A urbana insanidade

Há esperança para os centros urbanos: valorizar imóveis vagos.


Na época em que os meus avós nasceram, privilegiados eram aqueles com condições de morar no centro da cidade e a população era predominantemente rural. Para os meus pais, morar em um apartamento na cidade foi um anseio natural e com trabalho conseguiram. Quando nasci, morar na zona central da cidade já não era privilégio de poucos. Embora já não houvesse tantas áreas disponíveis, os espaços eram melhor aproveitados e proprietários de residências com grandes terrenos dividiam sua área para fazer dinheiro.

As pessoas deslocavam-se para seus compromissos profissionais e/ou acadêmicos majoritariamente à pé. Os pequenos mercados do centro eram conhecidos pelo nome dos donos, cafés e padarias estavam a menos de 200 metros distante das moradias.

Meu crescimento acompanhou o crescimento da cidade. Vi muitas casas sendo demolidas para construir prédios comerciais ou residenciais. Observei o aparecimento de novos loteamentos, condomínios e bairros cada vez mais afastados da zona central. Verifiquei a mudança de localização de alguns serviços públicos que acabaram por formar novos centros nos arredores.


O que até hoje não entendo é o porquê de alguns terrenos e casas no centro da cidade permanecerem em total abandono por todo este tempo (meus 27 anos de vida).

Posso imaginar interesses econômicos, desacertos familiares, falências. A lentidão da justiça também pode ter uma parcela de culpa. Mas depois da regulamentação do estatuto das cidades (lei 10.257, de 2001)quero acreditar que muitas destas distorções urbanas podem e devem ser ajustadas para o interesse social. Esta legislação, entre outras coisas, determina ação dos órgãos públicos para exigir uso destas áreas conforme plano diretor, permite aplicação de IPTU progressivo e desapropriação do imóvel em casos de descumprimento.

O fato é que passamos todos os dias pela frente de vários terrenos e casas subutilizadas ou sem uso e nada fazemos. Parece que não percebemos que este é um dos motivos de um trânsito caótico, do uso de áreas que poderiam ser moradias para estacionar nossos veículos, que estamos reféns de um transporte ineficiente e de imóveis cada vez mais distantes dos serviços e de nossa rotina (além de super-inflacionados).

Parafraseando a letra de um texto de auto-ajuda do início deste século: protestar contra aumento de tarifas de ônibus e reclamar de insegurança é tão eficaz quanto mascar chiclete para resolver problemas de álgebra. Sugiro que se comece por valorizar os espaços vagos. Vamos discutir mais a fundo!?