Desculpe o transtorno, preciso falar da Angelina

Por Brad Pitt*

Conheci ela num filme. Essa frase pode parecer romântica se você imaginar uma dupla de apaixonados se entreolhando em um cinema, à meia-luz. Mas nós estávamos protagonizando o filme, trabalhando. E o filme em questão era aquele bagulho chamado Sr. e Sra. Smith, do qual você certamente se lembra por nome mas nunca pensa em rever (ou até só ver). Ela fazia minha esposa. Minha irmã não tinha nada a ver com isso. Eu fazia o marido dela. Ela estava lá. E eu também. A música era, na verdade, várias, já que o filme apostava naquela vibe “filme de ação genérico com trilha sonora pop rock”. E ela estava lá. E eu também. E a Jennifer, não.

Acho que você já entendeu.

Quando o diretor mandava a gente se jogar no chão, ela caía em cima de mim. Quando encenávamos uma cena de luta, ela me golpeava com carinho e ternura. Quando nos atirávamos pro lado, trombávamos com a grossa camada de tensão sexual que se acumulava no ar, mesmo na mais banal das cenas. Foi paixão à primeira vista. Só pra mim, acho. E pruma legião insuportável de fãs shippers com péssimas ideias para nomes conjugados de casais.

Passamos algumas madrugadas conversando em uma praia no Quênia ao som dos cliques dos paparazzi. De lá, migramos para os lençóis. Dos lençóis, para a maternidade, da maternidade para todos os escritórios de adoção do mundo. De todos os escritórios de adoção do mundo, enfim, para o altar.

Começamos a namorar quando ela tinha 31 e eu tinha 41 anos, mas parecia que a vida começava ali. Vimos todos os filmes um do outro (menos Malévola. Não sou obrigado). Algumas vezes. Fizemos todas as receitas possíveis de risoto. Tá bom, mandamos a Carmén, uma de nossas cozinheiras, fazer. Mas valeu. Escolhemos móveis sem pesquisar se eles passariam pela porta, porque nossa mansão tem porta de folha dupla, então foda-se. Escrevemos juntos séries, peças de teatro e até fizemos mais um filme, insuportavelmente chato e cheio de crises, como nosso casamento ultimamente. Fizemos uma dúzia de amigos novos (ok, talvez meia dúzia de amigos e outra meia dúzia de interesseiros. É Hollywood, afinal). Sofremos com os haters, com os shippers e com tudo mais, porque ela curtia uma sofrência. Viajamos o mundo dividindo o mesmo jatinho privado. Das dez músicas que mais gosto, sete foi ela que me mostrou. As outras três foi a Jen, admito. Aprendi o que era feminismo e também o que era Maddox, Pax, Zahara, Knox e outros nomes que o Word tá sublinhando de vermelho porque não manja de Kabala.

Um dia, terminamos. E não foi fácil. Choramos mais que nas três vezes que perdi o Oscar (e na única em que ganhei). Mais que quando lemos as críticas sobre À Beira Mar. Até hoje, não tem um lugar em que eu vá em que alguém não diga: ‘cadê ela?’, e eu não me confunda entre a Marion, Jen ou ela. Parece que, para sempre, ela vai fazer falta. Se ao menos a gente tivesse adotado um sétimo filho, eu penso, ela poderia ficar com a guarda de só seis. Eu levaria o último sempre comigo (sempre = quando eu não estivesse gravando e deixando ele com a babá).

Essa semana, mais uma vez, vi aquele primeiro filme que a gente fez junto — não por acaso, uma história de amor. Achei que fosse gostar de tudo de novo. E o que me deu foi uma felicidade muito profunda de ter vivido um grande amor na vida, nascido dum filme absolutamente esquecível e genérico, totalmente desprendido da realidade. E de ter esse amor documentado nele — e em tantos vídeos, músicas, crônicas, piadas de stand-up, malditos blogs de celebridades e tabloides. Não falta nada.

Talvez só mais um filho?

*Este texto é um PARÓDIA do tão falado texto de Gregório Duvivier sobre Clarice Falcão, publicado na Folha de S. Paulo. Evidentemente, não foi escrito pelo próprio Pão Poçoo, mas sim pelo @eduperazeda. Segue ele lá no Twitter! ;D