real” da sua versão virtual? Não, elas continuam cegas. A personalidade que contém a visão nessas pessoas é como um monstro de filme de terror a que elas tem medo de dar poder.

Também tem outro transtorno de personalidade que me incomoda bastante. É aquele em que a pessoa em determinados grupos assume comportamentos machistas, racista, LGBT-fóbicos, entre outros tipos de preconceitos, mesmo sabendo que tá errado, mesmo sabendo que ele depende de muitas pessoas que se encaixam nesses grupos que ele ofende. Essas personalidade até enxergam, mas preferem viver a personalidade que não vê, em que nada acontece.

Outro problema é aquele em que a personalidade dominante até enxerga ao mundo, mas não a si mesmas, ou ainda tem visões distorcidas. Isso ocorre porque alguém (que enxerga num ângulo completamente diferente, com cores diferentes) foi lá e impôs que isso-é-isso e aquilo-agora-é-isso-também. Quase que um daltonismo induzido, que enxerga as cores mais tristes, menos vivas, sem aqueles lindos filtros do Instagram.

Voltando ao título desse texto, Sobre Se Enxergar… nesse ano novo precisamos de novas atitudes (perdoem o clichê!). Que tal acharmos em nós aquela personalidade escondida que enxergue não só o mundo, mas a si mesmo, como realmente somos? Talvez a chave pro tratamento das múltiplas personalidades esteja nesse única que enxergue. Talvez ela seja trans, cis, gorda, magra, negra, branca, asiática, gay, lésbica, assexual, judia, católica ou muçulmana. Não importa — não muda nada — , o que importa é que ela sabe se enxergar. E só você mesmo consegue se enxergar no ângulo correto. Mas esse ângulo só se aplica de você pra você.

Quem se acerta com esse personalidade visionária (posso usar essa palavra?), acerta o ângulo e se conhece, se torna mais preparado pra mostrar isso a outras pessoas e construir novas redes sociais — que não permitem perfis fakes e que sobrevivam offline.

Feliz 2016!