O sucesso do “nada”

Um artista plástico lotou uma galeria de arte com sua exposição sobre o nada. Nosso repórter cabeça de vento conta o que não viu:

Na entrada da galeria uma sala preta. Quem consegue acender alguma luz com a ajuda do celular logo percebe que a sala não tem nada. Mais adiante um outro salão com diversas telas em branco. No centro, blocos de mármore, lingotes de bronze e barras de estanho totalmente intactos. “Eu poderia ter feito uma escultura, uma obra qualquer, mas achei que era melhor não fazer nada”, explica o artista Branco Denadai. “Meu pai sempre dizia que, se eu não estudasse, eu não seria nada na vida, então acho que minha obra me representa” — completou o artista orgulhoso.

Na terceira sala, tive as maiores surpresas. Computadores nos cantos mostram diversos perfis de redes sociais que existem há diversos anos que nunca compartilharam nada. Um livro com páginas em branco é o resultado do trabalho de um escritor que há anos pensa em começar um romance mas nunca conseguiu escrever nada.

Na parte audiovisual, uma câmera ligada diretamente a uma repartição pública mostra em uma tela uma escrivaninha com uma cadeira vazia em que se vê apenas um paletó: “É um funcionário público que trabalha há anos sem que ninguém o tenha visto”. Tem ainda um inquérito policial com páginas em branco porque, depois de um crime, as testemunhas disseram aos investigadores que ninguém viu nada.

Ainda na parte audiovisual, uma caixa de som toca músicas de Djavan que, como todo mundo sabe, são cheias de palavras lindas mas que ninguém entende nada. A um canto, deitado numa rede, está o Sr. Herculano Rolando, que segundo a mulher dele, jamais foi capaz de ajudar a cuidar das crianças, nunca sequer trocou uma lâmpada em casa, não trabalha e não faz absolutamente nada.

A parte mais animada é o bar da exposição, que reúne um grupo de homens que bebem loucamente, falam sobre as diversas mulheres que já conquistaram e olham para a bunda de qualquer uma que passa. São os homens que não valem nada! No final da exposição professores e alunos de ciências sociais debatem animadamente teorias de filosofia, antropologia e sociologia que não servem para absolutamente nada.

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