CRIANÇA É PESSOA ?

Tomando como base a crônica de Eduardo Leite, vou contar uma estória engraçada. Fictícia. Isso jamais aconteceu.

Estávamos eu, minha esposa e minha sogra de volta do Recife, pela estrada litorânea. Tínhamos ido receber um casal de primos que chegara dos Estados Unidos. Mas nós não sabíamos que o casal viria com uma filha. E fomos três pessoas no carro. Com mais três que vieram, éramos seis. E não se tratava do romance de Maria José Dupré.

Como a menina era pequena, não nos preocupamos tanto. Mas no meio do caminho tinha a Polícia de Barreiros. A temida Polícia de Barreiros… Como diz Eduardo, a Polícia de Barreiros é foda!

O policial pediu para eu parar. Aproximou-se e contou 1, ,2, 3, 4, 5, ….. 6.

- O senhor pode descer do carro, por favor?

- Pois não.

- Primeiro quero lhe fazer uma pergunta: “Criança é pessoa?”

- Mas é só uma criança pequena…

- Por favor, responda: Criança é pessoa?

- Sim. Acho que sim. Quando eu era pequeno não era não. Menino não opinava, não escolhia roupa, não exigia nada. Mas hoje, é diferente…

- Concordo com o senhor. Quando eu era pequeno, criança não era nem gente. Mas isso é coisa do passado. A questão é hoje. Agora. O que o senhor acha? Criança (…)

- Tá certo, entendi. Criança é pessoa!

- Tá bom. Já que resolvemos a questão filosófica, temos então dois problemas: Excesso de passageiros no veículo e passageiro sem cinto de segurança.

- Como?

- Veja bem, a gente já viu que “criança é pessoa”. O seu carro tem capacidade para 5 pessoas, como está aqui no documento. Incluindo a criança, eu contei até seis, então o senhor está com excesso de passageiros. Além disto, a não ser que o senhor tenha adaptado o seu carro, ele só dispõe de cinco cintos de segurança.

- Meu amigo, o problema é que fomos a Recife buscar um casal …

- Não importa, meu amigo. Daqui o carro não sai. Não com esse número de pessoas.

- Ai meu Deus, e agora?

- Tem uma solução.

- Tem mesmo?

- Sempre tem. É só uma questão de generosidade…

- Não entendi.

- Simples. O senhor demonstra sua generosidade para com o policial que está zelando pela sua segurança e o policial será também generoso…

- Rapaz, nem sei como fazer. Nunca fiz isso antes…

- Na vida, sempre tem uma primeira vez…

- É que eu desci do carro só com os documentos, sem carteira, sem nada. Estou com um casal estrangeiro… Como vou fazer para eles não verem… Vou ter que dar uma enrolada lá no carro, para eles não notarem… Não gostaria que… Sabe como é, né? Pega mal para a imagem do Brasil…

- Bom, o senhor tem duas opções. Mostrar aos gringos que nós somos rigorosos, solicitar um taxi, esperar o taxi chegar e pagar uma boa despesa, ou ser generoso e aproveitar a viagem…

- E qual precisa ser o tamanho da minha generosidade?

- Depende do seu coração… Mas é bom levar em conta a despesa que o senhor teria e ver o quão generoso eu estou sendo…

- Tá bom. Já que resolvemos o problema filosófico… Vamos ao lado material…

- Material não rapaz. É questão de coração…

- Entendi. Assim tá bom?

- Esperava que o seu coração fosse maior. Mas foi um prazer conversar com o senhor. Foi um ótimo papo. E bom passeio aos gringos. Mas lembre-se, quando for levá-los ao Recife, criança é pessoa. Deixe a sogra em casa. Até mais…

Minha esposa, que olhava do carro, pelo retrovisor, não entendeu nada ao ver uma conversa cordial, risonha, apertos de mão. Uma conversa entre amigos, digamos assim. E perguntou: algum problema? Respondi que não. Falei que era um antigo conhecido… que gostava de filosofia! E era muito generoso!

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